As rotinas, tantas vezes aborrecidas, são também o que mantêm a mente desperta, o corpo em movimento e os dias organizados. Passamos a vida a desejar o que não temos e a desvalorizar o que, mais tarde, aprenderemos a apreciar. Somos contraditórios por natureza, raramente satisfeitos. Ainda assim, é a rotina – mesmo a mais monótona – que estrutura o quotidiano e lhe dá sentido.
Muitos imaginam a aposentação como um mar de rosas: a libertação dos horários rígidos, dos chefes exigentes, das pressões laborais. É verdade que o reformado ganha tempo, descanso e autonomia. Mas esses privilégios não escondem totalmente as sombras que se insinuam.
Com o tempo, surgem desafios inesperados: pensões curtas que exigem malabarismos, a vitalidade que diminui, a saúde que se fragiliza, a ausência das tarefas que davam utilidade ao dia. Perde-se o convívio diário com colegas que foram quase família. A inatividade, longe de ser apenas descanso, pode transformar-se em tédio, melancolia e até depressão.
A reforma coincide, muitas vezes, com a reta final da existência – fase em que a memória se torna mais viva do que o presente. Basta abrir uma gaveta antiga, encontrar uma fotografia amarelada ou ouvir uma música de outros tempos para sentir a presença dos que partiram. A saudade chega assim, sem aviso, mas com a doçura de quem recorda o que valeu a pena viver.
Ainda assim, os pequenos prazeres resistem: um convívio inesperado, uma conversa demorada, um sorriso partilhado. São estes momentos de humanidade que lembram ao reformado que ainda há vida para viver, bênçãos para colher e motivos para agradecer.
A aposentação é feita de somas e subtrações: rotinas que organizam, convívios que aquecem, perdas que doem e pequenos prazeres que compensam. Talvez o segredo esteja em reconhecer, nos gestos mínimos, a felicidade possível.
José Coelho
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