Nunca forcei um sorriso. Há quem diga que se ri para não chorar, mas eu nunca soube fazer esse malabarismo. Se rio, é porque a alma está leve. Se estou triste, o rosto fecha-se e não há máscara que me valha. Sempre fui assim: transparente, para o bem e para o mal.
A verdade é que aprendi cedo a correr atrás do que queria. Mal o sino da igreja tocava, lá ia eu rua abaixo, de pés descalços e calças remendadas, decidido a ir à “mixa”. A tia Florinda puxava-me de volta com a firmeza de quem educa sem pedir desculpa. E, sem saber, ensinava-me que a vida exige coragem, disciplina e uma certa teimosia.
Um dia, com cinco anos, decidi que também queria estar nos ensaios da Sociedade Recreativa. Ninguém me convidou, mas isso nunca foi obstáculo. Fugi da mestra Vicência e apresentei-me lá, como quem apresenta um destino. A D. Mimi e o Sr. Cardoso acharam graça ao meu atrevimento e, num instante, já estava a ensaiar uma cantiga ao desafio. A mestra não achou graça nenhuma, mas lá me deixaram ficar. Talvez porque perceberam que eu não era rebelde: era determinado.
A vida seguiu o seu curso, sempre com lutas, sempre com metas, sempre com aquela inquietação que só quem quer mais, conhece. Houve noites mal dormidas, medos que não confessei, dúvidas que me acompanharam como sombras. Mas houve também conquistas, alegrias profundas e aquele sabor único do “consegui” que nunca se esquece.
O tempo passou. A idade chegou devagar, como a noite que se aproxima no fim da tarde. E, com ela, vieram silêncios novos, rotinas mais lentas, uma serenidade que não conhecia. Já não corro ao som do sino, mas continuo a ouvi-lo. Desço a rua com calma, como quem sabe que cada passo tem o seu valor. E continuo a ser o mesmo miúdo teimoso que acreditava que podia ir onde quisesse – só que agora vou devagar, sem pressas, sem puxões de orelha.
Sou grato à família que me moldou e à vida que me deu tanto, no bom e no mau. Guardo as memórias felizes, mas foram as quedas que me ensinaram a resistir. E, no fundo, continuo a perseguir o mesmo objetivo simples e difícil que sempre me guiou:
Ser capaz de ser feliz, apesar de tudo. Mesmo de tudo.
Fonte da Praça do Castelo de Milão
