sábado, 2 de agosto de 2025

Faz-me o vento companhia


É um amigo que nunca vi mas de quem gosto, pese embora às vezes seja mais agreste do que a conta. Há quem ache o seu uivo sinistro quando vem zangado, mas a mim nunca meteu medo. Nos serões à lareira ouvi-lo rugir no côncavo chapéu de telhas da chaminé da nossa cozinha era para mim a glória bendita, porque, indiferente à fúria com que ele embatia nas tijoleiras lá em cima, o lume de lenha crepitava sossegadamente cá em baixo na pedra da lareira sem oscilar minimamente, oferecendo calor e conforto a toda a família em seu redor.

E em vez de sentirmos medo, o estrondo da invernia lá fora fazia com que nos sentíssemos ali abrigados e em segurança. Hoje, a muitas décadas de distância, rodeado de conforto e de mordomias que à época não existiam, sinto infinitas saudades de coisas tão simples como aqueles serões de inverno ao lume onde a minha mãe preparava a ceia depois do seu dia de trabalho no campo.
À medida que fui adquirindo novos conhecimentos, fui também, em simultâneo, aprendendo a lidar com o meu invisível amigo, de modo a não me deixar vencer por ele.
Coisas tão básicas e simples como acender um lume ao relento para me aquecer nos dias mais agrestes sem ter de gastar a “caixa dos palitos” inteira. E acender também o lume no pico do verão no meio do restolho das searas para cozinharmos o almoço sem deitar fogo à tapada toda, era outra aventura repleta de truques e cuidados.
Apesar de os camponeses cozinharem permanentemente as suas refeições em lume de chão fosse onde fosse, ou em que época do ano fosse, os cuidados eram tão eficientes que nunca havia os fogos assassinos de pessoas e do ambiente, como há agora.
A vida revelou-me segredos que o meu invisível amigo até hoje ainda não descobriu. Por exemplo, como é ele capaz de levar quase tudo à sua frente quando se zanga, excepto os cones em giesta das coberturas das aparentemente frágeis sóchas em que os habitantes desta região viveram, até há poucas décadas atrás.
Ah pois!
Destelha sólidos telhados, arranca coberturas inteiras de armazéns, barracas e barracões, mas uma frágil sócha de giestas bem feita, ainda nunca conseguiu “destapar”.
Tem de as deixar de pé exatamente como as encontra, seja qual for a força que traga com ele. Aquela forma cónica das suas coberturas não permite que ele lhes pegue ou as derrube, porque não encontra frinchas ou fraquezas por onde possa entrar ou pegar.
Limita-se por isso a seguir o seu caminho depois de inutilmente se enrolar em redor do hirto cone vegetal tão sabiamente inventado pelos nossos ancestrais para enfrentar a sua impetuosidade e resistir-lhe.
Tive a sorte e o privilégio de os meus avós e tios maternos serem quase todos guardadores de rebanhos. E todos eles viviam parte do ano em sóchas e sôchos onde eu dormia quando os ia visitar.
Já agora e porque muita gente não saberá qual a diferença entre ambos, explicarei que a sócha é uma construção circular fixa com vários diâmetros de raio, contruída sobre uma sólida parede feita de pedra seca – sem cimento ou qualquer outra argamassa – com mais ou menos metro e meio de altura e uma porta de madeira. Sobre essa parede é montada em cone uma armação de paus compridos direitos e pouco grossos, afastados entre si vinte ou trinta centímetros e solidamente amarrados uns aos outros com arames desde a base até ao bico da estrutura.
A seguir essa estrutura é meticulosamente coberta por várias camadas sobrepostas de giestas verdes, as quais, à medida que vão secando se vão transformando numa compacta e impermeável cobertura.
Quentes no inverno e frescas no verão, de um dos lados do círculo interior ficava normalmente a zona de estar e comer, ao centro e bem por baixo do topo do cone um quadrado no chão feito de lajes para o lume, enquanto do outro lado do círculo interior ficava a zona de dormir quase sempre sobre tarimbas de madeira forradas com restolho macio, por baixo das quais se guardavam roupas e víveres.
Todo o espaço interior era sabiamente aproveitado como se pode deduzir.
Capaz de afrontar também qualquer temporal o sôcho era o primo-irmão da sócha, embora muito mais pequeno e desmontável para se poder mudar de sítio sempre que isso se tornava necessário. Todo feito em giesta ou palha de centeio dispostos também em camadas sobre uma armação côncava de varas verdes de vime (ou outra madeira flexível) previamente entrelaçadas e fixadas, era composto por quatro peças amovíveis.
O lado côncavo direito, o lado côncavo esquerdo, o centro posterior em semi-arco para unir os dois lados côncavos direito e esquerdo, e, finalmente, o centro frontal amovível que fechava o espaço e simultaneamente fazia de porta para utilização diária.
Era montado num cabeço das cercanias do bardo onde o gado pernoitava durante grande parte do ano. Cada vez que o rebanho mudava de um para o outro extremo da herdade, o sôcho era desmontado para voltar a ser montado no novo local de pernoita do pastor e do gado.
Mas voltemos ao meu invisível amigo que já vai longa a prosa!
Em dias menos bons da minha vida e foram muitos, o sussurro das folhas nos ramos das árvores que ele suavemente balança quando vem calmo, ajudou-me tantas vezes a sossegar inquietações.
E há lá coisa mais repousante do que deitar-se uma pessoa sobre a erva dos campos a observar as brancas nuvens de algodão no seu deslizar pelo céu azul?
É, seguramente, o meu mais velho e fiel companheiro.
Sempre nos respeitámos um ao outro. Se me parece que vem muito zangado, não o afronto. Viro-lhe as costas, abrigo-me e deixo-o passar. Se pelo contrário vem manso em forma de brisa, gosto de o sentir no rosto e de ouvir aquele suave e melodioso murmúrio que nele parece transportar o timbre da voz das pessoas queridas que há muito deixei de ouvir...
Texto e foto