quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um silêncio que se instala (também) dentro de nós


Somos cada vez menos. Nas casas, nas ruas, na missa dominical que passou para os sábados, e nos poucos eventos que ainda se vão organizando. A população encolhe a olhos vistos e cada porta fechada é mais um capítulo que termina sem aviso.
Há, porém, duas exceções que resistem ao silêncio: a tradicional matança do porco em março, que ainda junta algumas centenas de pessoas num dia inteiro de convívio; e a festa da Padroeira em julho, que continua a trazer de volta alguns Beiranenses para renovarem a devoção à Senhora do Carmo e matarem saudades da terra que os viu nascer.
Mas são regressos breves, quase visitas de médico, como quem vem confirmar que a raiz ainda existe, mesmo que a árvore esteja a definhar.
Não vale a pena fingir surpresa. Nada parece capaz de travar esta sangria de gente que partiu para os grandes centros urbanos em busca de trabalho e de futuro. Ao contrário do que canta o velho Cante Alentejano, não houve esperança na partida, apenas necessidade.
E quem partiu, raramente voltou.
Desde então, um silêncio estranho tomou conta das ruas, sobretudo da parte mais antiga da aldeia. A qualquer hora do dia ou da noite, é possível percorrê-las sem cruzar viva alma. A ausência tornou-se rotina.
Na missa vespertina de sábado, o que mais impressiona é o vazio. No inverno, compreende se: população idosa, noite cerrada às seis da tarde, ruas desertas, igreja fria e impossível de aquecer. Mas mesmo no verão, os bancos continuam a ser mais do que as pessoas.
É um prenúncio do que se foi e não voltará.
Confesso que me invade uma melancolia difícil de disfarçar. Dediquei noventa por cento da minha vida a esta aldeia, às suas gentes e aos seus costumes. Lutei, à minha maneira, para que não se perdessem memórias, raízes e tradições – a herança mais valiosa que recebemos dos nossos antepassados.
Nunca pedi nada em troca. Nunca aceitei favores, tachos ou benefícios para mim ou para os meus. Pelo contrário: recusei-os, por princípios que muito prezo e dos quais não abdicarei nunca.
De tudo isso tenho provas, preto no branco.
Houve quem, tendo recebido a minha ajuda, me deixasse sozinho quando eu precisei da sua, porque era mais fácil virar a cara. Houve até quem me difamasse pelas costas. Mas continuo aqui, como sempre, de cara levantada e consciência tranquila.
Ainda assim, dou por mim a sentir que o silêncio das casas, das ruas e da igreja começa a instalar-se também dentro de mim. Talvez porque estou a envelhecer. Talvez porque os moinhos de vento contra os quais sempre lutei parecem cada vez mais invencíveis.
Não sei.
Mas sei que, enquanto puder, continuarei a resistir. Porque esta terra é o meu berço, a minha paixão e a minha vida. E mesmo quando tudo parece perdido, há lugares que não se abandonam – ficam dentro de nós, mesmo quando já quase ninguém fica neles.