Este já não é o meu velho e querido país. Um país onde a alegria brotava espontânea, onde cada província guardava um modo próprio de viver, tão singular como as suas tradições, os seus sotaques, os seus rituais. Hoje, essa alegria rareia. Foi sendo substituída por rostos fechados, marcados por preocupações que se acumulam como nuvens pesadas sobre um céu que já não promete bonança.
A precariedade mascarada de modernidade, os salários que mal chegam ao fim do mês, o custo de vida que sobe como maré brava, as guerras e esta incerteza que se entranha nos ossos – e nos corrói como um cancro silencioso que não escolhe vítimas, nem oferece cura.
Nunca aceitarei – nem compreenderei – que se condenem à miséria aqueles que trabalharam uma vida inteira. Como se, ao reformarem-se, passassem a comer metade, a pagar metade, a viver metade. Como se a dignidade pudesse ser reduzida a números numa folha de cálculo.
E enquanto quarenta anos de descontos valem tão pouco, na política bastam doze anos de gritos e insultos para garantir privilégios que o comum mortal nem ousa imaginar. Será que, ao reformarem se, os políticos passam a comer em dobro? A pagar tudo em dobro? Ou será apenas o país que paga por eles?
Nunca entendi os cortes na saúde feitos em nome de uma poupança que nunca chega a quem precisa. Milhares de milhões foram despejados na banca, mas nos hospitais poupa-se em tudo: no tempo, nos cuidados, na vida. E eu sei isto não por ouvir dizer, mas porque o vivi.
A minha mãe agonizava há horas, presa a convulsões que rasgavam o corpo como relâmpagos. Mais tarde soubemos: era sepsis – essa sentença que, em noventa por cento dos casos, não perdoa. Mas a doutora de serviço, com a frieza de quem cumpre ordens e não vê pessoas, decidiu dar-lhe alta. “Quadro normal para a idade”, disse, como se a idade fosse desculpa para desistir de alguém.
Foi então que me rebentei por dentro e lhe gritei, já sem filtro, já sem medo:
– Se a minha mãe fosse a sua, também a mandaria para casa neste estado?
Ainda hoje sei – e dói – que aquelas ordens vinham de cima. A contenção de despesas não tem rosto, não tem mãe, não tem compaixão. E a minha mãe, com os seus 87 anos, estava a ser empurrada para morrer longe, para não pesar no orçamento, para não gastar uma injeção, um frasco de soro, um minuto de atenção.
Porém naquele dia, naquele instante, a minha revolta abriu uma brecha no sistema. A doutora, perplexa, mandou-me sair sem assinar a alta. Vinte minutos depois, um enfermeiro aproximou-se com um saco de roupa na mão e disse:
– A sua mãe fica internada. Está na cama 1 do SO.
Dias depois, transferiram-na para outro hospital, cem quilómetros mais longe. Não sei se por necessidade ou por retaliação. Mas sei que, ali, recebeu os cuidados que lhe eram devidos. E nós, mesmo naquela distância, fomos vê-la todos os dias, porque o amor não conhece geografia.
Sinto vergonha de viver num país que gera gente capaz destas e de tantas outras indignidades, sempre em nome de um “bem comum” que nunca chega ao comum. Porque não cortam nas suas mordomias? Porque não apertam o cinto onde sobra? Porque vivem no conforto absoluto aqueles que decidem o desconforto dos outros?
Quem já viu um ministro, um deputado, um secretário de Estado, um CEO, um administrador – ou qualquer dos seus satélites – numa fila das Urgências durante sete horas, com uma pulseira de plástico no pulso, como se fosse um objeto etiquetado para arquivo?
Decididamente – em minha opinião, claro – liberdade não significa – de todo – felicidade. Este país onde hoje estou a envelhecer é uma sombra daquele país de gente humilde mas com valores e princípios, que me criou e ensinou com o seu exemplo.
De onde colhemos hoje esses exemplos, valores e princípios?
Basta assistirmos a um debate semanal da Assembleia da República ou estarmos atentos aos Órgãos de Comunicação Social para ficarmos completamente elucidados.
Muitas dessas barbaridades que, em nome da liberdade, ouvimos e vemos em direto ou em diferido, não lembram nem … ao diabo.
