sexta-feira, 8 de agosto de 2025

A farda é uma segunda pele

Vou descrever-vos hoje como, sem ajudas nem cunhas a moverem influências a meu favor, tive o privilégio de ingressar na Guarda Nacional Republicana, onde a educação, a camaradagem, a honra e o respeito entre os seus efetivos, quer superiores, quer subordinados, foram sempre preceitos que cumpri escrupulosamente desde o dia em que prestei o meu Compromisso de Honra em praça pública até ao dia em que passei à situação de reforma.

Soldado nos primeiros quatro anos, Cabo depois por frequência em Curso de Formação adequado com Aproveitamento durante o ano letivo – outubro de 1982/junho de1983 – no Centro de Instrução da GNR da Ajuda em Lisboa, imediatamente a seguir, aproveitando os conhecimentos adquiridos no Curso de Promoção a Cabo, submeti-me às provas de aptidão escritas físicas e psicotécnicas para o 6º Curso de Formação de Sargentos que frequentei com sucesso e teve a duração dos dois anos letivos escolares seguintes entre outubro de 1983/junho de 1984 – Parte I ainda Cabo, e de outubro de 1984/junho de 1985 – Parte II, já graduado em Furriel .

Após promovido a Segundo-sargento, comandei entre agosto de 1985/outubro de 1991 um efetivo de distintos profissionais no Posto de Nisa e posteriormente de novembro de 1991/outubro de 1992 no de Castelo de Vide, alguns dos quais ainda hoje estimo e me estimam também. Nomeado para a Escola Prática de Infantaria em Mafra em abril de 1992 a frequentar o Curso de Promoção a Sargento Ajudante - Parte Militar, durante três meses com Aproveitamento, foi a Parte Técnico Profissional depois ministrada por igual período de tempo na Escola da Guarda em Queluz e também com Aproveitamento.

Terminada a formação do CFSA fui pouco depois promovido e colocado em 07 de outubro de 1992 a comandar a Secretaria da CCS do Agrupamento de Instrução de Praças de Portalegre em acumulação com as funções de Instrutor dos Cursos de Formação de Praças nas disciplinas de Armamento, Regulamentos Policiais, Legislação da GNR e Dactilografia. Terminei a carreira, a meu pedido, em 03 de novembro de 2003 por já ter ultrapassado os 36 anos de serviço obrigatórios para a reforma, apesar de só já me faltar um mês para ser promovido ao posto de Sargento-Chefe. Desempenhava então nessa altura há já quase dois anos, as funções de Chefe da Secretaria-Geral daquela Subunidade da Escola Prática da Guarda.

E porque é que estou a descrever tudo isto? Para comprovadamente poder afirmar que fui militar quase toda a minha vida, desde a Recruta no BC8 em Elvas desde 04 de maio de 1971 até 03 de novembro de 2003 no AIP/Portalegre onde passei à situação de reforma. Uma vida inteira. Conheci mais de uma dezena de Senhores Oficiais Generais do Exército porque até há pouco tempo atrás eram sempre do Exército os nossos Excelentíssimos Comandantes-Gerais, conheci dezenas de outros senhores Oficiais superiores que foram os meus Comandantes de Batalhão e conheci dezenas de Senhores Capitães, Tenentes e Alferes que foram os meus Comandantes de Companhia ou de Secção.

Todos eles sem exceção, eram profissionais extraordinários. Humanos, respeitadores e respeitados, educados e solidários com os seus semelhantes e subordinados, sendo de sublinhar que quanto mais elevada fosse a sua patente, mais a sua urbanidade se evidenciava perante todos. Tenho por isso um orgulho imenso de ter sido militar da GNR onde não era hábito discriminar nem insultar Camaradas Soldados, Cabos, Sargentos ou Oficiais e onde ética e militarmente não só me formei como profissional das Forças de Segurança, como também me formei no Cidadão que sou.

Recebi dos meus diversos Comandantes cinco diplomas de louvores, desde Major-general a Capitão. Fui ainda agraciado com as medalhas que me foram sendo atribuídas ao longo do meu percurso militar. A primeira foi a Medalha Comemorativa das Campanhas em Angola com a Legenda 1972/73/74 publicada na Ordem de Serviço Nº 62 do BCav3871 de 14/3/1974, a segunda foi a Medalha Militar de Cobre da classe do comportamento exemplar publicada na Ordem de Serviço do Batalhão 3 da GNR Nº 213/1981, substituída posteriormente pela de grau prata, e, finalmente, a Medalha de  Mérito da Segurança Pública – Duas Estrelas.

E não foi, podem ter a certeza, por ser um lambe-botas.

Muito pelo contrário.

Sinto-me por isso no direito de afirmar que, no meu entender, qualquer ex-militar seja de que patente for, que criminosamente ofende, insulta e difama camaradas seus de todas as patentes em tertúlias de amigos e até nas redes sociais – esta na forma pública que agrava a pena do crime – nem para varredor da parada de um quartel devia servir, já que, desde o primeiro minuto aos recrutas ou cadetes são exigidos os tais valores e princípios inalienáveis que referi no primeiro parágrafo.

Quem os não possui não é sequer digno de vestir uma farda.

E ponto final.

Citando o Excelentíssimo Senhor General Octávio Costa,

A farda não é uma veste que se despe com facilidade ou até com indiferença, mas uma segunda pele que adere à própria alma, irreversivelmente e para sempre”.

Não pretendo com isto considerar-me mais cumpridor que ninguém.

Só não me envergonho do meu percurso que foi feito a pulso e a duras penas quer no Exército quer depois na Guarda Nacional Republicana, trabalhando dia a dia honrada e afincadamente no único e exclusivo propósito de bem servir o meu País.  

Disse

José Coelho