segunda-feira, 28 de julho de 2025

Carta para a minha Mãe


Mãe…

Quantos anos terias se aqui estivesses ainda connosco? É irrelevante porque o meu coração continua a lembrar-se da tua força, da tua bondade e coragem, mas sobretudo do teu riso fácil apesar da dureza que foi quase toda a tua vida.
É assim que vou lembrar-te sempre.
A ti devo quase tudo o que sei exceto o ler e escrever, porque tu não podias ensinar-me aquilo que também não sabias fazer. Mas na humildade do teu analfabetismo eras melhor professora do que muita gente licenciada que conheço. Os “livros” de onde nos ensinavas, eram os exemplos diários e permanentes que nos transmitias, repletos de inexcedível conteúdo.
Dona e senhora de inúmeras virtudes, o asseio e a arrumação eram a tua característica mais forte. Foste sempre de um brio excecional como dona de casa, como esposa, como mãe, como avó. Trabalhaste continuamente durante toda a tua vida ajudando tudo e todos.
E foste, inequivocamente, o pilar fundamental da nossa família.
Eras também promotora e praticante da mais absoluta honradez e seriedade. Mereceste sempre por tudo isso, a amizade o respeito e o carinho de toda a gente que te conhecia e ainda hoje te recorda e elogia.
Todos os dias me lembro de ti, Mãe. Sinto tanto a tua falta. A minha vida nunca mais foi a mesma desde o dia 28 de julho de 2014. Não por ter sido surpresa porque era um fim anunciado há tempo suficiente para já estarmos preparados.
Mas não foi bem assim.
Percebi nesse dia que nunca estamos nem nunca estaremos preparados para perder quem nos trouxe ao mundo.
E se de verdade me doeu muito a partida do meu pai e teu companheiro de toda a tua vida, porque me doeu terrivelmente sim, mais verdade é que a tua partida me doeu infinitamente mais. Ele também perdeu a sua mãe e minha avó Adelina, por isso sei que, onde quer que esteja, o tio António Coelho me entende.
Se antes ia regularmente ao cemitério, agora que devia ir mais, vou menos. Acho que nunca vou conseguir fazer o luto de ti por completo e voltei sempre demasiado perturbado as poucas vezes que lá fui. E tu sabes que eu não sou de pieguices.
Mas fui sempre muito agarrado a ti, Mãe.
E tu a mim também.
Amávamo-nos sinceramente um ao outro. O momento mais angustiante da minha vida aconteceu poucas horas depois de teres partido. A família tinha ido não sei onde, fazer não sei o quê, e ficámos só os dois, eu à tua cabeceira, embora a sala mortuária estivesse apinhada de gente vizinha e amiga que queria estar ali a acompanhar-te.
Subitamente o pranto profundo e incontível brotou finalmente da minha alma meio estupidificada desde as três da tarde quando deste o teu derradeiro suspiro a segurares a minha mão. Acho que só naquele momento dei finalmente conta que te tinha perdido para sempre. E desatei a chorar perdido naquela dor inexplicável durante tanto tempo sem conseguir e sem querer conseguir conter-me. Só me lembro de a vizinha de toda a nossa vida Joaquina Brites se ter levantado da sua cadeira para me vir confortar dizendo-me baixinho “pronto, pronto, não chores já mais Zé Manel, a tua mãe deixou de sofrer e está agora em paz”.
Foi tão duro, Mãe.
Cá em casa o teu quarto mantém-se como quando tu o habitavas. E os “santinhos” e demais “coisinhas” que foram tuas continuam na cómoda do quarto algumas, outras na estante do meu escritório a fazerem-me companhia.
É, acho eu, uma forma singela de te sentir ainda próxima de mim.
Um dia vou conseguir diluir um pouco mais este sentimento de perda. Será talvez apenas uma questão de tempo. Mas ainda não consegui. Até um dia, Mãe. Voltaremos a estar juntos, mas dessa vez vai ser para sempre...
(Foto do dia do teu 85º aniversário)