Não culpemos o vento por ele ter tombado a jarra das flores quando fomos nós que abrimos a janela e o deixámos entrar. De igual modo não nos culpemos também por termos aberto a janela, pois não podíamos prever que ia vir o vento.
Na vida tudo acontece quando e como tem de acontecer. Nada consegue mudar
isso. Por mais cuidadosos e prudentes que sejamos e por melhores que sejam as
nossas intenções, jamais seremos capazes de prever o imprevisível.
Acreditar que as
pessoas são como nós bem-intencionadas, é também absolutamente normal porque até prova em contrário todos somos confiáveis, dignos do crédito e do respeito
de quem conosco convive ou priva.
Desde o berço fui assim
moldado e todos os dias da minha vida dou graças por isso. A minha árvore
genealógica é humilde de pergaminhos mas abastada de princípios e valores, dos
mais básicos e simples de manter, aos mais elevados e difíceis de conservar.
Aprendi pelo
permanente exemplo desses meus queridos mestres que a bondade, a honestidade, a
educação e o respeito de uns para com os outos são invioláveis, porque cada um
deles encerra em si a multiplicação de todos os outros.
E juntos promovem a
dignidade humana que é devida e merece cada um de nós.
Infelizmente ao
longo do meu já extenso caminho fui conhecendo de tudo um pouco. Do melhor e do
pior. Do melhor foi, felizmente, a parte maior. Do pior, apesar de ter sido a
menor parte, foi infelizmente aquela que me mostrou a cor mais negra da alma
humana.
Não vou, porque não
sou de lamechices, mencionar seja o que for. Está tudo arrumado no sótão da
minha memória e disso só deixei alguns marcadores para quando necessito
reaprender a superar a dor quando voltam a acontecer.
Claro que voltam e
continuam a repetir-se. Mais do que deveriam com novos e cada vez mais letrados
protagonistas. Mas a sua cor, amargor e a deceção que causam são iguais, ou
ainda mais acentuadas.
Os diplomas catedráticos
não conseguem cultivar mentes que já nasceram perversas.
E não há como evitá-lo,
porque nem é possível mudar a maneira de ser de cada pessoa, nem a tal bondade,
educação e respeito invioláveis conseguem reproduzir-se no coração de quem
nasce torto e tarde ou nunca se endireita.
Não é também, de
todo, defeito das sementes.
É mesmo a aridez dessas
almas que não as deixa nascer e muito menos reproduzir. Apesar de ter disso
consciência, nunca deixarei de lutar por um mundo melhor e mais justo.
Não são muito
vastas as minhas capacidades, mas são verdadeiras.
Iguais às daqueles
a quem as agradeço.
José Coelho
Foto Maria Coelho
