São quase incontáveis os lugares - muitos deles milenares - que percorri na caminhada da vida. Da minha freguesia e das freguesias vizinhas.
Conheço-os de cor. Percorri-os a pé, sozinho e acompanhado, inúmeras vezes. Nunca tive sequer uma bicicleta quando a maior parte dos meus amigos até já motorizadas possuíam e nunca me senti minimamente diminuído por as não ter. Muito novo compreendi que na vida existem prioridades e que a família é de entre todas, a primeira. O pouco que ganhava fazia falta para colmatar algumas dessas prioridades e não dava para mais.
Por isso, quase sempre com algum livro debaixo do braço, nos meus dias de descanso semanal - domingos - marchava a pé por esses "bardalhais" perdendo-me horas a fio na companhia do vento até ao pôr do sol e quantas vezes a noite me apanhou ainda longe de casa.
Havia veredas tão seguras como estradas e nelas eu sabia onde se situava cada obstáculo a contornar. Hoje nem com óculos graduados as vejo já bem. Mas naquele tempo no meio do mato e em noites cerradas eu “via” a vereda, o caminho, os obstáculos.
Mais do que boa visão, era instinto.
E que bem sabia o sossego dos campos na companhia das furtivas raposas e do musical gorjeio dos melros, dos rouxinóis, dos grilos e dos ralos.
Aquele era o meu mundo onde era imensamente feliz.
Por isso passados muitos sóis continuo a visitá-lo de quando em vez, as pernas já a doerem e os pés a pesarem mais.
A última vez fui acompanhado pela minha companheira de vida e quando demos conta estávamos demasiado longe para as nossas escassas energias. Mas gostei. Para além da excelente companhia enchi os olhos de harmonia e o coração de serenidade. Antes de sairmos de lá olhei demoradamente à minha volta, acariciei as omnipresentes giestas e pensei emocionado:
- Será que aqui voltarei mais alguma vez?
Disse olá a uma bonita vitela que assim que nos viu logo se encaminhou para nós e pregou um susto monumental à marida que pensou que ela ia dar-lhe alguma marrada.
- Não tenhas medo! Tranquilizei-a…
A bezerra pastoreava tranquila por entre as altas giestas no Monte Velho do tio João Forte com mais duas ou três irmãs e habituada a que o dono lhes leve sempre algum mimo em forma de feno ou granulado de ração, dirigiu-se a nós à espera do seu “presente”.
Mas quando percebeu que não lhe levávamos nada, continuou o seu caminho.
E nós, o nosso.
Estava uma tarde serena e no ar pairavam os intensos aromas dos pastos a secarem ao sol. O cenário transportou-me à minha meninice quando passámos pelo carcomido toco do sobreiro que um raio derrubou quase ao meu lado quando era pastor, já meio desfeito pelo tempo mas ainda todo negro pela descarga incandescente que caiu do céu e o rasgou de alto a baixo.
E lá continua, indiferente ao tempo e às minhas memórias.
Um pouco mais à frente saltámos para a Tapada da Lagem Alta onde mesmo junto à vereda continua e vai continuar pelos séculos dos séculos o cancho – que fotografei emocionado e aqui reproduzo – de onde eu pulava sem parar naquela manhã em que um lacrau que morava debaixo dele me picou num dedo dos pés, enquanto a minha mãe mondava milho poucos metros mais abaixo.
Sem que isso signifique que continuo a viver no passado, é tão bom e sabe sempre tão bem revisitar esses locais que guardam silenciosamente esses testemunhos da minha meninice e juventude para atestarem quanto foram abençoados e felizes mesmo com sustos em tardes de trovoadas ou ferroadas de escorpiões.
Se puder, quero lá voltar pelo menos mais uma vez.
Ou duas...
Ou…
Só Deus sabe.
