Às vezes os filhos da puta
vencem. Às vezes as bestas vivem até aos noventa, com fígados de ferro e uma
consciência limpa — porque nunca a usaram. Às vezes os cabrões riem-se da
justiça enquanto pagam jantares em restaurantes caros com dinheiro que não deviam
ter. Às vezes quem grita é quem sobe — e quem escuta é quem se afunda.
Crescer é isto. Não é só aprender a fazer contas, a pagar impostos, a responder a e-mails. Crescer é perceber que o mundo é um sítio profundamente imperfeito — e que essa imperfeição nem sempre tem catarse, nem justiça poética, nem castigo divino.
Há sacanas que morrem em paz. Há bons que morrem a gritar. Há empresas geridas por incompetentes com lábia. Há génios que entregam currículos em silêncio. Há sistemas que premeiam o esperto e trituram o justo.
Mesmo assim — mesmo assim — continuamos. Continuar é o milagre. Continuar a ser boa pessoa quando tudo à volta nos mostra que não compensa. Continuar a fazer o certo quando o errado enriquece. Continuar a não cuspir quando apetece. Continuar por respeito próprio.
Deve ser isso a decência.
Pedro Chagas Freitas - O HOSPITAL DAS ALFACES
