Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Beirã: A aldeia onde a história respira devagar
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Manifesto íntimo
Não sou
homem de depressões. A minha expressão até pode às vezes sugerir sombras, mas
não carrego no coração nenhuma escuridão que me derrube. Carrego melancolia,
essa forma silenciosa de lucidez que observa o mundo sem filtros e não a
escondo, não a nego, não a temo. Ela é a minha forma de sentir fundo sem me
perder.
A minha
vida nunca foi simples. Nada me chegou por facilidade, nada me foi dado sem
esforço. Vivi cada conquista como quem atravessa terreno irregular: atento,
resistente, consciente de que cada passo tem peso. Os últimos anos foram os
mais duros, mas passaram. Não preciso de os enumerar para lhes reconhecer o
impacto. O que importa é que não me quebraram.
Continuar
é o meu modo de existir. Não por heroísmo, mas por coerência. Continuar não é
esquecer, nem fingir, nem anestesiar. Continuar é aceitar que a dor existe, que
a vida fere, que o tempo não apaga tudo, mas suaviza o suficiente para que o
próximo passo seja possível. E isso basta.
O silêncio
é o meu território de cura. Preciso de recolhimento, de introspeção, de estar
comigo. Não para me lamentar, mas para me reorganizar. Os nós que a vida aperta
não se desfazem em voz alta. Desatam-se na solidão, onde o pensamento respira e
a alma se recompõe.
Caminho
sozinho porque assim tem de ser. Não por orgulho, mas por verdade. Há dores que
não se explicam, há quedas que não se partilham, há feridas que não se exibem.
Entre tombos houve momentos felizes, sim, mas não suficientes para apagar o que
ficou gravado. A cura – se vier – será com o tempo. Até lá, avanço devagar, sem
pressa, sem ilusões, mas com firmeza.
Não me
alimento de frases feitas. “Uma pessoa morre quando deixa de sonhar.” Talvez.
Mas quem já foi esmagado pela vida sabe que há momentos em que sonhar é luxo,
acreditar é esforço e lutar é sobrevivência. E mesmo assim continuamos. Não por
glória, mas por necessidade.
Já estive
sem chão. Já me perguntei: “porquê eu”, “que sentido tem isto”, “o que fiz para
merecer”. Não encontrei respostas. E aprendi que a vida não responde a quem
pergunta de joelhos. A vida responde a quem se levanta, mesmo sem entender.
Não mexo
nas feridas. Não por medo, mas por sabedoria. O passado não precisa de ser
reaberto para ser reconhecido. Basta-me saber que existiu, que doeu, que marcou,
mas que não me parou.
Sou
melancólico, sim. Mas não sou derrotado. Sou alguém que continua. Alguém que
resiste. Alguém que se recusa a desaparecer dentro da própria dor.
Este é o
meu manifesto: Não dramatizo o que vivi. Não nego o que senti. Não fujo do que
sou. Caminho. Mesmo quando dói. Mesmo quando cansa. Mesmo quando não sei para
onde. Caminho porque viver é isso: avançar com as cicatrizes à mostra, a
melancolia ao lado e a dignidade inteira.
José Coelho
Rota do Megalítico
A
Anta da Cabeçuda é um importante monumento megalítico situado na Tapada da
Cabeçuda, na freguesia da Beirã, concelho de Marvão.
A cerca de 3 km da aldeia e já muito
perto da fronteira espanhola, este dólmen caracteriza-se pela sua câmara
poligonal regular e corredor curto.
Câmara poligonal com dimensões
aproximadas de 3,20 x 3,60 m.
Foi alvo de trabalhos de recuperação em
1991 e encontra-se protegida por um muro de delimitação de propriedades.
Espólio:
Os objetos votivos e artefactos
recolhidos neste local estão em exposição no Museu Municipal de Marvão.
Recolha de dados e foto:
José Coelho
terça-feira, 26 de maio de 2026
A beleza de quem tenta, sempre.
Há
uma beleza rara nas pessoas que tentam sempre – ajudar, ou seja o que for. Não
naquelas que tentam porque é fácil, mas nas que tentam mesmo quando tudo à
volta parece dizer que não vale a pena.
A
beleza de quem tenta não está no resultado – está no gesto. No impulso de
estender a mão, de oferecer presença, de acreditar que talvez, só talvez, o
outro consiga finalmente respirar.
Há
quem tente levantar alguém que vive há anos a cair. Quem tente iluminar um
coração habituado à escuridão. Quem tente ser porto para quem só conheceu
tempestades. E esse esforço, mesmo quando não é acolhido, é uma forma de
grandeza.
A
beleza de quem tenta está na coragem de não endurecer. De não deixar que a
dureza do outro contamine a sua própria ternura. De continuar a ser inteiro,
mesmo quando o mundo à volta se parte.
Há
quem diga que é ingenuidade. Mas não é.
É
força. É maturidade emocional. É a prova de que o coração, apesar das feridas,
ainda sabe escolher a luz.
A
beleza de quem tenta, está também no momento que percebe que já fez tudo o que
podia e mesmo assim não se arrepende. Porque tentar é sempre melhor do que
virar a cara. Porque tentar é uma forma de cuidar, mesmo quando não é
correspondido.
E
quando chega a hora de se afastar, quem tentou não leva culpa consigo. Leva
apenas a serenidade de quem sabe que deu o melhor de si. E isso basta para que
o coração permaneça limpo.
A
beleza de quem tenta é esta: mesmo quando não consegue salvar o outro, salva-se
a si próprio. Porque não traiu a sua essência. Porque não deixou de ser bom.
Porque não deixou de ser luz.
Num
mundo onde tanta gente desiste cedo demais, quem tenta, mesmo que falhe, é
sempre, sempre, um discreto milagre.
José Coelho
Setenta e quatro anos depois
Quando deixamos a luz entrar
Há momentos em que o mundo parece pesar mais do que devia. Não porque os outros nos falhem, mas porque, sem perceber, colocamos nos seus ombros o peso das nossas expectativas. E quando não correspondem, o coração encolhe um pouco.
Mas
há uma verdade suave que aprendi a reconhecer: a vida torna-se mais leve quando
deixamos de pedir aos outros que sejam faróis e começamos a descobrir a luz que
já existe dentro de nós.
Cada
pessoa caminha ao seu próprio ritmo, carrega as suas próprias sombras, e
oferece o que consegue – nem sempre o que desejamos, mas quase sempre o que
pode.
Quando
aceitamos isso, algo muda. O mundo não se torna perfeito, mas torna-se mais
respirável.
Há
uma beleza discreta em esperar menos dos outros e mais da própria vida. É como
abrir uma janela e perceber que o vento entra por si, sem que o chamemos.
E
então começamos a reparar nas pequenas coisas: nos gestos que chegam sem aviso,
nas presenças que não pedem palco, nas pessoas que ficam porque querem, não
porque lhes pedimos.
A
reciprocidade, quando acontece, é um milagre simples. E os milagres não se
exigem, acolhem-se.
No
fim, descobrimos que a esperança não está em controlar o que recebemos, mas em
cultivar o que damos. Porque quem dá com verdade nunca perde: se não recebe de
volta, recebe de si mesmo. E isso basta para iluminar um caminho inteiro.
A
vida é generosa com quem caminha leve. E quando deixamos de esperar tanto,
abrimos espaço para que o inesperado – o bom, o luminoso, o que fica – nos
encontre.
José Coelho


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