terça-feira, 28 de outubro de 2025

Uma crónica sobre lealdade, presença e memória


Spike era apenas um cachorrinho de rua quando, sem aviso, apareceu nos caminhos silenciosos do Cemitério da Consolação, em São Paulo. Ninguém soube de onde veio aquele animal de olhos atentos e andar sereno, mas aos poucos tornou-se figura familiar entre os jazigos, como se fizesse parte daquele cenário desde sempre.
Os coveiros e funcionários foram os primeiros a notar: Spike circulava entre as sepulturas, acompanhando com discrição as famílias e visitantes que, imersos na dor ou na saudade, vinham prestar homenagens aos seus entes queridos. Em dias de enterro, era certo que o cão se aproximaria em silêncio, sentando-se perto do caixão ou, por vezes, deitando-se ao lado, como quem entende a gravidade do momento. Não pedia nada; oferecia apenas sua presença tranquila, um consolo mudo para quem chorava.
Com o passar do tempo, Spike ganhou fama de guardião do cemitério. Toda a gente o conhecia. Os trabalhadores deixavam-lhe comida e carinho; os visitantes, um afago ou palavras doces. Em cada canto das alamedas havia uma tigela de água, sinal de que ali residia alguém amado por todos. À noite, o cãozinho dormia junto à capela ou enrolado ao pé de um jazigo antigo, como se aquele lugar vasto e repleto de memórias fosse, de facto, o seu lar.
O ladrar de Spike ecoava entre os mausoléus, não como ameaça, mas como declaração de existência: ele era uma vida pulsando entre tantas histórias encerradas. A sua calma e lealdade tornaram-se lenda. Diziam que sentia as emoções humanas; que se aproximava de quem mais precisava, encostando o focinho com delicadeza nos joelhos de quem se ajoelhava em pranto. Outros juravam que, a cada dia, Spike escolhia um túmulo diferente para vigiar, num rodízio silencioso de guarda e afeto.
Os anos passaram e Spike envelheceu sob o olhar atento de todos os que já não podiam imaginar o cemitério sem sua presença. Mesmo cansado, continuava a rondar os mesmos caminhos, o olhar manso e fiel como sempre. Até que, num dia qualquer, não apareceu. A busca foi ansiosa, temendo-se o pior e, ao mesmo tempo, reconhecendo o ciclo natural da vida. Encontraram-no deitado sob a sombra de uma árvore, no seu lugar preferido, como quem escolhe onde quer descansar após uma longa vigília.
A notícia da sua morte emocionou todos: funcionários, visitantes, guias, curiosos. Comovidos, os trabalhadores solicitaram uma autorização especial para o enterrarem ali, entre aqueles a quem dedicara a sua silenciosa existência. O pedido foi aceite numa exceção rara e carregada de simbolismo. Assim se tornou Spike no único animal sepultado no Cemitério da Consolação. O seu túmulo, simples e discreto, guarda mais do que um corpo: guarda a memória de um companheiro que, sem palavras, ofereceu conforto, companhia e amor.
Hoje, quem passa pelo cemitério muitas vezes se detém diante da sepultura de Spike. Uns deixam flores, outros apenas um carinho na pedra fria. Há quem diga que, de vez em quando, um vento leve sopra diferente quando se passa por ali – como se o velho guardião fiel ao seu posto, continue a velar por memórias, dores e amores.
Spike, o cão do Cemitério da Consolação, prova que, por vezes, o maior conforto vem do silêncio e da presença. A sua história permanece viva, não apenas na pedra que marca o seu descanso, mas no coração de todos os que um dia foram tocados pela sua lealdade.

(Desconheço o autor deste texto, mas conheço muito bem e por experiência própria, a lealdade destes amigos únicos no mundo).
Imagem da net

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Envelhecer - Um caminho de coragem e aceitação


Envelhecer não é, de facto, tarefa fácil. É um caminho que exige de nós capacidade para abrandar o passo e ajustar o ritmo ao novo compasso do corpo e da mente. Envelhecer é, acima de tudo, um exercício de aceitação e coragem: aceitação para vestir as mudanças do corpo com dignidade e coragem para deixar para trás a vergonha, o preconceito e os medos que a passagem dos anos inevitavelmente impõe.
Aprender a envelhecer é compreender que a vida tem o seu ciclo natural. É saber soltar as mãos de quem precisa partir – seja por escolha ou por necessidade – e, ao mesmo tempo, abrir os braços para acolher aqueles que decidem ficar. É um processo de desapego profundo, mas carregado de força, pois cada despedida e cada permanência moldam silenciosamente o ser mais frágil em quem nos tornamos.
Há na maturidade um convite à solidão saudável: aprender a caminhar por conta própria, despertar em silêncio, resistir ao peso dos dias e enfrentar o olhar daquele homem ou mulher que nos observa agora do outro lado do espelho.
É aceitar, com serenidade, que tudo na vida tem um fim.
Os sonhos, os amores, até mesmo a própria existência.
De algum sofrimento que possa ter-nos causado permaneça apenas a certeza de havermos conseguido superá-lo. E dos erros que tivermos cometido, a convicção que muita coisa com eles aprendemos.
E das inevitáveis dificuldades quotidianas, guardemos só a lembrança do momento em que conseguimos vencê-las. Sintamos gratidão por cada ano de vida apesar de tudo o que tenha acontecido, porque importante mesmo foi que nos tornou mais resistentes, experientes e sábios.
Saber dizer adeus sem se ir embora, recordar sem se perder, chorar o que for preciso até que as lágrimas deem lugar a novos sorrisos, desejos e pequenas alegrias, são parte intrínseca deste processo.
Envelhecer é, portanto, entender que cada cicatriz e cada memória guardam a prova de uma vida vivida com intensidade, coragem e humanidade.
Não é um caminho fácil, mas é, sem dúvida, um caminho rico em significado e beleza, onde se aprende a valorizar o essencial, a acolher o tempo e a celebrar cada momento, mesmo os mais silenciosos.
Texto e foto

Voltar a casa (depois das tempestades da vida)


A beleza das paisagens da minha freguesia transportam-me, vezes sem conta, para um estado de paz que desconhecia, antes de abandonar os protetores muros da minha terra natal.
São quietude que não oprime – antes embala e cura.
Nela transporta o eco dos dias passados, das memórias de infância e contrasta, de forma quase cruel, com o ruído ensurdecedor que experimentei lá fora, para além dos vales e das serras que moldaram o meu olhar.
Quem viveu a turbulência do mundo, quem sentiu no rosto a poeira da guerra e escutou diariamente o pranto da perda, aprende a valorizar o que é simples e essencial. O "regresso a casa” assume, então, o peso de um renascimento: é refúgio, é abrigo, e, acima de tudo, é reencontro com a própria essência.
Aqui, longe do caos, o tempo tem outra cadência. Cada manhã é marcada pelo chilrear das aves, pelo tilintar dos chocalhos ao longe, pela brisa que atravessa os campos e abana suavemente a folhagem. Só neste silêncio se encontram essas melodias naturais.
As sonoridades do campo tecem uma harmonia onde não há cansaço – apenas consolo e conforto.
Aqui não há sirenes, gritos ou estrondos de explosões; há, em vez disso, o murmúrio doce do vento, o ladrar distante de um cão e o diálogo invisível entre as árvores e as nuvens.
Na rotina da aldeia, cada gesto é uma oração silenciosa pela continuidade da vida, pela esperança renovada após a tempestade. O silêncio rural é, para mim, profundamente meditativo. É neste espaço de sossego que reconstruo, dia após dia, aquilo que a dureza do mundo quase me levou.
A serenidade que me rodeia e a imobilidade aparente do tempo permitem-me revisitar as minhas dores e transformá-las em aprendizagem. Aqui, sinto-me perto do paraíso – não o paraíso idealizado, mas um lugar real, tangível, onde a alma finalmente descansa.
É silêncio que não significa ausência, mas presença: presença de tudo o que é bom, simples e verdadeiro. Depois de confrontar a violência, a miséria e a morte, o regresso ao campo é o reencontro com a vida. Cada som, cada cheiro, cada cor é uma promessa de que, apesar de tudo, a paz é possível.
E foi neste refúgio que reencontrei por fim, o sentimento absoluto de ter voltado para casa.
Texto e foto

domingo, 26 de outubro de 2025

Boa semana


Sê humano e íntegro, honra sempre a tua palavra, sê grato a quem te ajudou, correto com quem te relacionas
e honesto na tua vida.

Foto José Coelho

Geração a terminar


Somos da geração que nunca mais vai voltar. Uma geração marcada por pequenos rituais que hoje soam distantes, quase lendários, para quem não os viveu. Fomos meninos e meninas que iam à escola e regressavam a pé, mochila às costas e o mundo inteiro pela frente. A pressa era sempre para terminar os deveres de casa, não por obrigação, mas para ganhar tempo para aquilo que realmente importava: brincar na rua.
Éramos os donos das calçadas, das praças, dos recantos secretos entre prédios e árvores. O tempo livre era sinónimo de encontro, de liberdade para inventar brincadeiras e histórias que só faziam sentido dentro do nosso universo. O esconde-esconde tornava-se mais emocionante com a chegada do anoitecer, quando as sombras dançavam ao nosso redor e a imaginação corria solta.
Fomos a geração dos bolos de lama, feitos com mãos sujas de terra e corações cheios de criatividade. Aventurávamo-nos à beira dos lagos, colecionando memórias e momentos de pura felicidade. Os brinquedos de papel, recortados e coloridos com cuidado, nasciam das nossas próprias mãos.
Vivemos o início da era tecnológica, que experimentávamos com encanto. O walkman era um tesouro, a cassete VHS garantia de sessões de cinema em casa e a disquete era a promessa de guardar os nossos primeiros ficheiros. Tirávamos fotos com câmaras a rolo, esperávamos ansiosamente pela revelação e colávamos os melhores momentos em álbuns de recortes, eternizando amizades e aventuras.
Vimos o nosso pai de chave de fendas na mão para consertar a televisão, ajustar a antena e ensinar-nos que quase tudo se pode arranjar com um pouco de paciência. Tínhamos pais e avós e com eles aprendíamos o valor das pequenas conquistas do dia a dia.
À noite ríamos baixinho debaixo dos lençóis, esperando não sermos apanhados acordados. Éramos cúmplices de uma infância em que as regras se dobravam e os sonhos se multiplicavam, na certeza de que, no dia seguinte, a rua nos esperava de novo.
Somos uma geração que está a terminar, uma geração de lembranças partilhadas que viveu a transição entre o analógico e o digital, entre o toque e o clique. Uma geração irrepetível, cujas histórias continuam a ser contadas em sorrisos nostálgicos, porque, infelizmente, nunca mais voltará, mas seguirá viva na memória de todos aqueles que a viveram.
Desconheço os autores
do texto e da imagem.

Venham daí

Entre a indignação e a urgência da ação cívica

Imagem desfocada mas real de um parto recente em plena rua.

Não sou, nunca fui nem serei, defensor de críticas bacocas e desconstrutivas só porque sim, de dizer mal seja daquilo que for para denegrir os meus adversários, sejam eles políticos, desportivos ou quaisquer outros com quem não comungue ideias.
Porém e porque o Serviço Nacional de Saúde (SNS) atravessa um dos seus períodos mais críticos desde a sua fundação, torna-se impossível esconder a indignação perante o estado a que se chegou:
Relatos diários de encerramento de urgências, dificuldades no acesso aos serviços, falta de recursos humanos e materiais, decisões políticas que, ao invés de resolverem, parecem agravar a crise instalada.
É impossível ignorar as promessas públicas feitas pelo atual governo e, em especial, pela ministra da Saúde, que garantiu de forma enfática que bastariam 60 dias para resolver os principais problemas do SNS.
O desfasamento entre discurso e realidade é hoje mais evidente do que nunca porque, bem pelo contrário, assistimos ao encerramento de urgências de obstetrícia e ginecologia, obrigando mulheres grávidas a deslocarem-se longas distâncias, por vezes resultando em partos nas ruas, passeios e estradas, em situações de risco e indignidade.
A situação agrava-se cada vez mais perante a incapacidade de garantir resposta de emergência eficaz por parte do INEM, potenciada pela ausência de contratos atempados para o serviço de helicópteros.
São vidas humanas postas em risco por decisões – ou indecisões – administrativas que revelam falta de planeamento e responsabilidade.
Junta-se a isto a substituição em massa de conselhos de administração hospitalar, despedimento de enfermeiros e a ausência de diálogo construtivo com profissionais do setor, minando ainda mais a confiança e o funcionamento de todo o sistema.
Enquanto cidadãos não podemos ficar indiferentes.
Tal como se compreende e apoia a mobilização em torno de causas internacionais, torna-se premente um movimento interno de solidariedade.
É tempo dos portugueses se manifestarem de forma massiva e pacífica, exigindo mudanças urgentes na política da saúde, pela dignidade dos doentes, dos idosos, das grávidas e de todos os que dependemos do SNS.
A sua defesa é, acima de tudo, um dever de cidadania.
O momento exige união, reivindicação por soluções concretas e a exigência de responsabilidades políticas, incluindo, se necessário, a demissão dos responsáveis máximos.
É fundamental recordar que a saúde pública é um direito constitucional, e cabe a todos lutar pela sua efetiva concretização.
Em suma, é tempo de agir, de não permitir que o desespero se instale nem que vidas continuem a ser postas em risco por inação ou falta de visão estratégica.
Que cada um de nós assuma o seu papel pela defesa do SNS, em nome de uma sociedade mais justa e solidária.

Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...