quinta-feira, 24 de julho de 2025

Porque não há volta a dar

A Estação da Beirã em visível declínio de conservação a 23 de julho 2025

Desde que me conheço sigo e procuro cumprir os bons preceitos e comportamentos que me foram ensinados. Incansavelmente. Por isso me sinto também no direito de não aceitar e contestar aquilo que não consigo perceber. Há muito que me esforço por compreender as respostas e sinais de tudo o que me rodeia. Mas também a ausência deles. Poderia descrever um cento dessas manifestações na primeira pessoa, só que provavelmente vós não as iríeis entender como eu as entendi e iríeis entender outra coisa qualquer ditada pelo vosso raciocínio. O que para mim, à luz das minhas crenças, pode ter sido um sinal, para vós pode ser visto apenas como mera coincidência ou casualidade. 

E há que respeitar todas as opiniões.

Sei, tenho consciência plena que sou a mais imperfeita das criaturas. Mas sei também com toda a certeza que dentro das minhas humanas limitações e inúmeras imperfeições sempre tentei – e acho que tenho conseguido – pautar cada dia da minha vida pelo caminho do bem, da honestidade, da lisura de carácter, do não fazer a ninguém aquilo que não quero que me façam a mim.

Daí que me desiluda e fique revoltado algumas vezes quando vejo ou sou alvo de injustiças, faltas de honestidade, de carácter, de sujos e inexplicáveis esquemas que têm como objetivo único prejudicar, denegrir, enxovalhar ou tirar proveitos indevidos. E é nessas ocasiões que não percebo e me questiono zangado:   

- Porquê? 

- Se eu não o faço essas merdas a ninguém, porque m'as fazem a mim? 

É verdade que frequentemente todos somos postos à prova e temos de ter a capacidade de aceitar, mesmo o que nos fere e magoa. Porém, uma coisa é termos que irremediavelmente aceitar o que vem, outra coisa muito diferente é sermos capazes de o entender.

E as perguntas surgem do nosso íntimo em catadupa:

- Porque há tantas coisas ruins neste mundo que diz a Bíblia, Deus criou? Doenças incuráveis, guerras, atentados, refugiados, fome, sofrimento humano indescritível onde os mais atingidos são sempre os mais indefesos, mulheres, velhos e crianças inocentes?

- Porque há milhões de ricos a nadar em abundância num absoluto contraste com outros tantos milhões de infelizes que nada têm nem sequer para comer?

- Porque existe corrupção, cobardia, oportunismo, deslealdade e ganância humana?

- Porque... 

- Porque... 

Sofro com o declínio irreversível da minha terra e percebo tarde demais que tomei a decisão mais errada da minha vida ao voltar para cá. Muitos conterrâneos tiveram de ir-se embora porque tal como eu precisaram procurar outros destinos em busca do sustento para si e para os seus. Mas naturalmente por lá foram ficando e não mais voltaram. Deixaram por cá os seus idosos, mas à medida que eles se foram finando as casas foram ficando desabitadas. Nem sequer a interesseira "moda" de agora se transformarem algumas delas em Alojamentos Locais, versus "mini-hotéis" turísticos que a pandemia Covid 19 impulsionou, irá trazer o desenvolvimento que definitivamente se evaporou.  

As pragas ruins são por norma irreversíveis. Por isso não há cura científica para esta variante de cancro que dá por nome "desertificação" e se propaga por toda a Freguesia da Beirã, prossegue por todo o Concelho de Marvão e Distrito de Portalegre, continua depois pelo Alto e Baixo Alentejo para se juntar a todo o interior de Portugal desde Bragança a Vila Real de Santo António, perante a indiferença negligente de quem governa e só se preocupa com o bem-estar dos habitantes das grandes metrópoles eleitorais onde se conseguem os muitos votos que dão acesso aos dourados “tachos” e mordomias do poder.

Cancro.

Disse bem.

Maligno.

Incurável como o que levou o querido Amigo e Pároco Luís Ribeiro, uma perda tão inesperada para mim que passados alguns anos ainda não consegui digeri-la. Com ele se foi também a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo que desde então tem vindo lentamente a caminhar para a extinção.

Vivo hoje um dia de cada vez sem acreditar em nada já, sem esperar também muito mais do que aquilo que me rodeia e entristece. Até a vigorosa fé que sempre foi a minha principal fonte de força vou perdendo aos poucos.

Porque não há volta a dar vou também desistindo, perdendo o alento e deixando cair os braços. Sem apelo nem agravo.

José Coelho  

(Texto e foto)