Nascer do sol na Beirã
Há dores que não fazem barulho.
Não vêm com gritos nem escândalos.
Vêm com o virar de costas.
Com aquele olhar que já não te vê - depois de tudo o que fizeste.
É a dor da ingratidão.
E, em Portugal, conhecemo-la bem.
No vizinho a quem emprestámos o ombro.
No familiar que desaparece quando deixamos de dar.
Naquele a quem demos tudo - e hoje passa por nós como se fôssemos nada.
Há mães que se deitam com o coração cansado,
pais que aguentam o mundo às costas,
avós que se desfizeram pelos netos
- e ouvem, sem aviso, o corte seco:
"Eu não te pedi nada."
Como quem diz: "A tua bondade é um exagero inconveniente."
É no trabalho, na política, na rua.
Até dentro da Igreja.
Onde às vezes o serviço cansa, e o silêncio dos outros pesa mais que mil críticas.
Onde o bem feito é tomado por garantido.
E quem mais dá, mais é esquecido.
Mas Jesus sabia-o.
Sabia o gosto amargo da ingratidão.
Dos dez que curou, só um voltou.
E mesmo assim, continuou a amar.
Sem troco. Sem esperar palmas.
Porque o amor verdadeiro não se mede em aplausos - mede-se em entrega.
Mas atenção:
Ser bom não é ser tolo.
Ser cristão não é ser tapete.
Há quem confunda caridade com submissão.
Há quem só apareça quando precisa.
E desapareça quando já não há mais para dar.
Por isso, ama. Mas com discernimento.
Dá. Mas sem te perder.
Sê generoso, mas não te deixes explorar.
Porque a verdadeira recompensa não vem dos que ajudaste -
vem d’Aquele que viu tudo no silêncio.
E Ele… não esquece.
Portugal precisa de mais coração.
Mas também de mais consciência.
Mais mãos abertas, sim - mas menos almas cansadas por dar demais… a quem nunca soube receber.
Padre João Tavares
Foto José Coelho
