Porque nasci no seio da humildade e pobreza,
habituei-me desde pequeno a não dar grande importância ao dinheiro e a ser
feliz com o que havia. A minha mãe, coitada, nunca programava a ementa do
almoço do dia seguinte, sendo sua única certeza o pouco que teria por onde
escolher. O mais certo com certeza ia ser uma sopa com produtos da imensa e farta horta que o tio António Coelho tinha
na Broca de meias com o tio João Forte, mais um bocadinho de pão com “qualquer
coisa” que muitas vezes se resumia a uma omelete, um punhado de azeitonas, ou umas
talhadas de toucinho frito, porque os enchidos tinham de guardar-se para o avio
das merendas do dia seguinte.
Muita gente deve achar que é mentira que se pudesse ser feliz assim. Mas éramos, sim. Felizes, mesmo. Na nossa casa a única coisa que havia em abundância era a alegria e a boa disposição de manhã à noite. A minha mãe cantarolava facilmente, fosse a migar as nabiças do jantar, fosse a lavar a roupa da família toda no tanque público, ou mesmo quando se sentava ao sol no quintal a remendar algum trapo mais surrado pelo uso.
Um rádio Grundig a pilhas fazia as delícias dos nossos serões com aquele programa diário de discos pedidos na Rádio Badajoz cujas músicas no acordeon da Maria Albertina ou outra “remexida” qualquer davam imediatamente azo a sessões de baile na nossa cozinha, alegres e despreocupados como nunca mais soubemos ser, apesar de a vida de todos nós ter evoluído para melhor.
Ou, pelo menos, é isso que nós pensamos. Só não sei muito bem, não tenho hoje assim tanta certeza se "ist’agora" é realmente melhor do que era "d’antes"...
Já velhinha e completamente invisual, muitas vezes ouvi a tia Florinda trautear ainda as modas dela comodamente sentadinha no seu sofá na sala. E quando ouvia alguma música sua conhecida na televisão logo os seus pézitos começavam a bater ritmadamente no chão ao compasso dos acordes. E eu ficava em silêncio, deliciado, a observá-la. Coisas tão simples que quase passavam despercebidas na altura mas que a saudade vai buscar hoje para me dizer que sim, que apesar de ter sido toda a vida pobre, que apesar de "o Senhor lhe ter levado os seus olhos" como ela dizia, ainda assim, a minha mãe foi uma criatura feliz.
Acho que herdei algum desse estado de espírito dela e estou-lhe muito grato por isso. Sou completamente desapegado do dinheiro e de outros bens materiais que para muita gente que conheço são quase imprescindíveis. Visto qualquer trapinho desde que goste sem me preocupar minimamente se é de marca ou da moda. Tanto sou capaz de comprar numa tenda de roupa do mercado como numa loja chique, desde que aquilo que quero se encontre numa ou noutra. Não troco um jantar em casa com a família por um no restaurante e aprecio muito mais umas migas de batata com sardinhas fritas do que uma mariscada. Em resumo, nasci no meio da simplicidade, sempre fui feliz no meio dela e é assim que gosto de viver.
A vida é já tão complicada e imprevisível, para que havemos de a complicar ainda mais dificultando o que pode ser tão fácil?
Na espuma agora suave dos meus dias ocupo as horas pelo quintal onde pacificamente vou prestando atenção a um casal de pintassilgos que namora num ramo do limoeiro porque muito provavelmente já têm algures num galho discreto o ninho com a sua nova prole. Todos os anos o fazem, umas vezes na nossa latada, outras nas roseiras, ou mesmo nas forcas mais altas das oliveiras.
E sob o cair da noite um ralo canta que se desunha. Ah valente! Assim mesmo é que é. Canta, amigo, canta, porque tal como os humanos tens uma vida breve. Só que eles fazem de conta que não sabem isso. Vive tua vidinha assim, um dia de cada vez, sem te “ralares” muito!
As rolas devem já ter também os seus borrachos quase criados nos sobreiros do quintal do vizinho ao lado do nosso e vêm frequentemente pousar no meio das hortaliças à cata de alguma larva. E aproveitam a viagem para de caminho se dessedentarem na água fresca do balde que coloco todos os dias ao lado do forno de lenha para a passarada beber sempre que lhes apetecer.
Decididamente a vida por aqui é assim de simples e pacata com a paz a rodear-nos por todos os lados. Basta olhar e ficar atentos a tudo, que não é pouco...
José Coelho
Foto Maria Coelho
