domingo, 27 de julho de 2025

A vida é (mesmo) assim


 

Não culpemos o vento por ele ter tombado a jarra das flores quando fomos nós que abrimos a janela e o deixámos entrar. De igual modo não nos culpemos também por termos aberto a janela, pois não podíamos prever que ia vir o vento.

Na vida tudo acontece quando e como tem de acontecer. Nada consegue mudar isso. Por mais cuidadosos e prudentes que sejamos e por melhores que sejam as nossas intenções, jamais seremos capazes de prever o imprevisível.

Acreditar que as pessoas são como nós bem-intencionadas, é também absolutamente normal porque até prova em contrário todos somos confiáveis, dignos do crédito e do respeito de quem conosco convive ou priva.

Desde o berço fui assim moldado e todos os dias da minha vida dou graças por isso. A minha árvore genealógica é humilde de pergaminhos mas abastada de princípios e valores, dos mais básicos e simples de manter, aos mais elevados e difíceis de conservar.

Aprendi pelo permanente exemplo desses meus queridos mestres que a bondade, a honestidade, a educação e o respeito de uns para com os outos são invioláveis, porque cada um deles encerra em si a multiplicação de todos os outros.

E juntos promovem a dignidade humana que é devida e merece cada um de nós.

Infelizmente ao longo do meu já extenso caminho fui conhecendo de tudo um pouco. Do melhor e do pior. Do melhor foi, felizmente, a parte maior. Do pior, apesar de ter sido a menor parte, foi infelizmente aquela que me mostrou a cor mais negra da alma humana.

Não vou, porque não sou de lamechices, mencionar seja o que for. Está tudo arrumado no sótão da minha memória e disso só deixei alguns marcadores para quando necessito reaprender a superar a dor quando voltam a acontecer.

Claro que voltam e continuam a repetir-se. Mais do que deveriam com novos e cada vez mais letrados protagonistas. Mas a sua cor, amargor e a deceção que causam são iguais, ou ainda mais acentuadas.

Os diplomas catedráticos não conseguem cultivar mentes que já nasceram perversas.

E não há como evitá-lo, porque nem é possível mudar a maneira de ser de cada pessoa, nem a tal bondade, educação e respeito invioláveis conseguem reproduzir-se no coração de quem nasce torto e tarde ou nunca se endireita.

Não é também, de todo, defeito das sementes.

É mesmo a aridez dessas almas que não as deixa nascer e muito menos reproduzir. Apesar de ter disso consciência, nunca deixarei de lutar por um mundo melhor e mais justo.

Não são muito vastas as minhas capacidades, mas são verdadeiras.

Iguais às daqueles a quem as agradeço.

 

José Coelho

Foto Maria Coelho