sábado, 14 de março de 2020

O apelo irresistível da saudade

A pereira (já brava) do Avô José Lourenço, de novo em flor. E lá atrás, a branca empena da casa já sem telhado. Foto José Coelho - Março'20

Sem querer desrespeitar as indicações das autoridades mas podendo sair de casa em segurança sem qualquer perigo para terceiros, resolvemos, eu e a minha companheira de vida há já 44 anos, calçar as sapatilhas e rumar aos campos completamente desertos da nossa Beirã em busca de espargos bravos para desfrutarmos não só do ar puríssimo como também da sedutora beleza que desponta por toda a parte anunciando a cíclica roda das estações do ano.

Desde que me conheço que percorro estes campos saltando paredes, trepando canchos, embrenhando-me pelo meio dos matagais acompanhado apenas pelo canto da passarada e murmúrio da brisa no arvoredo. É um mundo muito meu capaz de atenuar qualquer desassossego, seja ele qual for. Tudo o que nos envolve é a paz e harmonia da natureza no seu estado puro. E nesta altura do ano o desabrochar da vida vegetal que vai acordando dos frios invernais começa a multiplicar-se novamente em flores que depois serão frutos e tornam estas paradisíacas paisagens em algo único de cores e odores.

Amendoeiras pereiras e macieiras floridas juntamente com o vistoso amarelo das maias das giesteiras negrais, misturadas com a alvura das maias das giesteiras alveirinhas e os rendilhados cachos das lindíssimas flores dos pilriteiros – por aqui denominados carapeteiros – inundam o ar dos campos com um inebriante e muito característico perfume para o qual contribui também a abundância de rosmaninho e a infinita variedade de lírios ou outras flores silvestres. Não há templo mais belo nem mais harmonioso no mundo, não há outro lugar onde nos sintamos mais próximos de Deus e tão parte integrante do Universo.

Foi por aqui que os meus avós viveram e foram felizes, os meus pais se conheceram e me conceberam, assim como às minhas irmãs. Por estes campos a minha avó, mãe, tias e primas mondaram trigo, sacharam milho, cantaram quando felizes ou choraram quando tristes, semeando neste chão muitas gotas do seu suor e cansaço ou as lágrimas magoadas dos seus olhos por alguma dor. Foi por aqui que o meu avô, pai, tios e primos guardaram rebanhos, lavraram a terra à força de braços com charruas e arados puxados por juntas de bois ou parelhas de machos e mulas, semeando pão e legumes misturados com as gotas do seu suor.

Estes campos e paisagens fazem parte de mim como a minha própria pele. Por isso sou meio rústico como eles. Desde sempre e nos momentos mais complicados da minha vida me refugiei na sua benfazeja solidão em busca de paz de espírito, de equilíbrio emocional ou daquelas respostas complicadas que só o silêncio nos consegue dar. Passei horas caminhando sem destino por cabeços e covas, ou simplesmente sentado sem dar conta do passar do tempo no cume de algum cancho a ouvir o resmalhar do restolho pela correria de algum javali ou raposa, que desde que sou gente sempre abundaram por estas bandas.

No meio das agruras da guerra quando receei não voltar para casa prometi intimamente a mim mesmo que se voltasse nunca mais de cá sairia. E quase cumpri essa promessa. Assim que voltei – e disso darei graças até ao fim da minha vida – fui visitar inúmeras vezes todos estes lugares para deles desfrutar de novo e matar saudades. Tive que ausentar-me outra vez para ir cumprir a minha missão de chefe de família, já que aqui não era possível cumpri-la. Mas voltava amiúde. E assim que pude, regressei de vez. Porém, tudo está hoje totalmente diferente porque quase tudo a vida levou. Entes queridos e bons vizinhos porque terminaram o seu tempo e muitos quotidianos de outrora como por exemplo o vai-vem dos comboios se extinguiram inexplicavelmente.

Resta hoje pouco mais que as memórias. Um silêncio absoluto que antigamente só se conseguia “ouvir” nas profundezas dos campos invadiu casas e ruas da aldeia passando a viver dia e noite paredes meias comigo. Ainda assim e se depender de mim é aqui que desejo terminar os meus dias para continuar a deslumbrar-me com cada por do sol porque em nenhum outro lugar do mundo são tão magníficos, para poder ouvir o terno trru-trru das rolas e seguir encantando-me com a ousadia dos melros e dos pintassilgos que teimam em fazer os seus ninhos nas árvores do nosso quintal sem medo de serem incomodados, o que, de certo modo, me deixa algo orgulhoso...

José Coelho
14.03.2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

*Nasrudin e a peste*



Ia a Peste a caminho de Bagdad quando encontrou Nasrudin.
Este perguntou-lhe:

- Aonde vais?


A Peste respondeu-lhe:

- A Bagdad, matar 10 mil pessoas.


Depois de um tempo, a Peste voltou a encontrar-se com Nasrudin. Muito zangado, o mullah disse-lhe:

- Mentiste-me. Disseste que matarias 10 mil pessoas e mataste 100 mil.


E a Peste respondeu-lhe:

- Eu não menti, matei dez mil. O resto morreu de medo. 

*Conto da tradição sufi*


Obs.
Obrigado  D. Isabelinha

segunda-feira, 9 de março de 2020

A dignidade de chegar a velho

Casa da Família Coelho desde 1950
Foto Pedro Coelho

Quando nasci o meu pai contava já 42 anos. Casou tarde, aos 36, pese embora a minha mãe tivesse apenas 20. Tão mais jovem do que ele, deduzo que se terá deixado encantar por aquele modo meigo e afável que o caracterizavam e com o qual conquistava a amizade e o respeito de quase toda a gente que com ele lidava. Cresci por isso a ver surgirem no seu rosto as primeiras rugas e no seu farto cabelo os primeiros fios prateados.

Treze anos mais tarde fui integrar a sua equipa de trabalho – por razões que já expliquei noutras estórias  – na pedreira da Lajem do Sapato da qual ele era subempreiteiro por conta do Engº Ventura e também ali todos os seus camaradas eram já cinquentões como ele. Foi com todos esses mestres que aprendi o ofício de cabouqueiro e foi seguramente entre eles que colhi muitos ensinamentos que me moldaram para a vida adulta.

Influenciado pela sã vivência com essa boa gente, madura e de muito bom senso, habituei-me a ver o mundo pelos prismas deles, mas, sobretudo, a estimar e respeitar os mais velhos, aqueles a quem, por ser mais fino ou menos agressivo, toda a gente apelida agora hipocritamente de idosos. Mas eu continuo a chamar-lhes velhos como sempre chamei porque entendo que a velhice não é um castigo e não deve ser maquilhada para ser mais bem aceite. Pelo contrário, é meu entender que chegar a velho é um privilégio negado a muitos, uma bênção inestimável para quem consegue alcançá-la.

As rugas dos anciãos, os seus cabelos prateados e a sabedoria adquirida no decurso das suas vidas merecem de mim o maior respeito e consideração. Admiro a sua dignidade, paciência e conformismo, mas, sobretudo, a enorme generosidade com que aceitam tantas vezes serem esquecidos, a nobreza com que ainda desculpam os familiares que passam meses sem os ir visitar nos lares onde por conveniência própria os depositam para lá passarem o resto dos seus dias. É muito comum ouvir alguns dos gentis argumentos com que ainda desculpam tão indesculpável abandono:

- Coitados! Não podem cá vir, também têm lá a vida deles…

Conformados, ainda acham que coitados são aqueles que os esquecem. E continuam a amá-los, apesar das suas injustificáveis ausências. Generosidade pura, acho eu. E acho ainda que o abandono de uma mãe ou de um pai, de um irmão ou irmã, de uns avós ou outros parentes próximos é uma vergonha, um desmazelo, uma ingratidão. Uma falta de amor, de solidariedade, de respeito e de carácter. Quantos desses familiares abandonados deram tudo quanto tinham e mais do que muitas vezes podiam para que nada faltasse a quem agora tão levianamente os esquece.

Estou completamente à vontade e em absoluto sossego de consciência para criticar tais comportamentos porque acolhi em minha casa durante vários anos a minha mãe e dela cuidei amorosamente até ao fim dos seus dias com o precioso auxílio da minha esposa e da minha irmã mais nova depois de uma retinopatia diabética a ter cegado por completo. Também ao meu pai em minha casa fui eu que cerrei as pálpebras no momento da sua morte. E o pai dele, o avô Faustino, assim como a avó Amélia, mãe da minha mãe, os dois faleceram nesta casa rodeados do carinho e dos cuidados dos entes que amavam e os amava a eles.

Só a avó Adelina e mãe do meu pai não tive o privilégio de conhecer porque faleceu aos 51 anos de ataque cardíaco muito antes de me poder dar colo ou de nos podermos conhecer e querer bem. Mas mesmo sem nunca a ter conhecido dela aprendi a gostar pelo muito ouvir dela falar. E o querido avô José Lourenço o meu mais antigo e mais saudoso amigo a quem devo o nome e muitas outras coisas boas, partiu inesperadamente sem se despedir acometido de grave insuficiência respiratória no hospital de Portalegre onde fora internado de urgência pouco antes. Com apenas 67 anos. Quisera eu tê-los também junto de mim, acolhê-los em minha casa para deles poder cuidar com toda a dignidade que lhes era devida…

José Coelho in Histórias do Cota
(Adaptado)

segunda-feira, 2 de março de 2020

A saudade é um mistério inexplicável

Foto Pedro Coelho

No acelerado processo de degradação física e mental a que assisti nas últimas semanas de vida da minha mãe, sucedeu um episódio que me espantou e marcou profundamente. Obviamente eu sabia que ela estava a ir-se embora, a caminhar para o fim do seu percurso terreno e que nada neste mundo poderia reverter a situação. Sentado à cabeceira da cama dela ouvindo-a gemer em surdina uma tarde, perguntei-lhe:

- Mãe, o que tem?

E ela, com a tranquilidade que sempre lhe conheci, respondeu simplesmente:

- Tenho já vontade de ir para junto do teu pai, filho.

Foram dias e semanas muito complicados. Ainda que cientes da inevitabilidade da morte não é nada fácil sentirmos que vamos perder quem mais amamos na vida. E por mais que no nosso íntimo tentemos aceitar que a solução mais justa para essa pessoa que assim está é vê-la partir em paz para ela finalmente descansar, ainda que num cenário de enorme sofrimento jamais estaremos preparados para a sua perda.

Certo dia, inesperadamente, ao final da tarde de um dos seus últimos dias em minha casa, a doentinha desatou a conversar alto não sei para quem, feliz como um passarito que de repente se atreve a saltar do ninho e voa em liberdade. E ria, ria, ria. Primeiro conversou com um João Roma e depois uma MariNeves, moços da sua criação mas já falecidos há muitos anos. E por entre cristalinas gargalhadas várias vezes chamou também pela Ribeira, a cadela rafeira que guardava o Monte do Matinho quando ela era moça.

E o seu rosto resplandecia de alegria como se de facto estivesse no meio de toda aquela gente! Deixando-a prostrada na cama onde jazia há semanas, a sua mente – ou se calhar a saudade, não sei – levou-a para os lugares onde nasceu, onde cresceu e se fez mulher, onde trabalhou, conheceu o meu pai e com ele casou. Nunca, em toda a minha vida, tinha visto a minha mãe tão profundamente feliz a conversar animadamente com pessoas que só ela podia ver e ouvir, provavelmente gente muito boa e a quem quisera muito bem na sua juventude.

Mais de uma vez tentei interromper tão estranha euforia tocando-lhe na cara, nos ombros, segurando-lhe as mãos, fazendo-lhe perguntas:

- Mãe, mãe, está a falar com quem?

Mas ela nunca me ouviu e nunca respondeu. Era como se eu nem ali estivesse, pois continuava a conversar ininterruptamente, deslumbrada com tudo o que inundava a sua memória e assim inopinadamente viera ter com ela, deixando-a tão manifestamente feliz.

Mais estranho ainda foi o tempo que o inusitado êxtase durou. A minha mãe falou, falou, falou, riu, riu, riu, toda essa noite e manhã do dia seguinte perante a minha mais profunda inquietação que nunca me permitiu deixá-la sozinha. Não pronunciou nem uma só vez o nome do meu pai de quem ela tanto gostava, nem o de nenhum de nós, seus filhos e netos, que ela também sempre adorou. Aquela inusitada felicidade que durou dezasseis ou dezassete horas consecutivas era anterior a todos nós, vinha da sua meninice e juventude.

Nem as interrupções necessárias para dela cuidar, tentando minimamente alimentá-la e medicá-la, suspendiam por um segundo que fosse o seu eufórico estado de espírito. Quem passou pela rua, porque o seu quarto – o mesmo onde eu nasci – dá para lá, decerto ouviu a sua alegre voz e sonoras gargalhadas. A minha surpresa e inquietação eram enormes porque nunca tinha assistido a nada semelhante. Mais de uma vez pensei que o pior aconteceria a qualquer instante e quase receava que ela se calasse. Porém, ao início da tarde do dia seguinte, tal como tinha começado, calou-se subitamente. Como um rádio que tivesse sido desligado. E a seguir adormeceu profundamente, num sono de quase tantas horas como as que estivera a conversar e a rir com a rapaziada do seu tempo. Tinha de estar completamente exausta.

Dali a poucos dias começou a ser acometida de violentas convulsões e teve de ser internada de urgência primeiro no hospital distrital, a seguir nos cuidados continuados da nossa aldeia. E dali partiu ao encontro do seu António breves dias depois, agarrada a uma das minhas mãos e também a uma das mãos da minha irmã Joaquina porque estávamos à sua cabeceira a confortá-la na hora da partida. Passado todo este tempo – mais de 5 anos – dou por mim muitas vezes a pensar ainda no insólito episódio que antecedeu em poucos dias o seu adeus definitivo.

José Coelho in Histórias do Cota
(Adaptado)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Coisas que leio...

Altar-mor da Igreja Paroquial de Nª Sª do Carmo - Beirã 
Foto José Coelho

É muito conhecida a máxima de que os exemplos e as atitudes é que valem porque discursos e palavras leva-os o vento. Podemos dizer frases bonitas, argumentar com propriedade, porém, a forma como vivemos e aquilo que fazemos é que determina o que somos e o que temos dentro dos nossos corações.

O mundo anda carente de amor, de respeito, de empatia, de se reparar no outro, de se perceber que somos parte de um todo. A vida corre também fora de nós e estende-se muito além da nossa zona de conforto. Temos que cuidar do que acontece dentro de nós, dos nossos sentimentos, porém, caso só nos preocupemos com o nosso eu, estaremos a negligenciar o nosso papel social, a nossa capacidade de nos relacionarmos e de fazermos uma diferença positiva nas vidas alheias.

É interessante notar que as pessoas procuram diferentes formas de se comunicarem com Deus para se sentirem bem. (…) Mesmo assim, apesar de toda essa gente que frequenta igrejas, cultos, terreiros, ainda assistimos a cenas de total falta de compaixão em relação ao próximo. Nem mesmo as crianças e os idosos têm sido poupados a atitudes violentas ultimamente.

E ao lado dessa violência explícita, há ainda a violência velada, implícita, indireta, mas também extremamente prejudicial. Um simples olhar, o desprezo, o silêncio diante do mal, várias atitudes que implicam violência e maldade. Muitas pessoas, inclusive, conseguem ser muito melhores na rua do que em casa. Encarnam uma figura bondosa na sociedade mas transformam os seus lares em verdadeiros infernos, sendo cruéis com seus familiares das mais variadas formas.

Como se vê, muitas pessoas se contradizem diariamente, fingindo o que não são. E tentam expiar as suas culpas em locais religiosos, fazendo caridade como obrigação na tentativa de receberem o perdão, porque, na verdade, têm plena consciência do mal que espalham. Porém de nada adianta rezar, se continuam a praticar os mesmos erros. A religião está dentro de cada um e só existe na prática. Porque a religião não se discute, pratica-se.

Marcel Camargo 
in A nossa religião é aquilo que fazemos quando o sermão acaba
(Adaptado)

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Dá que pensar...

Imagem do Google

"Ao longo do ano 2019, tivemos no concelho de Marvão 76 óbitos (77,64%) e 17 nascimentos (22,36%).

(Informação publicada na folha semanal Nº 10 do Mês de Fevereiro 2020, das Paróquias de Marvão) 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Inferno verde (1)

Em Belize, no coração do Maiombe - 1972


É algo complicado para mim apesar de passadas já quatro décadas, recordar o que foram dois anos no coração da mata do Maiombe longe de tudo quanto era civilização. Dizem os livros que é a única floresta que em extensão e densidade se compara à Amazónia sendo por isso o segundo pulmão do mundo. É? Não sei. Mas se os livros o dizem… Contudo, nunca me preocupei em confirmá-lo pois a única coisa com que me preocupei e empenhei com todas as minhas forças depois de lá sair, foi tentar esquecer que aquilo existe.

Por uma questão de justiça antes de prosseguir é meu dever afirmar que Angola é linda. Um sonho de terra. Conheci as cidades de Luanda e Cabinda, depois as vilas do Caxito, Ambriz e Ambrizete. Independentemente da guerra e das suas vicissitudes, África é um continente maravilhoso. O próprio Maiombe no exotismo da sua diversificada e luxuriante vegetação, tem recantos de sonho. A sua fauna é também muito rica. Abundam as enormes jiboias e muitas outras cobras mais pequenas mais ou menos venenosas mas todas elas vistosas, elefantes, pacaças, gorilas e uma infinidade de raças de outros macacos também de diversos tamanhos, o mais pequeno dos quais é o saguí, além de milhares de outros bichos e aves exóticas. E, nos diversos rios que por ele serpenteiam, abundam ainda os crocodilos.

Também os indígenas locais não são como os caricaturam muitas vezes. São boa gente. Conversávamos muito com eles pelas sanzalas principalmente com os mais idosos que eram iguais aos anciãos das nossas terras, conselheiros sábios, prudentes e experientes. As mulheres meigas e afáveis como as nossas, as crianças irrequietas e curiosas, também. Ali, nós é que éramos os estranhos, os estrangeiros na sua terra apesar de na instrução militar nos terem feito a lavagem ao cérebro, para nos convencerem a vermos em cada um deles um “turra”, um inimigo perigoso. Nos cenários de guerra há, sempre houve e sempre haverá, infiltrados. Obviamente. Porque tentar conhecer as fraquezas do inimigo é uma das regras do jogo, estrategicamente utilizada pelas partes em conflito. Mas lá, convivendo de perto no dia a dia com a população, percebia-se perfeitamente que a esmagadora maioria queriam apenas viver a sua vida em paz. E os habitantes daquelas sanzalas isoladas no interior da floresta eram quase sempre tão vítimas da guerra como nós.

Demasiadas vezes foram tratados pelo homem branco com uma superioridade que na realidade este nunca teve. São apenas pessoas e a diferença na cor da sua pele em nada os faz menos merecedores do respeito devido a qualquer ser humano. Deixei algumas amizades por lá, maioritariamente entre as jeitosas moças "fiotes", uma das quais a bonita Madô que foi quem cuidou das minhas roupas durante os dois anos que lá estive e não só. A amargura perene e as marcas irreparáveis que a guerra me deixou nada têm a ver com os africanos nem com a sua terra. São marcas que ficaram na alma para sempre e foram deixadas por uma vida insana desumana e injusta que se vivia em tais condições, naquele tempo e lugar. Hoje talvez até gostasse de lá voltar e poder ver como está tudo aquilo, sem o espectro da maldita guerra com o perigo a espreitar por todos os cantos.

No tropical anoitecer do dia 13 de Março de 1972 atracámos por fim ao porto de Cabinda na tal barcaça achatada (Ariete) que mais parecia uma ponte flutuante, ensonado e bastante dorido por 60 horas de viagem sentado em cima das bagagens, deficientemente alimentado pela enjoativa ração de combate e suficientemente amedrontado com as notícias pouco tranquilizadoras que nos tinham chegado ao ouvido acerca do inferno que nos esperava naquela terra de ninguém, disputada por diversas facções inimigas que tudo fariam para nos dificultarem a estadia que não iria ser nada breve.

Um homem sente medo muitas vezes, por mais que diga que não. E também chora. Por mais valente e audaz que possa ser. E todos nós, os Cavaleiros do Maiombe – cognome atribuído a todos os militares do BCAV 3871 – sentimo-lo profundamente vezes sem conta. E outras tantas vezes chorámos. De desespero. De raiva. De frustração e de impotência por nada conseguirmos fazer que pudesse impedir ou evitar tantas mortes e tantos estropiados naquelas malditas emboscadas e rebentamentos de minas ou outras armadilhas semeadas por tudo quanto era chão e tantos danos causavam por mais cautela que todos tivessem nas deslocações pela mata.

A imagem que melhor recordo daquele anoitecer da nossa chegada a Cabinda – em África não há crepúsculo como cá, anoitece ou amanhece quase de repente – é a imagem fantasmagórica das altas chamarelas dos poços de petróleo no meio do mar da Cabinda Gulf Oil que salpicavam de lume toda a costa numa extensão a perder de vista parecendo tochas gigantes reflectidas no mar pelo negrume da noite.

À nossa espera estava uma coluna de várias viaturas conduzidas pelos felizardos “velhinhos” que íamos substituir e que não se coibiam de nos atazanar o juízo com a velha lenga-lenga de “maçaricos” ou “piu-piu pintainhos” bem como de alardearem profusamente o seu já próximo regresso a casa, vociferando como dementes: “Não se enervem maçaricos! Só já vos faltam 730 dias para voltarem para a mamã…” Era da praxe e não havia que levar a mal. Mas o cansaço, o sono, a angústia do desconhecido e o mais que anunciado perigo que nos aguardava, não nos davam ânimo para celebrar com eles aquela euforia, nem sequer para esboçar algum sorriso às suas felizes piadas, pelo que a nossa resposta era apenas uma total indiferença e uns semblantes cansados.

Escuro como breu poucos quilómetros percorridos e após se extinguirem de vez as últimas luzes da civilização da vila de Lândana, acolheu-nos o imponente Maiombe em toda a sua negra imensidão. A coluna de viaturas serpenteava atenta e vagarosamente com milhões de sons nocturnos provenientes do denso mato a soarem mais alto que o próprio ronronar dos motores dos unimogs que nos transportavam, intercalados  pelas berliets que levavam as nossas bagagens. De longe em longe atravessávamos sanzalas com pequenas casotas redondas de adobe e telhados de colmo completamente às escuras sem se vislumbrar viv’alma. Para além dos faróis das viaturas tudo o que nos rodeava era uma sinistra e pesada escuridão.

Chegámos por fim ao Belize mais de 200 km a norte de Cabinda, bem no coração da floresta. Esperavam-nos, mais uma vez loucos de euforia, os “velhinhos” que íamos render que nos receberam com mangueiradas de água à medida que as viaturas iam entrando naquele enorme recinto de grandes barracões cobertos com chapas de zinco a que pomposamente chamavam casernas, refeitório, posto de rádio, secretaria… Aquilo era, nem mais nem menos, um acampamento rasca sem um mínimo de condições onde centenas de homens já tinham vivido nos anos transactos e onde nós passaríamos a viver nos dois anos seguintes.

Essa noite – a primeira das tais 730 – foi mesmo para esquecer.

Exaustos porque sem dormir há quase 3 dias, tivemos que suportar, perante a passividade indiferente dos oficiais e sargentos responsáveis por aquela turba de insurrectos, que eles passassem a noite a apedrejar os telhados de zinco das casernas onde nos tinham enfiado, provocando, como é óbvio, um alarido ensurdecedor. E gritavam, riam, ululavam como os índios dos filmes de cowbois tratando-nos como se em vez de sermos os bem-vindos camaradas sucessores que iam pôr fim ao seu longo desterro, fôssemos os turras que lhes haviam tirado o sossego durante a sua estadia naquele fim de mundo.

Dir-se-ia que tínhamos aportado a uma colónia de loucos completamente descontrolados a quem ninguém teve o bom senso de mandar parar aqueles excessos insuportáveis.

Ainda assim, o cansaço era tão grande que adormeci vestido e calçado sobre o beliche, ao som do estrépido das pedradas a caírem consecutivamente no telhado de zinco da caserna e dos autênticos uivos dos camaradas “velhinhos” cuja justificação ou desculpa era somente a de estarem “cacimbados” pelas agruras da guerra e isolamento quase total naquela imensidão de selva…

Continua…

Nota explicativa

Este relato apesar de várias tentativas para o abreviar manteve-se ainda assim demasiado extenso. Para não se tornar tão cansativo e enfadonho decidi fraccioná-lo em 4 textos todos com o mesmo título, referenciando apenas cada um deles com a sequência numérica 1-2-3-4 que os diferenciará entre si.

José Coelho in Histórias do Cota