sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

(Re)aprendendo a viver

Agosto de 1974

Foi conturbada e algo estranha para mim a época que se seguiu após o regresso da guerra. Estava em curso a mudança de regime e a esmagadora maioria da população não tinha conhecimento de quase nada do que se passava na capital, em tempo real. Nos meios rurais o dia começava cedo, o trabalho era duro, o cansaço aconselhava a deitar cedo, as notícias eram escassas e por vezes mal entendidas. De vez em quando havia sessões de esclarecimento nas salas públicas onde vinham oradores com discursos inflamados de acordo as convicções pessoais de cada um deles. Quem os ouvia, a maior parte das vezes, em vez de ficar mais esclarecido, ficava ainda mais confuso.

Mesmo assim começaram a esboçar-se as tendências que foram perdurando através das décadas e se têm mantido até hoje. Os “partidos dos pobres” eram os da esquerda. Os “partidos dos ricos” eram os da direita. Quem manifestasse simpatia pelas políticas de esquerda era sumariamente apelidado de comuna pelos que eram contra. Os opositores antiesquerdistas mais radicais afirmavam mesmo que comunistas, socialistas e seus satélites, eram todos farinha do mesmo saco. Isso não impediu contudo apesar de tanta oposição que fosse nesse grupo que se alinhasse a maioria dos trabalhadores das casas agrícolas da região assim como os operários fabris. Poderia até acrescentar que os que pretenderam dividir essas classes obtiveram o efeito contrário. 

Uniram-nas ainda mais. 

Desde sempre o fruto proibido foi o mais apetecido.

Por seu lado a tendência da outra parte, a da direita, na qual se incluíam os “donos-disto-tudo” daquele tempo mais os seus inúmeros seguidores, era apelidada de fascista e reacionária, a qual, entretanto, lá foi também contra ventos e marés vingando, apoiada pelos que iam comer à sua mão por conveniência, subserviência ou lambebotice. E porque não, pelos que simpatizavam realmente mais com a autoridade ditatorial recentemente deposta pela revolução, do que com os condenáveis excessos que em nome da liberdade se verificavam um pouco por toda a parte.

Consequência de tudo isso, instalou-se um clima esquisito pelas pequenas e até aí pacíficas comunidades como a da Beirã, um alimentar de estranhas hostilidades inclusivamente entre vizinhos e amigos de sempre, que pelo simples facto de uns acharem que o partido A com o qual simpatizavam era melhor que o B que os outros defendiam, romperam amizades de uma vida inteira, parentescos próximos até, em nome de ideologias políticas que ninguém conhecia ou entendia minimamente, mas às quais aderiam cegamente, escoiceando, mordendo e arranhando quem se lhe opusesse.

Aconteceu comigo também infelizmente como não podia deixar de ser. Não vou mencionar nomes de quem injusta, traiçoeira e cobardemente me prejudicou, porque eles sabem quem são se lerem o que eu escrevo e também porque tudo isso se passou há décadas. Muita água correu por debaixo da ponte levando com ela, sobretudo, a profunda mágoa que tudo isso me causou. Só a sua memória, qual auréola de nódoa difícil, será perene e se manterá para sempre no meu coração. Perdoar é uma coisa, esquecer é outra, bastante diferente. 

Além disso a Vida se encarregou-se de fazer justiça e de colocar cada coisa no seu lugar. Deus escreve direito por linhas tortas e a situação deu uma volta de tal ordem que poucos anos depois era eu quem tinha uma vida estável, serena e bem sucedida, enquanto a alguns desses detratores da minha integridade de carácter a Vida puxou o tapete debaixo dos seus pés e deixou-os sem chão. E sem conseguirem agarrar-se ao que quer que fosse para se ampararem, bateram dolorosamente com o cu no chão. 

Não por que eu lhes tivesse desejado tal sorte, muito pelo contrário. Apesar das suas injustas atitudes para comigo, compadeci-me deles no silêncio do meu coração de amigo que, apesar de tudo, nunca deixei de ser.

A segurança de me sentir finalmente em casa, o carinho da família, dos vizinhos, dos amigos e da namorada com quem já decidira casar, estavam lentamente a serenar a instabilidade interior que a guerra me causara, apesar de só eu mesmo saber que nunca mais voltaria a ser aquele jovem despreocupado e feliz que fora antes de para lá ir. Não tenho qualquer dúvida que naquela imensidão da floresta do Maiombe foi onde tive o meu encontro pessoal e íntimo com Deus. Talvez nunca consiga explicar quando, como e porquê, mas que foi ali que aconteceu, foi, sim! É uma certeza absoluta.

Foi onde aprendi a duras penas o quanto a vida é breve e fugaz, para nos darmos ao luxo de a desperdiçar de qualquer maneira, na igreja da Missão do Belize durante longuíssimas madrugadas quando da floresta ecoavam miríades de vozes de animais selvagens num verdadeiro hino à vida, enquanto eu e os meus camaradas nomeados de guarda de honra, perfilávamos incrédulos, com o coração apertado, a ladear na posição de sentido as urnas de camaradas que poucas horas antes nos tinham feito companhia mas agora ali jaziam estropeados dentro daqueles caixões.

Por essas e por outras, apesar de estar já em casa em segurança, ainda havia no meu coração demasiadas lembranças e marcas que me impediam de comungar da euforia geral reinante ou de me interessar minimamente por qualquer atividade política, além de que, honestamente, não sabia nem pouco mais ou menos o que era "aquilo" de esquerda, direita ou centro, limitando-me a ouvir uns e outros para tentar entender a nova realidade e colaborar no que me fosse solicitado, sem qualquer outra intenção que não fosse a de ajudar tudo e todos...


José Coelho in Histórias do Cota

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Beirã, da passarada…

Ninho da carriça na trepadeira da varanda da Toca dos Coelhos
Foto Pedro Coelho


Não sei porquê, a minha casa é pouso favorito de toda a espécie de passarada desde que cá moro. As carriças fizeram ninho anos a fio em dois locais distintos. No alpendre do forno do quintal antes de ele ter o portão de ferro que tem hoje na entrada e na trepadeira da varanda entre o emaranhado de folhas e caules. Tenho algumas fotos que o atestam. Os pintassilgos, um ano até fizeram o seu na roseira trepadeira da frontaria da casa, mas todos, todos os anos, fazem mais do que um na latada do quintal. 

Por sua vez os verdelhões preferem a solidez das oliveiras.

Também tenho de hóspedes um casal de melros que vem todas as noites dormir na varanda do primeiro andar. Um deles, não sei se o macho se a fêmea, dorme sobre o braço da lanterna do alpendre. O outro dorme no parapeito de uma das janelas laterais da casa de banho, comodamente instalados e resguardados. Isto acontece há três ou quatro anos, seguramente.

Sempre que necessitamos lá ir depois de anoitecer, lá encontramos os dois, provavelmente para fugirem do frio no inverno e do calor no verão. Nunca os enxotámos, pelo contrário, tentámos sempre incomodar quanto menos melhor. Assim que sentem a porta a abrir quando nós invadimos o seu dormitório, esvoaçam para o cume do telhado em frente e regressam imediatamente à varanda, após sairmos.

Há dois anos, uma cegonha decidiu que uma das chaminés da casa era um excelente local para nidificar. Não teve sorte porque eu não deixei e vigiei-a para a espantar batendo tampas de tachos cada vez que ela ali pousava com paus no bico. O telhado em volta da chaminé já parecia, entretanto, o estaleiro da lenha do meu amigo João Picado. Ná… Cegonhas não. Gosto delas, respeito-as, mas fazem demasiado lixo, danificam com ele os telhados e eu não sou rico.

Na passada primavera, foram os pardais. Outra dor de cabeça e uma batalha dura de vencer, porque eles são ainda mais teimosos que eu. Onde haviam estes atrevidos inquilinos de imaginar construir o ninho nesse ano? Na parte de trás do motor de um dos ares condicionados, aproveitando o espaço estreito e o apoio dos tubos que ligam a máquina ao ventilador do quarto. Também não deixei, porque as palhas infiltradas na grelha do motor podiam danificar o aparelho. Mas tantas vezes o derrubei, como eles voltavam a tentar.

Até que um dia desistiram. 

Ou pensei eu que eles tinham desistido!

Por essa altura o esquentador da cozinha que simultaneamente serve a água quente às duas casas de banho do rés-do-chão, começou a deixar de funcionar regularmente como funcionara até então. Apagava-se subitamente. E como possui um sensor preventivo que desliga o aparelho automaticamente quando se acumulam gases tóxicos à sua volta, pensei que seria isso. E vá de abrir a porta da cozinha para arejar o espaço, até que, intrigado, um dia lembrei-me de ir dar uma espreitadela na boca do tubo exaustor do mesmo.

E… 

Eureka!

Lá estava a causa. Os ditos cujos pardais teimosos tinham lá metido um amontoado tal de palhas para fazerem o ninho, que quase entupiram o tubo. Devem-no ter feito quando fomos aos Açores e o esquentador não funcionou durante uns dias, abandonando-o imediatamente quando levaram com os gases e os calores da combustão do gás, assim que regressámos a casa. Mas a "rolha" de feno ficou lá, a impedir o correto funcionamento do aparelho. 

É preciso ter lata! 

E esperteza...

- Não nos deixas fazer a casa no ar condicionado, fazemos neste tubo onde tu não vês…  

Tirei o projeto falhado de ninho e coloquei uma rede na boca do tubo para que os meninos não repitam a gracinha. 

Agora resta-me aguardar para ver onde será a próxima tentativa, porque aposto que vai haver.

Devo confessar contudo que, apesar de todos estes contratempos, adoro indiscriminadamente todos estes meus inquilinos, mesmo quando me deixam as hortaliças do quintal depenicadas de tal modo que as suas folhas mais se parecem aos alinhavados de Nisa do que a couves para caldo verde.

Haja Deus, porque todos precisamos de comer para viver...

José Coelho 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Até quando?

Eucaristia da Padroeira - 2018

Desde 1958 que o Senhor do Sacrário e a Senhora do Carmo, ambos lá no seu altar, me têm a cirandar por ali, aos seus pés. Tinha apenas seis anos quando o reverendo padre Caetano - já falecido - me escolheu para seu acólito na igreja da Beirã. E naquele tempo, gaiatos éramos aos centos na aldeia. Não sei porque "engraçou" o  ilustre clérigo com a minha insignificante pessoa, tendo em conta a enorme possibilidade de escolha entre tão diferenciada oferta, muitos dos quais bastante mais bem vestidos e alimentados do que eu, porque filhos de famílias abastadas ou de funcionários públicos.

Por esse motivo a promoção a sacristão da paróquia de um borra botas insignificante como eu foi por mim considerada quase uma honra. O sacristão que eu ia substituir já começava a ser moço e queria deixar essas funções para se dedicar ao namorico com as moças da idade dele era o António Sarzedas "o sapateiro" como a gente lhe chamava. Foi encarregado pelo  pároco de me ensinar as regras e procedimentos no altar, desde acolitar a eucaristia com o sacerdote ainda de costas voltadas para os fiéis na nave do templo sempre repleta de gente e responder em latim às suas locuções "et cum spiritu tuo" quando ele pronunciava "dominus vobiscum" e muitas outras lenga-lengas das quais eu não percebia mas aprendi a decorar na ponta da língua. Importante também foi aprender a tocar os sinos. Toques da missa, toques dos funerais, toques dos casamentos e batizados, toques das procissões.

Tudo aprendi sem dificuldades de maior. De tal modo que ainda hoje me recordo de muitas partes da missa em latim, do Tantum Ergo Sacramentum na adoração do Santíssimo, assim como devo ser também o último tocador de sinos com carteira profissional nesta paróquia e arredores. Fui sacristão quatro anos seguidos até terminar a escolaridade obrigatória em 1962, ano em que fiz o exame da 4ª classe e o meu pai me arranjou logo no dia seguinte um patrão para ir guardar ovelhas. Assim deixei de poder ir à missa e muito menos acolitá-la, mas sempre que podia lá ia fazer uma visitinha ao Jesus do Sacrário e à Senhora do Carmo porque sempre "senti" que os dois me ajudavam e protegiam bastante.

Essa proteção foi mais visível e evidente quando fui à guerra e regressei a casa sem um arranhão, ao contrário de um grande número de camaradas que comigo foram mas não regressaram sãos nem salvos.

Mas não só.

Todo o meu percurso de vida tem sido espelho da infinita bondade de Deus para comigo com a ajuda de Nossa Senhora do Carmo. Assim o creio e assim o afirmo sem tiques de beatice, apenas e só pela mais inequívoca e determinada convicção. Eu é que sei os apertos por que passei, as aflições e angústias que me atormentaram e a forma como consegui ultrapassar ou vencer cada uma delas. É muito fácil as pessoas opinarem sobre aquilo que não sabem, denegrirem o seu semelhante e darem palpites. Mas quem tem as dores é que as sente. O resto são tretas, muitas vezes mal intencionadas, cobardes e vindas de gente menor. Por tudo isso e por muito mais, tão depressa estabeleci residência definitiva na minha Beirã, imediatamente regressei, com carácter permanente, ao meu desempenho na igreja e paróquia, onde quer que ele é necessário e esteja dentro do meu alcance.

Faço-o por devoção, por infinita gratidão, por amor dedicado, mas, sobretudo, por espírito de missão.

Somos hoje já muito poucos os paroquianos que cruzamos a porta da igreja para se aproximarem do Santíssimo Sacramento que há mais de 70 anos é o mais ilustre habitante da aldeia dentro daquele Sacrário. Sei, tenho plena consciência disso, que não estará muito longe o dia em que o senhor Bispo da Diocese irá decidir dessacralizar a igreja da Beirã que ficará a ser, a partir daí, apenas mais uma capela sem Santíssimo, como há já tantas. E vai doer-me, como me dói de cada vez que mais uma casa fica sem os vizinhos queridos para se transformar em alojamento local para encher as ruas de turistas que nada têm a ver conosco, Beiranenses.

Para mim, pessoalmente, uma igreja sem o Senhor no Sacrário é uma igreja vazia, mesmo que esteja a abarrotar de gente.

Não sou apenas, como escrevi lá atrás, o único tocador de sinos encartado destes arredores, como sou também já o único salmista que se prepara em casa durante a semana para poder subir à Mesa da Palavra e entoar os Salmos que solenizam cada Eucaristia. Sei que não sei cantar nem o faço para exibir dotes de tenor que não sou, nunca fui nem serei, faço-o unicamente por dever de consciência, por amor a Deus e à minha igreja e para que, enquanto seja possível, a nossa missa semanal continue a ser um momento de íntima reflexão, de paz interior para cada participante, e de aproximação a Cristo, seu fundador.

Até quando? Até que Deus queira. 

A Ele cabe decidir. 

Tenham uma excelente semana!

José Coelho

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Justas dúvidas (acho eu)

Foto José Coelho - 22.01.2023
 
C'o a boca toda escaqueirada pela fortíssima gripe.
E pergunto-me:
- Para quê tantas vacinas (quase) obrigatórias?

Your address


Esta calculadora velhinha, insignificante e toda oxidada já pelos anos de uso, tem uma história que me ocorre contar-vos. Começou na Estação Ferroviária de Santa Apolónia em Lisboa dentro do Comboio Hotel Lusitânia Expresso com destino a Madrid, perto das 23 horas de uma sexta-feira início de um fim de semana em 1984, quando eu frequentava o 6º Curso de Formação de Sargentos no Centro de Instrução da Guarda Nacional Republicana na Calçada da Ajuda. Normalmente eu viajava no então chamado "comboio das oito" que saía de Santa Apolónia às cinco e meia da tarde e chegava a Castelo de Vide, onde então morava, por volta das oito da noite.
Porém, em virtude de um camarada do curso ter sido internado de urgência no Hospital Militar de Doenças Infecto-Contagiosas da Ajuda (HMDIC) com uma hepatite C, vendo-o tão desesperado mais pelo receio de perder o curso por motivo das faltas, do que pela gravidade da doença, decidi ir falar com o Diretor do Curso Capitão Aloísio, perante o qual me comprometi a elaborar um resumo escrito de todas as matéria dadas em cada dia de ausência do doente para ir pessoalmente entregar-lhe em mão, podendo dessa forma ser-lhe dada a possibilidade de "acompanhar" à distância o seguimento do curso e ir estudando as matérias para ser depois submetido às respetivas provas de avaliação quando tivesse alta.
Curiosamente e porque nada acontece por acaso, o meu camarada furriel estava internado no mesmo quarto do hospital em que se encontrava um senhor capitão do Regimento de Cavalaria com o mesmo problema de saúde, e que, para que não houvesse dúvidas, em conversas regulares com o seu camarada capitão Aloísio nosso diretor de curso, elogiava a minha perseverança e pontualidade diária de ali comparecer e ficar o tempo que fosse preciso a explicar ao camarada doente como podia e sabia, tudo o que tinham sido as aulas desse dia.
Percebendo perfeitamente porque é que nenhum outro camarada do curso ia visitar o camarada doente, sabia também que o contágio daquela doença não se processa pela proximidade com os infetados mas sim pelo contacto físico permanente com algum deles sem se estar devidamente protegido. Se assim não fosse, nunca me seria permitido entrar como entrava à vontade no Hospital e aceder ao quarto dos dois doentes que ali permaneciam em tratamento.
Assim sucedeu que, durante mais de um mês, tive de optar por viajar aos fins de semana no Lusitânia que saía de Santa Apolónia às 23 horas e chegava a Castelo de Vide por volta da uma da manhã, porque isso me dava tempo de sobra para entregar os apontamentos, explicar alguma coisa que tivesse de ser explicada, jantar qualquer coisa por ali em qualquer bar da estação e apanhar o Lusitânia sem correrias.
Que tem tudo isto a ver com uma calculadora, perguntar-se-ão vocês. Pois! Quem me lê regularmente sabe que quando conto alguma das minhas histórias de vida, gosto de começar pelo princípio. E viajar num comboio internacional, a sair às tantas da noite e por sinal bem mais caro que os normais, não é vulgar. Por isso quis explicar porquê.
Acabara de me acomodar numa das confortáveis cabines perto da porta de acesso quando me apercebi de um casal de idosos cada um com seu malão de viagem quase maior do que eles, a tentarem subir para a carruagem. Apressei-me a ajudá-los. Primeiro a aceitar cada um dos malões que acomodei na rede sobre os assentos, depois a acomodá-los a eles próprios na poltrona oposta à minha.
Comunicar foi o mais complicado. Porém, entre português e inglês, à mistura com muita mímica, lá nos conseguimos entender. Eram americanos ele tinha-se aposentado recentemente e estavam a dar uma volta pela Europa. Iam para Madrid. Ele fora militar e ela era sua esposa. Viviam na Flórida. Estavam maravilhados com Portugal e com a hospitalidade dos portugueses. E eu era mais uma prova disso, riram divertidos. Como pude, apresentei-me também. Militar como o senhor, a tentar ser "sargeant" (acho que aprendi nos filmes) ia para Castelo de Vide onde tinha casa, mulher e "two childrens" (eheheh as figuras que a gente faz).
Foram três divertidas horas de viagem em que não nos calámos um minuto sequer. A dado momento o revisor veio picar os bilhetes e eu puxei do meu porta-moedas redondo de cabedal daqueles que se rodam para fazer coincidir a boca interior com a exterior para retirar o meu bilhete que ali tinha guardado devidamente dobrado. O americano olhou espantado para o porta-moedas e pediu para o ver na sua mão. Rodou, abriu, fechou, extasiado como se aquilo fosse uma coisa rara! E proferiu vários "nice" "nice"...
Disse-lhe que aquilo era artesanato, se bem me lembro acho que o comprei em Reguengos de Monsaraz. Vendo-o tão fascinado, despejei as moedas e o bilhete do comboio para o bolso e ofereci-lho. "Wow now, now, now... Exclamava. Mas eu fiz questão e ele aceitou encantado. E imediatamente me estendeu um papel e uma caneta e pediu "your address". Percebi que queria o meu endereço. E escrevi-o como ele insistiu.
Entretanto o Lusitânia acercou-se a Castelo de Vide e saí, não sem efusivas manifestações de satisfação do simpático casal de viajantes com inúmeros "tank you". E nunca mais pensei neles porque eram apenas mais dois entre milhares de outros viajantes que comigo partilharam as viagens de comboio durante anos. Até que um dia, meses mais tarde, recebi um aviso dos correios para ir levantar uma encomenda com procedência da Califórnia - USA. E fui. Era esta calculadora Casio, pioneira das calculadoras a energia solar e uma extensa carta que ainda guardo, a qual não sabia ler mas que um camarada licenciado fez o favor de me traduzir.
Agradeciam uma vez mais a minha ajuda, o porta-moedas nice, enviavam a calculadora como presente e convidavam-nos a ir visitá-los na sua Califórnia...

Texto e foto
- 23.01.2023

domingo, 15 de janeiro de 2023

Agradecimento


Obrigado, D. Clarisse Quezada pelas reguadas que me deu mas principalmente pela 4ª classe tão perfeita que me permitiu alcançar (quase) todas as minhas metas. E escrevi quase, porque com a sua 4ª classe, ascendi na carreira profissional até segundo sargento e só para ascender a primeiro sargento e depois a sargento-ajudante é que tive de fazer o 6º, 7º, 8º e 9º ano noturnos para adultos em Castelo de Vide, em Nisa e em Portalegre.
Com a 4ª classe que a Senhora Professora D. Clarisse me ministrou, tive, no 6º Curso de Formação de Sargentos a melhor nota do Curso num teste de Português. O tema proposto era livre, à escolha dos instruendos. Escolhi para o meu tema Castelo de Vide e a sua beleza deslumbrante, por ser a terra do meu pai. O Dr que nos dava a matéria andou de turma em turma a enaltecer o meu trabalho e a frisar que era de um militar que tinha apenas a 4ª classe.
Nunca contei isto a ninguém, mas hoje apetece-me contar-vos a todos vós. Não por vaidade pessoal, que nunca tive, porque o mérito maior não foi meu, mas da Excelentíssima Senhora Professora D. Clarisse Quezada que formou centenas de rapazes como eu, que não poupava uma valente reguada mas todos os que passavam de classe ou iam a Marvão fazer o Exame da 4ª classe, tinham de saber todas as matérias na ponta da língua para responder em voz alta, ou dos dedos, para escrever as respostas.
E se não conseguiam, não passavam de classe nem eram propostos a exame.

Também nunca esqueci e nunca esquecerei quem me ajudou para toda a vida. Um obrigado ainda para os Senhores e Senhoras Professores ou Professoras que ensinaram os meus filhos e agora ensinam as minhas netas. São o pilar principal de qualquer sociedade civilizada mas infelizmente pouco reconhecidos a começar de cima para baixo.
Disse.
15.01.2023

sábado, 14 de janeiro de 2023

É a PDI

Foto José Coelho - Jan 2023

Temporariamente ausente deste espaço para curar uma gripalhada "daquelas"...