quinta-feira, 31 de julho de 2025

Uma dor que não é física


O dia a terminar, visto da minha casa, é um quadro digno de ser reproduzido numa tela por qualquer pintor. Todos os dias, seja verão ou inverno. No tempo quente o sol começa por deixar o vale onde fica a Estação do Caminho de Ferro e mais além o ribeiro da Cavalinha. Depois vai banhando de ouro a Murta, os cumes graníticos da Anta e da Cavalinha de Cima, para se despedir um pouco mais acima na zona da Meirinha.

Quando desaparece completamente no horizonte, logo se acerca o cinzento-escuro do anoitecer vindo da Herdade dos Pombais, onde parece viver escondido.
No inverno dá-se precisamente o inverso. Os cumes que agora se despedem do dia dourados pelo sol poente, coroam-se a partir do outono com uma neblina cinzenta e húmida produzida pelo frio do anoitecer que vai lentamente descendo pela paisagem até ao vale, transmitindo-lhe um certo ar de mistério.
Só falta mesmo vislumbrar-se no meio dela El'Rei D. Sebastião.
Esta região raiana pedregosa e inóspita pouco mudou com o passar dos séculos ou até mesmo dos milénios, conforme testemunham os inúmeros vestígios arqueológicos existentes por toda a parte, é sem dúvida o meu paraíso na terra.
Aqui encontrei sempre a paz e a tranquilidade necessárias ao meu equilíbrio físico e emocional, por maiores que fossem os desassossegos.
Trago hoje no peito uma dor que não é física mas que incomoda tanto ou mais do que aquelas que passam com um analgésico. É a dor de ver a minha amada terra já sem quase ninguém.
Tudo aquilo que fez parte da minha vida até aos sessenta anos está a desaparecer em passo acelerado. E sei que é irreversível. Há dias comentei até com a minha companheira:
- Já nem chocalhos de gado por aqui se vão ouvindo Maria!
Aposto que se os nossos antepassados cá voltassem não iam gostar de ver o lugar onde viveram e foram felizes, votado assim ao abandono. Não vem longe o tempo em que as ruas e quintais irão ser invadidos pelo mato e silvas e as casas transformar-se em ruínas como é já a linda Herdade do Pereiro, o Ramal de Cáceres e muitos caminhos de acesso às propriedades.
Estes pequenos povoados da raia irão juntar-se aos vestígios arqueológicos milenares para serem parte do seu conjunto. Como é possível que em apenas quatro ou cinco décadas se tenha desfeito um mundo que se construiu ao longo de séculos?
A História o dirá e julgará. Ou talvez não, porque não vai haver quem, como eu, a escreva.
(Texto e foto)