quinta-feira, 11 de julho de 2019

Meu vício de ler...

11jul'19

Entra pela velhice com cuidado.
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores
Do que tiveres no pomar plantado
Apanha os frutos e recolhe as flores,
Mas lavra ainda e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.
Não te sejas a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.
Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude…


Bastos Tigre

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A Festa da Beirã (ou festa do pau caiado)...

Programa original digitalizado por mim

Com data fixa a 16 de julho de cada ano, a sua preparação começava a bulir logo nos fins de maio, princípios de junho. A Comissão de Festas composta por um punhado de pessoas de todas as forças vivas da terra, CP, Alfândega, Despachantes Oficiais e seus respectivos colaboradores, comerciantes e trabalhadores rurais, quase todos transitados dos anos anteriores e acrescida esporadicamente por um ou outro novo elemento, convocava as reuniões preparatórias na Sociedade Recreativa para se debater o programa da festa e distribuir as diversas actividades por grupos de pessoas como o peditório para festa e para quermesse por todos os povoados vizinhos, quem iria tratar da ornamentação das ruas, da montagem do palco, quermesse e bar no recinto da festa, etc, etc.. 

Iniciava-se desde logo a feitura de centenas de rifas e de bandeirinhas de papel colorido coladas depois em novelos de cordel com uma massa de farinha e água e que depois de secas eram enroladas nuns grandes pedaços de cartão. Dezenas de postes de madeira de pinho guardados todo o ano no “casão dos Vivas” eram transportados pouco a pouco para as ruas para serem caiados pelas senhoras um a um a pincel com cal branca, matéria barata e abundante nas caleiras da Escusa. Daí nasceu o “apelido” de “festa do pau caiado” que dava jus a muitas piadas carregadas de brejeirice entre a rapaziada moça do burgo e arredores. 

À medida que iam ficando prontos, os paus imaculadamente brancos eram cravados de x em x metros nos dois lados das ruas principais da aldeia previamente ornamentados já com duas bandeirolas de pano, azuis e brancas. Depois eram pregadas em zigue-zague as tais centenas de metros de cordel com bandeirinhas coloridas de papel, intercaladas por miríades de lâmpadas elétricas que davam à aldeia um ar solene de traje de gala.

Havia ainda também algumas faixas de pano branco com frases litúrgicas - Bendita És Tu entre as mulheres, ou outras - pelas ruas por onde iria passar a Senhora do Carmo no seu imponente andor todo coberto de flores naturais e iluminado por quatro portentosos candelabros eléctricos ligados a uma bateria e carregado em ombros por oito homens de cada vez que se iam revezando por outros tantos à vez. Era uma das maiores festas do concelho, equiparada ao S. Marcos de Santo António das Areias em 25 de Abril e à Senhora da Estrela, Padroeira do Concelho de Marvão, em 8 de Setembro.

As décadas de 50 e 60 foram as duas décadas de ouro da Beirã em termos de população, emprego e actividade comercial. Era uma comunidade muito viva e quase auto-suficiente com um mercado semanal à segunda-feira onde se vendia de tudo. Produtos frescos das hortas e pomares, aves vivas e ovos, enchidos e queijos caseiros de altíssima qualidade. Ah! E o leite de vaca ou de cabra era fresco, diário, em vários pontos de venda. De todos os lugares da freguesia vinham hortelãos vender os produtos das suas hortas e frutas, assim como alguns feirantes vinham também vender roupas e calçado nas suas carrinhas.

Além deste mercado semanal havia ainda o diverso comércio local com cinco ou seis tabernas-mercearias, dois talhos, uma padaria, dois alfaiates, dois barbeiros, um carpinteiro, mestres-de-obras, um restaurante, duas pensões, a Loja Grande que era uma espécie dos actuais mini-mercados onde se vendia de tudo, duas escolas – uma para os rapazes outra para as raparigas – um cartório do Registo Civil, uma Sociedade Recreativa onde quase todas as semanas havia bailes e cinema na grande sala de espectáculos e na qual também se podia assistir tranquilamente às emissões diárias da RTP.

Havia ainda um Clube Recreativo semi-privado só acessível a sócios com quotas pagas em dia e que eram seleccionados/aprovados pela direcção do mesmo após requererem a sua inscrição. Era o “Clube dos ricos” como comummente se comentava entre a malta “menos rica”. Nesse tempo a Beirã era talvez uma das aldeias mais emblemáticas e desenvolvidas do Concelho de Marvão. O intenso tráfego ferroviário de mercadorias e passageiros entre Portugal e Espanha e vice-versa, promoviam todo esse desenvolvimento.

A sua população, em virtude dos inúmeros Serviços que aqui tinham sede – ferroviários, pessoal aduaneiro, guarda-fiscal, Pide/DGS, despachantes oficiais e seus colaboradores – era oriunda um pouco de todos os cantos de Portugal. Havia gente das Beiras, do Minho e Trás-os-Montes, do Douro, do Baixo e Alto Alentejo e do Algarve. Aqui colocados em serviço, aqui se estabeleciam e aqui nasceram muitos dos seus filhos que depois aqui cresceram, frequentaram a escola e catequese em saudável convivência e vizinhança com os Beiranenses de todas as classes sociais dos quais passavam, sem qualquer dificuldade, a fazer parte.

O Dia Maior da Beirã foi e tem sido até hoje, o Dia da sua Padroeira. Em 2019 como em 2009, 1999, 1989, 1979, 1969 e 1959 – ou seja desde que me conheço – a Beirã chama a si, neste dia, muitos dos seus filhos, onde quer que se encontram. E é inexplicável, especialmente agora que somos por cá já tão poucos a morar e a ir à missa, como no Dia da Padroeira a igreja se enche por completo. Filhos da Senhora que vivem longe e só cá vêm no Seu dia. Ao cair da noite então, a procissão junta ainda mais e mais gente. É um enigma que nunca consegui entender. Amor de filhos? Fé? Saudades? Não sei...

Quando há pouco tempo referi numa reunião de trabalho que a nossa festa foi outrora conhecida entre os locais como “a festa do pau caiado” vi olhares e expressões de surpresa de todas as pessoas que me ouviam, tendo algumas afirmado inclusive que nunca haviam ouvido falar de tal coisa. Mas era assim mesmo. Amo a minha aldeia na sua mais pura essência e há coisas que jamais conseguirei esquecer enquanto viver. Haverá certamente gente do meu tempo e até mais velha que eu, que se lembrará com certeza disso e poderá corroborar a minha explicação que nada tem de extraordinário pese embora a inocente brejeirice popular então associada ao “pau caiado”.

Para terminar e queiram perdoar-me a imodestia já algumas vezes dei o meu contributo pessoal para ajudar na angariação de verbas necessárias para as consequentes despesas que qualquer evento dessa natureza envolve. Brincadeiras sem importância mas com o empenho de muita gente que deu o seu melhor para levarmos a cabo uns serões muito bem dispostos, já que tristezas não pagam dívidas. Publico um dos programas que guardo carinhosamente de uma dessas aventuras em jeito de recordação, assim como guardo também os originais dos textos então por mim escritos à mão porque não tinha máquina para dactilografar.

Bons tempos. Boas recordações. Gente do melhor. Beiranenses puros e generosos que não tinham complexos de se mascarar de personagens hilariantes para divertir uma plateia inteira de atentos e bem-dispostos conterrâneos. Muitos deles vão com certeza ler estas letras. A todos envio um grande abraço com estima e consideração. E só não refiro nomes porque alguns já não estão entre nós, infelizmente. E também porque éramos tantos que receio por esquecimento não mencionar alguém. Os que lá estivemos sabemos quem fomos. Hoje seria mais complicado fazê-lo porque já não existe na Beirã nenhuma sala para tais eventos.

Tudo se vai extinguindo nestas aldeias outrora tão profícuas de gente, cultura e vida...


José Coelho
10Julho19

terça-feira, 9 de julho de 2019

Nem sempre se consegue...

Foto - Pedro Coelho

(...)

Não tem sido fácil esquecer o sofrimento por que te vi passar nos últimos meses da tua vida, Mãe. Tenho no entanto plena consciência que tudo quanto humanamente esteve ao meu alcance e me foi possível fazer, fiz, para tentar ajudar-te e minimizar o teu desconforto. Sofri contigo cada segundo como nem imaginas. Doía-me profundamente assistir impotente à tua agonia dolorosa, lenta e irreversível, mas o teu coração tinha tanto de doce como de resistente e não se rendeu facilmente como tu também nunca te rendeste às tempestades e rudezas da vida. Que não foram poucas.

A ti devo tudo o que sou, Mãe. Na humildade do teu analfabetismo eras melhor professora do que muita gente licenciada que conheço. Os livros de onde nos ensinavas eram os exemplos diários e permanentes que nos transmitias repletos de conteúdo em vez de letras. Dona e senhora de enormes virtudes, o asseio e a arrumação eram a tua mais forte característica. Foste sempre de um brio excepcional como dona de casa, esposa e mãe. Trabalhaste continuamente durante toda a tua vida ajudando tudo e todos, e foste, inequivocamente, o pilar fundamental da nossa família. Eras também promotora e praticante da mais absoluta honradez e seriedade. Mereceste sempre, por tudo isso, a amizade o respeito e o carinho de toda a gente que te conheceu. 

Todos os dias me lembro de ti, Mãe. E sinto tanto a tua falta. A minha vida nunca mais foi a mesma desde o dia 28 de julho de 2014. Não por ter sido surpresa pois era um fim anunciado há tempo suficiente para estarmos preparados. Mas não foi bem assim. Percebi nesse dia que nunca estamos e nunca estaremos preparados para perder quem nos trouxe ao mundo. E se de verdade me doeu muito a partida do meu pai e teu companheiro de quase toda a tua vida, porque me doeu terrivelmente sim, mais verdade é que a tua partida me doeu infinitamente mais. Ele também perdeu a mãe dele e minha avó Adelina e por isso sei que, onde quer que esteja, o ti António Coelho me entende.

Se antes ia regularmente ao cemitério, agora que devia ir mais, vou menos. Ainda não consegui fazer o luto de ti por completo e fiquei demasiado perturbado as poucas vezes que lá fui. E tu sabes que eu não sou de grandes pieguices. Mas fui sempre muito agarrado a ti, Mãe. E tu a mim também. Amávamo-nos infinitamente um ao outro. O momento mais angustiante da minha vida ocorreu na casa mortuária poucas horas depois de teres partido. A família tinha ido não sei onde fazer não sei o quê e ficámos sozinhos os dois embora a sala estivesse repleta de gente vizinha e tua amiga que quis estar ali a acompanhar-te.

Foi nesse instante que um pranto profundo e incontível brotou finalmente da minha alma meio estupidificada desde as três horas da tarde quando deste o teu último suspiro agarrada à minha mão e à mão da mana Joaquina. Acho que só nesse instante me dei finalmente conta que te tinha perdido para sempre. E desatei a chorar possuído por uma dor inexplicável durante muito tempo sem conseguir e sem querer conseguir conter-me. Apenas me lembro de a vizinha Joaquina se ter levantado da sua cadeira para vir confortar-me dizendo baixinho “pronto, pronto, não chores já mais Zé Manel, a tua mãe deixou de sofrer e está agora em paz”.

Foi tão duro, Mãe.

Cá em casa o teu quarto mantém-se como quando tu o habitavas. E os “santinhos” e demais “coisinhas” que eram tuas continuam na cómoda do quarto algumas, na estante do meu escritório outras a fazerem-me companhia. Até os rebuçados de café que me davas continuam guardados no pequeno pote de vidro ao lado das tuas outras coisas porque ainda não consegui deitá-los fora pese embora cinco anos depois já não se devam poder comer. É, acho eu, uma forma de te manter ainda perto de mim.

Um dia irei conseguir diluir um pouco mais este gigantesco sentimento de perda. Será talvez apenas uma questão de mais algum tempo. Mas por enquanto ainda não consegui. Nada na minha vida voltou a ser como era. Até um dia, Mãe. Voltaremos a estar juntos. E dessa vez será para sempre...

José Coelho in Carta para a minha Mãe
09jul’19 – Republicado com alguns acertos

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Traz-me o vento estas lembranças…

Sócha do miradouro da Beirã - Foto José Coelho

Um amigo que nunca vi, mas de quem gosto pese embora seja às vezes mais agreste do que a conta. Há quem chame de sinistro ao seu uivo quando zangado, mas nunca me meteu medo. Nos serões à lareira ouvi-lo rugir na chaminé da nossa casa era para mim glória bendita. Indiferente à fúria com que ele embatia lá em cima nas tijoleiras em V, o lume de lenha crepitava alegremente oferecendo o seu calor e conforto à família instalada à sua volta. Em vez de meter-nos medo, o estrondo da invernia fazia com que nos sentíssemos em segurança e abrigados. Hoje, a muitas décadas de distância, rodeado de conforto e mordomias que à época não existiam, sinto infinitas saudades de coisas tão simples como aqueles longos serões de inverno em redor do lume onde a minha mãe preparava a ceia depois do seu dia de trabalho árduo no campo.

À medida que fui adquirindo outros conhecimentos tive em simultâneo que aprender a lidar com o meu invisível amigo de modo a não me deixar por ele vencer. Coisas tão básicas como acender um lume ao relento para me aquecer em dias ventosos, húmidos e frios, sem ter que gastar a caixa de fósforos inteira. E também fazer lume no pico do verão no meio do restolho seco para cozer o almoço sem atear fogo à tapada toda era outra aventura repleta de cuidados e truques. Apesar de os camponeses cozinharem sempre em lume de chão as suas refeições, fosse onde fosse, ou em que época do ano fosse, os cuidados eram tão eficientes que nunca havia fogos assassinos de pessoas ou do ambiente como há agora.

A vida ensinou-me ainda alguns segredos que o vento até hoje não descobriu, nomeadamente, como consegue derrubar quase tudo na sua fúria, menos uma sócha? Ah pois! Destelha por completo telhados, coberturas inteiras de armazéns, barracas e barracões, mas as sóchas ele nunca consegue destapar. Deixa-as sempre de pé exatamente como as encontra. Seja qual for a sua força. A forma cónica daquelas aparentemente frágeis coberturas não permite que ele lhes pegue, ou as derrube. Não há frinchas ou fraquezas por onde entrar ou agarrar. Limita-se por isso a seguir o seu caminho depois de se enrolar inutilmente em redor do erecto cone vegetal tão sabiamente inventado para quebrar a sua impetuosidade e resistir-lhe.

Tive a sorte e o privilégio de os meus avós e tios maternos serem quase todos guardadores de rebanhos. E todos eles viviam parte do ano em sóchas e sôchos onde eu dormi sempre quando os fui visitar. Já agora, porque muita gente não saberá qual a diferença entre ambos, explicarei que a sócha é uma construção circular fixa com vários tamanhos de raio, com uma parede em pedra seca de mais ou menos  metro e meio de altura e uma porta de madeira sobre a qual é disposta em cone uma armação de paus compridos, direitos e  pouco grossos, afastados entre si vinte ou trinta centímetros, solidamente amarrados uns aos outros desde a base até ao bico da estrutura para serem depois cobertos por camadas sobrepostas de giestas verdes, as quais, à medida que vão secando se vão transformando numa compacta e impermeável cobertura. Quentes no inverno e frescas no verão, de um dos lados do círculo interior ficava normalmente a zona de estar e comer, ao centro e bem por baixo do topo do cone um quadrado no chão feito de quatro lajes para o lume, do outro lado do círculo interior ficava a zona de dormir quase sempre sobre tarimbas forradas de restolho macio, por baixo das quais se guardava a roupa.

Capaz de afrontar também qualquer temporal, o sôcho era um primo-irmão da sócha embora muito mais pequeno. E desmontável para poder mudar de sítio sempre que se tornava necessário. Todo feito em giesta ou palha de centeio dispostos também em camadas sobre uma armação côncava de varas verdes de vime (ou outra madeira flexível) previamente entrelaçadas e fixadas, era composto por quatro peças amovíveis. O lado côncavo direito, o lado côncavo esquerdo, o centro posterior em semi-arco para unir os dois lados côncavos direito e esquerdo, e, finalmente, o centro frontal amovível que fechava o espaço e simultaneamente fazia de porta para utilização diária. Era montado num alto e nas cercanias do bardo onde o gado pernoitava durante grande parte do ano. Cada vez que o rebanho mudava de um para o outro extremo da herdade o sôcho era desmontado para voltar a ser montado no novo local de pastoreio e pernoita.

Mas já vai longa por hoje a prosa. Voltemos por isso e para concluir ao meu fiel e invisível amigo. Em dias menos bons da minha vida e foram muitos, o sussurro que as folhas fazem ao tocar-se nos ramos das árvores agitadas por ele quando é calmo, sossegou quantas vezes as minhas inquietações! E não conheço nada mais repousante do que deitar-me de costas sobre a erva dos campos a observar as brancas nuvens de algodão na sua viagem pelo azul do céu guiadas por ele. Porque é seguramente a minha mais velha e fiel companhia, respeitamo-nos um ao outro. Quando vejo que vem zangado viro-lhe as costas e abrigo-me. Se pelo contrário vem tranquilo na tal forma de brisa, gosto de o sentir no rosto como que a sussurrar-me ao ouvido audíveis timbres musicais que parecem conter a voz de pessoas queridas que deixei de ouvir há muito...

José Coelho
08jul19

domingo, 7 de julho de 2019

66º Aniversário da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo da Beirã...

 Foto - José Coelho
 Foto - José Coelho
Foto - José Coelho

Começa hoje a preparação para o Dia Maior da Beirã. O da sua Padroeira. Este ano cumpre-se o 66º aniversário da criação desta Paróquia de Nossa Senhora do Carmo. 16-07-1953 «+»16-07-2019. Venham daí Beiranenses...

terça-feira, 2 de julho de 2019

Meu vício de ler...

Lírio selvagem - Foto José Coelho


SAUDADE


Tu és o cálix;
Eu, o orvalho!
Se me não vales,
Eu o que valho?

Eu se em ti caio
E me acolheste
Torno-me um raio
De luz celeste!

Tu és o colo
Onde me embalo,
E acho consolo,
Mimo e regalo:

A folha curva
Que se aljofara,
Não d'agua turva,
Mas d'agua clara!

Quando me passa
Essa existência,
Que é toda graça,
Toda inocência,

Além da raia
D'este horizonte
Sem uma faia,
Sem uma fonte;

O passarinho
Não se consome
Mais no seu ninho
De frio e fome,

Se ela se ausenta,
A boa amiga,
Ah! que o sustenta
E que o abriga!

Sinto umas mágoas
Que se confundem
Com as que as águas
Do mar infundem!

E quem um dia
Passou os mares
É que avalia
Esses pesares!

Só quem lá anda
Sem achar onde
Sequer expanda
A dor que esconde;

Longe do berço,
Morrendo á mingua,
Pais diverso...
Diversa língua...

Esse é que sabe
O meu tormento,
Mal se me acabe
Aquele alento!

Ah, nuvem branca
Ah, nuvem d'oiro!
Ninguém me estanca
Amargo choro;

E assim que passes
Mesmo de largo...
Vê n'estas faces
Se há pranto amargo.

Tu és o norte
Que me desvias
De ir dar á morte
Todos os dias;

A larga fita
Que d'alto monte
Cerca e limita
O horizonte!

Tu és a praia
Que eu solicito!
Tu és a raia
D'este infinito!

Se ha uma gruta
Onde me esconda
Á força bruta
Que traz a onda;

Á força imensa
D'esta corrente
D'alma que pensa,
Alma que sente;

Se há uma vela,
Se há uma aragem,
Se há uma estrela,
N'esta viagem...

É quem eu amo,
A quem adoro!
E por quem chamo!
E por quem choro!


João de Deus, in 'Ramo de Flores'

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Obrigado mais uma vez... (à Senhora jornalista Marta Silva do CM e à Senhora minha nora Ana Batista)

 Fotos da Revista de Domingo do CM de 08.04.2018

"Sabia lá eu então, provinciano ingénuo do profundo interior norte-alentejano de onde quase nunca tinha saído o que era a tropa, o que era o mundo, o que era a guerra. Ainda mal havia terminado a especialização quando fui mobilizado para integrar o BCAV3871, que se formou no RC3 em Estremoz e passou depois por Santa Margarida, até embarcarmos num Boeing 747, a caminho da guerra de Angola com destino ao Belize e às profundezas do Maiombe no enclave de Cabinda. Foi sem dúvida o meu inferno na terra. O que por lá vi, vivi e padeci, mudou para sempre a minha maneira de ser, de estar, de ver, de encarar o mundo e a vida. Escrevi “o meu inferno na terra” porque duvido que algo pior possa acontecer-me alguma vez, desde então e até ao final dos meus dias, por mais ruim que possa parecer. Conforta-me também um pouco pensar que ao chegar a minha última hora irei certamente direitinho ao céu, uma vez que já paguei todos os meus pecados cá em baixo durante aqueles intermináveis 28 meses. 

Embora isso pareça quase ridículo – hoje que todos trazemos no bolso um telemóvel que facilmente nos liga a qualquer parte do mundo por mais distante que esteja – a especialidade de transmissões era, apesar da também enorme importância de todas as outras, a mais sensível e imprescindível, na guerra onde eu andei. Longe de toda a civilização a única ligação era aquele pequeno aparelho emissor-recetor TR28B2, que cada militar de transmissões carregava às costas como se fosse uma mochila.

Já pouco recordo desses inúmeros códigos. Mas durante muito tempo me lembrei de todos eles. Ainda assim, há um desses códigos impossíveis de esquecer. É a palavra “azul” que significava “morto em combate”. Infelizmente para os camaradas que lá ficaram, dezoito vezes teve que ser recitado esse malfadado código. Dos outros códigos para “feridos ligeiros” ou “feridos graves” já me não recordo, apesar de também terem sido muitos os camaradas a quem tocou esse indesejado “apelido”. Cento e três tiveram de ser evacuados por terem ficado feridos ou estropiados e nunca mais os vi. Só quem por lá andou sabe o que é morar na guerra. 

Porque um homem sente medo muitas vezes, por mais que diga que não. E também chora. Por mais valente e audaz que possa ser. E todos nós, os Cavaleiros do Maiombe – cognome atribuído a todos os militares do BCAV 3871 – sentimo-lo profundamente, vezes sem conta. Um medo real e palpável. E outras tantas vezes chorámos. De desespero. De raiva. De frustração e de impotência por nada conseguirmos fazer que pudesse impedir ou evitar tantas mortes e tantos estropiados naquelas malditas emboscadas e rebentamentos de minas ou outras armadilhas, semeadas profusamente por tudo quanto era chão e tantos danos causavam por mais cautela que todos tivéssemos em todas as deslocações pela mata. 

Não há palavras capazes de descrever o que cada um de nós sentia quando víamos estendido à nossa frente, já morto, coberto de sangue e de pó, horrorosamente desfigurado, às vezes amputado, aquele camarada que horas antes almoçara na nossa mesa, falara da sua mãe, da namorada, do filho ou do pai que tinha em casa à sua espera. Aquela visão causava-nos uma dor sem explicação. 

Quase quarenta e cinco anos depois neste mundo completamente diverso do de então, pergunto-me como foi possível ter passado por tudo aquilo e ter voltado para os meus são e salvo. Talvez mais salvo que são, porque nunca mais – e não me perguntem porquê porque também não sei – consegui voltar a ser aquela pessoa feliz e despreocupada que o tal Boeing 747 levou para Angola, nos idos de um já distante março". 


(Excertos de "Histórias do Cota" compilados pela jornalista Marta Martins Silva do Correio da Manhã a quem a minha nora Ana Batista enviou o livro, publicados na Revista Domingo de 08.04.2018 https://www.cmjornal.pt/…/a-guerra-em-angola-foi-o-meu-infe…)