terça-feira, 23 de setembro de 2025

Entre a caridade e a realidade


Sete-Rios, com a sua estação intermodal, é muito mais do que um simples ponto de passagem na cidade de Lisboa. É um microcosmo do mundo, onde diariamente milhares de pessoas de todas as nacionalidades se cruzam, vindas e indo para todos os cantos do país e, quem sabe, do mundo. O fluxo incessante de viajantes, trabalhadores, turistas e residentes faz desta estação um verdadeiro palco de histórias singulares, repleto de diversidade na oferta de destinos e na riqueza humana que ali se encontra.

Foi numa tarde quente em finais de verão que tive a oportunidade de observar uma dessas pequenas narrativas urbanas que, de tão corriqueiras, quase passam despercebidas. Eu e a minha companheira, após mais uma viagem, procurámos refúgio no movimentado bar do lado oposto da gare, à espera da hora para o regresso a casa. Mal nos sentámos, fomos abordados por vários indivíduos que, com semblantes estudados e vozes lamuriosas, pediam insistentemente uma moeda, recorrendo a frases já ensaiadas como:

“Ainda hoje não comi nada!”.

A frequência desses pedidos, a variedade de quem os faz – homens e mulheres, de diferentes origens – e a forma como se apresentam, com roupas ora asseadas, ora desleixadas, sugerem mais uma encenação do que um verdadeiro estado de indigência.

Para muitos, ali, pedir tornou-se um modo de vida, e não um último recurso de sobrevivência.

Enquanto esperávamos, uma cena chamou particularmente a minha atenção. Na mesa ao lado, duas senhoras, de ar afável, testemunharam a minha recusa educada mas firme a um destes pedintes. Talvez incomodadas pela minha resposta, prontamente chamaram o homem, oferecendo-lhe não uma moeda, mas uma sanduíche e uma bebida. O gesto, carregado de boas intenções, foi recebido pelo destinatário com um desinteressado “preferia uma moedinha”.

Pegou nos alimentos, afastou-se e, sem sequer abrir o que lhe fora oferecido, depositou tudo no lixo antes de desaparecer escadas abaixo, em direção à gare.

O desconsolo das senhoras foi evidente, expressando-se num “oooohhh” coletivo, enquanto um funcionário do bar, com sotaque brasileiro, lhes tentava consolar: “São uns cafagestxis…”.

No entanto, a senhora que havia tomado a iniciativa do gesto solidário, talvez para se confortar, concluiu:

“Fiz o meu dever e isso é o que me importa.”

Este episódio, tão comum em grandes cidades, levanta questões sobre a fronteira entre a genuína necessidade e a manipulação das boas vontades alheias. Numa sociedade cada vez mais urbanizada e multicultural, a compaixão é posta à prova diariamente. Se, por um lado, é fundamental manter o respeito e o amor pelo próximo, por outro, é igualmente importante não se deixar enganar por quem faz da caridade alheia um modo de vida.

A minha postura continua a ser de respeito pelo outro, procurando sempre ajudar dentro do que é possível e sensato. No entanto, aprendi a ser cauteloso, a não ceder à primeira abordagem e, sobretudo, a distinguir entre quem realmente precisa e quem apenas explora a generosidade dos outros.

Sete-Rios, com o seu constante cruzamento de vidas, é um espelho das complexidades humanas: solidariedade, desilusão, esperança e sagacidade. No fundo, cada viagem, cada encontro, é uma oportunidade de aprender mais sobre os outros – e sobre nós próprios. E, tal como a senhora da esplanada, termino com a certeza de que importa, acima de tudo, agir de acordo com a nossa consciência, sem jamais perder a humanidade, mas também sem ingenuidade.

José Coelho

Resmunguices

Preparado p'ra Senhôd'Éstrela 2025, Padroeira do Concelho

No sossego da minha casa, rua e aldeia, onde só o cantar das rolas pousadas nas chaminés ou da outra passarada que habita nas árvores das redondezas quebram o silêncio reinante, as primeiras horas da manhã de cada dia são normalmente dedicadas à leitura de alguns jornais diários em suporte digital para “espreitar” o mundo, ou “escrevinhar” algo para o “meu vício da escrita” ou outras redes sociais. 

Por companhia uma brisa morna deste início de outono que se filtra pelas venezianas das janelas em direção às outras divisões da casa e se vai transformando numa  suave corrente de ar que refresca todo o rés-do-chão de forma natural, melhor do que os ares condicionados.

De vez em quando uma voltinha pelo quintal a verificar a água dos baldes onde a pardalada bebe e trocá-la por água fresca, regar a salsa, as dálias, as roseiras e os vasos, mais uma varridela nas folhas que já começam a cair… 

E pronto. 

Está feita a parte da manhã. Segue-se o almoço tranquilo com a minha companheira, depois escriturar algumas coisas na contabilidade relativa aos compromissos em prol da comunidade que assumo há vários anos. 

Assim se passam as horas até que cai a tarde.

Quando me lembro o quanto aspirei pela reforma e quantas vezes pensei se algum dia lá chegaria, estava tão, mas tão equivocado. 

O tempo é sem dúvida o melhor mestre. 

Quando somos crianças ansiamos ser adultos. Quando somos adultos pretendemos ser mais adultos ainda e quando atingimos a maturidade queremos voltar às nossas raízes a pensar como vai ser bom ter o tempo todo só para nós, longe de quaisquer preocupações. 

Puro engano. 

Quando alcancei o sonho, fartei-me dele em três tempos. 

Os primeiros meses foram de facto de puro deleite. Deita-me à hora que me apetecia sem preocupações para o dia seguinte, levantava-me quando me dava na gana sem olhar sequer para o exigente relógio que durante décadas me gritara às sete da manhã: 

Levanta-te…

Tomado o pequeno almoço ia a correr para o quintal de novo, onde nenhuma erva tinha sequer autorização de assomar à face da terra, quanto mais de crescer, porque eu andava quase de lupa a vigiá-las para as liquidar sem dó nem piedade no momento seguinte. 

Depressa porém percebi o ridículo do meu comportamento, porque não se pode impedir a erva de crescer nem os maios de florir. 

E aos poucos os dias começaram a ser enormes, inúteis, insípidos e enfadonhos. 

Até as rotineiras caminhadas pelos bonitos campos da freguesia acabam por ser sempre mais do mesmo, porque conhecemos já de cor cada pedra, cada fonte, cada arvore do montado, cada caminho, vereda ou casa por mais longínquas que sejam.

Por incrível que pareça e habituadas à nossa presença, nem sequer as raposas fogem de nós. 

Param apenas nos olhar como que em resposta ao nosso "olá vizinha" e seguem o seu caminho na incessante busca do cada vez também mais escasso alimento, porque até os coelhos bravos que eram a base da sua alimentação e outrora tão abundantes por estes canchais, estão em vias de extinção.

É isto a reforma?

Quem dera ter que levantar-me de novo cada manhã para ir trabalhar! 

Vá lá a gente entender-se...

Nunca estamos satisfeitos com o que temos. 

Verdade mesmo!

José Coelho

Saudades


Eram dias e semanas de intensa felicidade. Em tempo de férias escolares e com os papás a trabalharem, a neta Francisca vinha para a aldeia para junto dos avós. E não tardava que a neta Mariana quisesse também fazer parte da "equipa" e se apresentasse de armas e bagagens para ficar conosco até que lhe apetecesse.

Era muito bom, mesmo.
A Toca dos Coelhos normalmente monótona, arrumadinha e silenciosa, enchia-se de vida, de gargalhadas e da saudável bagunça que é sinónimo evidente da presença de crianças descontraídas e felizes.
Quase tudo lhes era permitido aqui. As refeições sempre "à la carte" com direito de opção e apenas uma cláusula inegociável que não provocou qualquer greve porquanto as partes aceitaram o trato de comum acordo; sopinha de legumes quer ao almoço, quer ao jantar e no mínimo, caço e meio...
Cumpriam sem protestar e portavam-se lindamente. Duas autênticas senhoras!
Ah pois...
Ao pequeno almoço, as panquecas ou "manhãzitos" preferidas, com nutela. Eu pronunciava propositadamente "pan-cuecas" para elas rirem divertidas:
- Avô, não se diz "pan-cuecas"! Diz-se pan-ke-kas...
- Ai é??? Mas aqui na embalagem diz pan-qu-é-cas...
- Eheheh...
Manhãs, tardes e serões inesquecíveis.
A hora de levantar era... quando cada uma acordava. Sem toque de alvorada nem de recolher. Férias eram férias. Já bastava terem de levantar-se às sete da manhã em tempos de escola, e, principalmente no inverno, saírem do quentinho da cama para o ar gélido, ainda meio noite.
A casa dos avós tinha de significar o refúgio acolhedor que lhes garantia muitos mimos e também algumas transgressões às regras, sem que isso significasse bandalheira ou quaisquer faltas censuráveis. Nada disso. Como eu guardo as mais doces recordações dos meus, quero deixá-las também na sua infantil memória.
Não havia dois dias iguais. Eram todos divertidos, diferentes, havendo de tudo um pouco.
O pior eram as saudades dos papás que às vezes eram muitas. Porém, nada que não se resolvesse com uma rega às plantas do quintal ou ir tratar dos animais da quinta imaginária que as duas partilhavam.
Uma tinha as vacas e os cavalos, a outra as galinhas e as ovelhas. A Avó até lhes arranjava uns canecos para levarem as rações por isso os animais e as aves eram tratados com tal esmero que nunca mais necessitávamos de comprar ovos, carne ou leite, porque a quinta imaginária dava de tudo em abundância!
Mas...
Como o que é bom acaba sempre depressa, os dias e semanas passavam a correr. E as Pipoquinhas regressavam a suas casas. Por sua vez, o silêncio, a arrumação e a monotonia regressavam à Toca. Ficava-me o sério encargo de cuidar da quinta imaginária o que eu procurava fazer responsavelmente e só tinha um pequeno problema.
Cada vaca, cada cavalo, cada galinha ou ovelha imaginárias tinham um nome. E eu esquecia-me sempre de os apontar. E eles só comiam e bebiam se fossem chamados um por um...
Saite? Maique? Laique? Era algo assim...
E agora?
Para as próximas férias - prometia-lhes - irei tomar melhor nota do recado, minhas queridas agricultoras. Ah! E sinto ainda hoje também muita falta da nossa despedida em coro, antes de irmos todos à cama, inventada ou copiada de uma série de desenhos animados pela nossa compincha Marianita:
- Escuduuuuu...
Saudades vossas, meus amores!
Sniffff...

Texto e foto das Férias grandes de 2020

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Intranquilidade


Nasci e cresci num período muito complicado para quase toda a gente em Portugal. Os filhos – fui um deles logo aos onze anos de idade – tornavam-se homens mais cedo quase por obrigação para poderem ajudar em casa com as despesas.
Consequência direta do conflito que mergulhou o mundo em guerra, e, mais próxima ainda de nós, da guerra civil espanhola, as populações sobreviviam precariamente daquilo que conseguiam cultivar e do racionamento imposto pelos governos de então, dada a escassez de um modo geral, de bens alimentares disponíveis.
A pobreza reinava por isso pelas aldeias e bairros periféricos das cidades. Ajudar os pais nas tarefas diárias ou até mesmo trabalhar para trazer algum dinheiro para casa era uma realidade para a maioria das crianças.
Muitas delas nem tinham a oportunidade de ir à escola porque a família estava sempre em primeiro lugar, as necessidades económicas falavam mais alto e a educação acabava por ficar para segundo plano.
A vida era dura e as escolhas limitadas. Ainda hoje conto as muitas histórias que ouvi da boca dos meus avós e de outros anciãos, eu próprio vivi naquela época impressionante em que a resiliência e a capacidade de adaptação foram fundamentais para sobreviver.
A família era o centro de tudo e os mais novos sacrificavam os seus próprios sonhos e oportunidades para ajudarem os pais e os irmãos. Foi uma época diferente em que a precaridade de quase tudo promovia valores e prioridades completamente distintas das de hoje.
Sinto desde que comecei a ter noção dessas inúmeras dificuldades quotidianas, uma profunda admiração pela força e determinação das pessoas que passaram por tudo isso, mas conseguiram superar tantas dificuldades.
As suas histórias que nunca me canso de lembrar são uma parte importante da nossa memória coletiva. Por isso sinto também que falar e escrever acerca delas nos faz refletir sobre como as coisas mudaram, mas também sobre como alguns desafios persistem, embora de formas diferentes.
A minha geração atenta ao mundo e à quantidade de conflitos em curso somados aos que já se anunciam no horizonte, sente-se intranquila porque as peças do xadrez onde se jogou a sua infância começam a alinhar-se perigosamente de novo.
Oxalá estejamos equivocados, porque a geração atual a quem nada faltou nunca, não está minimamente preparada para aquele caos que diariamente é plantado diante dos nossos olhos em todos os noticiários.
Aquilo – tomemos muita atenção – não é ficção.

José Coelho
Texto e foto

domingo, 21 de setembro de 2025

Bye bye, verão 2025


 Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Foto José Coelho

sábado, 20 de setembro de 2025

O sino da minha aldeia



Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

Juízes sem beca


Não, não sou perfeito. Mas tu também não és. Então mira-te ao espelho e olha primeiro para os teus defeitos, antes de julgares os meus.

Foto José Coelho — em Beirã.