Desde que me conheço sigo e procuro cumprir os bons preceitos e comportamentos que me foram ensinados. Incansavelmente. Por isso me sinto também no direito de não aceitar e contestar aquilo que não consigo perceber. Há muito que me esforço por compreender as respostas e sinais de tudo o que me rodeia. Mas também a ausência deles. Poderia descrever um cento dessas manifestações na primeira pessoa, só que provavelmente vós não as iríeis entender como eu as entendi e iríeis entender outra coisa qualquer ditada pelo vosso raciocínio. O que para mim, à luz das minhas crenças, pode ter sido um sinal, para vós pode ser visto apenas como mera coincidência ou casualidade.
E
há que respeitar todas as opiniões.
Sei,
tenho consciência plena que sou a mais imperfeita das criaturas. Mas sei também
com toda a certeza que dentro das minhas humanas limitações e inúmeras
imperfeições sempre tentei – e acho que tenho conseguido – pautar cada dia da
minha vida pelo caminho do bem, da honestidade, da lisura de carácter, do não
fazer a ninguém aquilo que não quero que me façam a mim.
Daí
que me desiluda e fique revoltado algumas vezes quando vejo ou sou alvo de
injustiças, faltas de honestidade, de carácter, de sujos e
inexplicáveis esquemas que têm como objetivo único prejudicar, denegrir,
enxovalhar ou tirar proveitos indevidos. E é nessas ocasiões que não percebo e me questiono zangado:
-
Porquê?
-
Se eu não o faço essas merdas a ninguém, porque m'as fazem a mim?
É
verdade que frequentemente todos somos postos à prova e temos de ter a
capacidade de aceitar, mesmo o que nos fere e magoa. Porém, uma coisa é termos
que irremediavelmente aceitar o que vem, outra coisa muito diferente é sermos
capazes de o entender.
E
as perguntas surgem do nosso íntimo em catadupa:
-
Porque há tantas coisas ruins neste mundo que diz a Bíblia, Deus criou?
Doenças incuráveis, guerras, atentados, refugiados, fome, sofrimento humano
indescritível onde os mais atingidos são sempre os mais indefesos, mulheres, velhos e crianças inocentes?
-
Porque há milhões de ricos a nadar em abundância num absoluto contraste com
outros tantos milhões de infelizes que nada têm nem sequer para comer?
-
Porque existe corrupção, cobardia, oportunismo, deslealdade e ganância
humana?
-
Porque...
-
Porque...
Sofro
com o declínio irreversível da minha terra e percebo tarde demais que tomei a
decisão mais errada da minha vida ao voltar para cá. Muitos conterrâneos tiveram de ir-se
embora porque tal como eu precisaram procurar outros destinos em busca do
sustento para si e para os seus. Mas naturalmente por lá foram ficando e não
mais voltaram. Deixaram por cá os seus idosos, mas à medida que eles se foram
finando as casas foram ficando desabitadas. Nem sequer a interesseira
"moda" de agora se transformarem algumas delas em Alojamentos Locais,
versus "mini-hotéis" turísticos que a pandemia Covid 19 impulsionou,
irá trazer o desenvolvimento que definitivamente se evaporou.
As
pragas ruins são por norma irreversíveis. Por isso não há cura científica para esta
variante de cancro que dá por nome "desertificação" e se propaga por
toda a Freguesia da Beirã, prossegue por todo o Concelho de Marvão e Distrito
de Portalegre, continua depois pelo Alto e Baixo Alentejo para se juntar a todo o
interior de Portugal desde Bragança a Vila Real de Santo António, perante a indiferença negligente de quem governa e só se preocupa com o bem-estar dos habitantes das
grandes metrópoles eleitorais onde se conseguem os muitos votos que dão acesso aos dourados “tachos”
e mordomias do poder.
Cancro.
Disse
bem.
Maligno.
Incurável
como o que levou o querido Amigo e Pároco Luís Ribeiro, uma perda tão
inesperada para mim que passados alguns anos ainda não consegui digeri-la. Com
ele se foi também a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo que desde então tem
vindo lentamente a caminhar para a extinção.
Vivo
hoje um dia de cada vez sem acreditar em nada já, sem esperar também muito mais
do que aquilo que me rodeia e entristece. Até a vigorosa fé que sempre foi a
minha principal fonte de força vou perdendo aos poucos.
Porque
não há volta a dar vou também desistindo, perdendo o alento e deixando cair os
braços. Sem apelo nem agravo.
José Coelho
(Texto e foto)
