Nasci e cresci na década de 50 do Séc. XX, uma época extremamente complicada do Pós II Guerra Mundial e Guerra Civil da Espanha onde residiu e continua a residir ainda a maior parte da minha família materna. As consequências inevitáveis quer de um, quer do outro conflito, estendiam-se por toda a Europa e na Península Ibérica a pobreza quase extrema assolava a maior parte das populações que sobreviviam como podiam de parcas jornas e do que a terra dava.
Não havia pedacinho de chão que não fosse aproveitado para semear, plantar e colher o que se punha na mesa o ano inteiro, porque cada família tinha de auto sustentar-se com o que colhia das hortas e com as aves de capoeira que eram a principal fonte de carne e ovos. Os mais afortunados conseguiam ainda engordar um porco para os enchidos das merendas e quem não conseguia tinha de os comprar semanalmente nas mercearias das aldeias, muitas vezes fiados.
Nasci, cresci e fui educado por essa categoria de gente que não sabia ler nem escrever, mas trabalhadora, íntegra e completa até à medula, nos seus valores. Família, vizinhos e amigos. Desde que me lembro de ser gente e até há bem poucos anos atrás, nunca as portas da casa dos meus pais se fechavam à chave. De dia ou de noite, quer a porta de entrada, quer a porta do quintal. Havia total confiança nos vizinhos e em toda a aldeia. E ao contrário dos tempos que correm, quando alguém batia à porta era-lhe prontamente respondido de dentro da casa:
- Entre, quem é!
Parece um conto de fadas, não parece? Mas não foi. É a descrição da mais pura e absoluta verdade. Eu só escrevo aquilo que vivi ou vi acontecer. Talvez um pouco poetizado sim, mas absolutamente autêntico.
Nasci, cresci e fui educado por essa excecional categoria de pessoas que nos ensinavam desde o berço de forma espontânea os seus valores e princípios que por nós eram naturalmente aprendidos. Obviamente, tal como existe terra fértil onde se reproduz e multiplica a boa semente, também existe outra terra mais débil onde ela cai mas não consegue enraizar-se, reproduzir-se e multiplicar-se, ainda que a sementeira tenha sido a mesma.
Por isso na História da Humanidade sempre houve, há e continuará a haver, pessoas que sendo da mesma geração ou até da mesma família, têm comportamentos completamente opostos.
Assim se cumpre inevitavelmente o princípio da diversidade.
Porquê esta prosa?
Estou de luto há já três anos porque fiquei inesperadamente e de forma absurda sem a minha primeira ama, aquela que muitas vezes cuidou de mim, a minha irmã mais velha. Não escrevo “a minha preferida” porque não há irmãos preferidos, há irmãos, ponto. No meu caso três irmãs. A primogénita Adelina dos Santos que Deus prematura e injustamente chamou, a seguir vim eu quatro anos depois, a Maria da Luz seis anos depois de mim e por fim a caçula Joaquina Maria que se apresentou à família quando já eu tinha dez.
Sinto-me ainda de luto três anos depois porque somos sangue do mesmo sangue e porque é impossível ficar indiferente a tão inesperadas perdas. É a minha história de vida a extinguir-se aos poucos, são as minhas raízes a perderem-se inevitavelmente, são mais histórias de dias felizes que vou ter de arquivar na memória já tão cheia, mas que só desaparecerão para sempre no dia em que eu for ter com todos os que já lá estão.
E, atualmente, não sei se é comum se cómodo, dizer-se, como eu ouço por aí:
- Ah e tal, o luto já não se usa!
Homessa! Não se usa? Mas no Amor Fraterno também se aceitam modas e tendências? Que raio se passa na cabeça e no coração das pessoas para banalizarem assim aquilo que temos de mais sagrado e autêntico na vida? Jamais alinharei por essas modas cruéis e rejeito absolutamente tais tendências.
Banalizar a perda dos nossos entes queridos, de quem nos deu a vida e criou, nos ensinou a sermos gente e por nós fez sabe Deus quantos sacrifícios ou se privou de quantas coisas para que não nos faltasse nada, tratar a perda de mãe ou pai, avó ou avô, irmã ou irmão, como se fossem meros desconhecidos, não é para mim, de todo, compreensível.
Não me interessa minimamente o que cada um faz, mas fico profundamente surpreendido quando vejo pessoas sem luto nenhum no funeral dos pais, ou netos/as aperaltados/as com coloridas vestes como se fossem para um pub conviver com amigos ou para um desfile de moda na mais absoluta indiferença pelo respeito que é devido aos que partem e eles tanto mereceram toda a sua vida.
Não se usa? Uma ova!
Moda? Qual quê!
Comodismo, indiferença, desrespeito, desamor.
Quem assim age não se identifica de modo nenhum, comigo. Se calhar – com todo o respeito e carinho que sinto também pelos animais – se fosse algum gato ou cão de companhia que se finasse por velhice, não faltariam fotos com sofridas declarações de dor e luto dos seus desgostosos donos em todas as redes socias, também tão em moda agora.
Esta inversão de valores e princípios que inundam a sociedade é surpreendente, aflitiva, confrangedora. E a pandemia Covid19 veio dar-lhe uma achega quando as autoridades sanitárias decretaram o fim dos funerais com a presença de familiares e amigos. Que jeitão essas regras vieram dar a quem já não queria saber dos pais, avós ou irmãos idosos, quando eles ainda estavam vivos! Desde então acabou-se praticamente com os velórios e todos os defuntos passaram a ser tratados por igual, infetados ou não.
Decididamente vivemos tempos sumamente estranhos quando vemos todos os dias fotos com laços negros em sinal de luto pelo animalzinho de companhia que morreu, mas nem uma roupinha cinza-escuro se veste, quando morrem pais, irmãos ou avós.
Porque já não se usa...
