sábado, 19 de julho de 2025

Do alto do meu reino


Venho muitas vezes a este lugar no ponto mais elevado da aldeia e meu bairro para rever a paisagem encantadora que conheço desde que comecei a caminhar pelo meu pé. Bem sei que sou suspeito ao gabá-la porque nasci debaixo de um dos telhados mais próximos desta varanda natural de onde foi batida a foto e considero ser o miradouro panorâmico mais deslumbrante da aldeia.

Quando nasci quase todas as casas destas ruas "do lado de cá da linha" já cá estavam. Talvez com aspeto mais humilde, caiadas apenas com cal branca da Escusa em vez das atuais pinturas com tinta industrial e com os alisares destacados a ocre amarelo, azul ou cinzento. As portas e janelas feitas à mão por carpinteiros em vez das atuais em alumínio.
O lavadouro público era também a céu aberto todo rodeado pelas enormes lajes dos canchos sobre as quais as lavadeiras estendiam as roupas a corar ao sol, mas que, entretanto, foram sendo cobertos pelo progresso que calcetou os acessos e criou os atuais muretes em socalco com os modernos estendais em betão armado.
A maior diferença no entanto é que naquele tempo as lavadeiras se acotovelavam para conseguirem um lugar onde coubessem no tanque para lavarem as enormes alguidaradas de roupa que traziam à cabeça, enquanto hoje se contam pelos dedos de uma só mão as lavadeiras que durante a semana inteira dele fazem uso. E não é só pela concorrência feroz das máquinas de lavar. É muito pior que isso.
É, infelizmente, porque já não vai havendo quem precise de lavar, pois as casas sucedem-se aos pares, às três e quatro seguidas sem morar já lá alguém. O que resta de alguma vida e bulício nesta terra e mesmo assim não muito, é "na parte de baixo da linha" entre o novo bairro da entrada principal da aldeia e a unidade de cuidados continuados nascida da transformação em hospital do antigo prédio/moradia dos funcionários da alfândega.
Quem passa a linha férrea para o lado de cá onde eu (ainda) moro, depara-se com... quase ninguém. Meia dúzia de casas habitadas em cada rua e ruas haverá que nem isso. Sossego. Ausência de quase tudo. Portas e janelas fechadas e mudas. É verdade que, por enquanto, não ainda são visíveis sinais de desleixo ou abandono, muito pelo contrário, com exceção da Rua Vivas onde alguns telhados já começaram a desabar, mas ninguém parece importar-se muito com isso.
É certo que não mora ninguém na sua maior parte e muitas delas são só casas de veraneio ou de férias dos seus donos, mas é certo também que todos cuidam primorosamente delas e dá gosto vê-las assim arranjadinhas apesar de vazias quase todo o ano.
Jamais na minha vida imaginei que iria assistir a isto. Imaginei isso sim, sonhei durante a maior parte da minha vida envelhecer e morrer neste lugar mas a ouvir o bulício normal de gaiatos a correrem e a brincarem pelas ruas ou no recreio da escola aqui tão próxima, a cumprimentar os vizinhos de quem fomos sempre quase família, a ouvir o apito dos comboios desde que assomavam ao alto da Atalaia vindos da Torre das Vargens, ou dos barreirões da Herdade dos Pombais quando vinham de Valência.
Já perdi a maior parte dos meus entes queridos. Avós, pai e mãe, uma irmã, tios maternos e paternos. Mas essa é a lei natural da vida e embora doa, eu consigo entendê-la. Todos nós, quando vimos ao mundo, temos como herança irrevogável num futuro próximo ou longínquo a certeza de que um dia iremos deixar de lhe pertencer. Só ninguém sabe quando, onde ou como. Por isso, embora me tenha causado sofrimento cada uma dessas perdas, acabei por aceitá-las como naturais e previsíveis. Porém, por mais voltas que dê ao miolo, não consigo aceitar este fim estranho da minha aldeia, deste meu mundo onde nasci, cresci, moro ainda e fui tão, mas tão feliz.
Quando nasci, a aldeia era bem mais pequenina e modesta, mas muito viva e dinâmica. E ao mesmo tempo que eu, também ela foi crescendo, evoluindo e modernizando-se. Era um pequeno mundo onde um punhado de gente vivia em paz e minimamente feliz, uma comunidade heterogénea composta por funcionários do estado, agentes da autoridade, ferroviários, despachantes e muitos trabalhadores do campo que, apesar da especificidade de cada função, conviviam todos em pacífica harmonia.
Aqui existia de tudo um pouco. Artes e ofícios, comércio, serviços e coletividades. De tal modo assim era que "nuestros hermanos" vinham diariamente nos comboios de ida e volta entre Valência de Alcântara e a Beirã ou vice-versa, fazer as suas compras e dinamizar ainda mais quer o comércio local, quer também o intercâmbio cultural entre os dois povos irmãos.
Muitas famílias se formaram por estas bandas com nubentes dos dois lados da fronteira. Por exemplo a minha sogra – ti Chica Loucena como era conhecida – nasceu em S. Pedro de Alcântara na Extremadura espanhola, enquanto o meu sogro – ti Antero Servo – era dos Barretos da freguesia da Beirã - Portugal.
A família do meu avô materno continua a ser na sua maior parte, toda espanhola até aos dias de hoje. Uma das minhas cunhadas e irmã da minha mulher cresceu, casou e vive em Espanha onde já há muitos anos se naturalizou. E como nós, dezenas de famílias. Por isso quase todos os Beiranenses falam e entendem o castelhano, assim como em Valência e nos "pueblos" das redondezas falam e entendem o português.
Foi sempre um mundo muito nosso e pacífico apesar de todos os condicionalismos de cada época. Curiosamente até os Guardas Fiscais e os contrabandistas conviviam paredes meias porque um não existiria sem o outro.
Entretanto, no sossego que tomou conta dos meus dias, venho de quando em vez sentar-me aqui para encher a alma da paisagem que me é tão querida e da qual nunca me canso, cada vez mais com a convicção de estar próximo aquele em que deixarei de poder vir.
E passo horas a pensar, a recordar, a deixar-me invadir pela nostalgia que com ela me traz de volta muito do que vivi neste sagrado chão que o "progresso" da integração europeia foi desertificando para sempre, não me resta qualquer dúvida, apesar da lufada de "pessoas de fora" que vêm agora cá passar as suas férias ou fins de semana nas nóveis casas de acolhimento para turistas.
Até que um dia deixem de estar na moda...