terça-feira, 3 de julho de 2018

De consciência (muito) tranquila...

Foto  batida pelo camarada Silva Pereira 


Tudo o que semeares, colherás.
Por isso, marca a tua passagem, deixa algo de ti, do teu minuto, da tua hora, do teu dia, da tua vida.
Mário Quintana

Excertos...

Uma foto com o Rex no caminho do Monte Velho, batida pelo camarada Silva Pereira

(...) 

... hoje quero contar-vos uma divertida história do nosso Rex. Era um cãozarrão enorme, todo preto e com um pelo brilhante como verniz, nascido de um cruzamento do cão labrador pisteiro do destacamento da GNR de Almada com a cadela pastor alemão do então comandante daquela sub-unidade, capitão Ochôa, posteriormente colocado em Nisa onde eu prestava também serviço.

A Lay, assim se chamava a cadela mãe do Rex, vinha prenha e deu à luz, algum tempo depois, uma bela ninhada de belos cachorros. Eram todos da raça da mãe pastor alemão à excepção do Rex que nasceu assim todo preto como uma amora madura, da raça do pai. Enquanto os outros cachorros espetavam as orelhas, o Rex, como todos os labradores, tinha-as caídas. Por isso ninguém o quis, apesar de, para mim, ser o mais bonito.

Como a mais ninguém interessou fiquei eu com ele para o oferecer ao Pedro que tinha na altura 9 anitos (e porque o Manel já tinha a gata siamesa Princesa que lhe tinham oferecido no seu aniversário) o qual não só ficou encantado com o novo amigo, como lhe dedicou uma amizade sem paralelo e digna de se ver. De tal modo que, ainda hoje, mais de duas décadas depois de já não estar connosco, o Rex é recordado com frequência como aquele velho e querido amigo que deixou muitas saudades.

Mimado e bem tratado como o são sempre todos os animais na nossa casa, fez-se um gigante, o cachorro. Enorme, dócil e lindo. E valente. Nada lhe metia medo. Corria para o mato todo arrufado assim que sentia qualquer mexida, fosse um saca-rabos, uma raposa, ou mesmo uma corpulenta vaca ou um boi. Ali não havia hesitações! Às vezes arreliava-me bastante com ele porque desatava a correr desatinado atrás da bicharada e tanto fazia chamar por ele como estar calado. Muitas vezes o perdi de vista e tive que depois andar de cancho em cancho já zangado à sua procura, até que lá me aparecia o gajo com um palmo de língua de fora, todo esbaforido da correria!

Mas um dia…

Tínhamos vindo morar definitivamente para a nossa casa na Beirã. Todas as tardes, assim que eu chegava de Portalegre, soltava-o e saíamos os dois a dar grandes passeios por aí, subindo canchos e desbravando matagais até às barreiras do rio Sever, coisa que o cão não só adorava como também necessitava para desentorpecer, dar umas valentes corridas e fazer o exercício indispensável ao seu bem-estar físico.

Foi numa dessas tardes que eu me ri até às lágrimas com o que aconteceu. Caminhávamos os dois pela “carreteira” da tapada dos Carvalhos de Roque quando o Rex pressentiu algo a mexer por entre as giestas.

E nem pensou duas vezes. Atirou-se de cabeça para meio do mato num ladrar furioso capaz de comer o que quer que fosse que tivesse provocado aquela agitação, para o/a poder afugentar e perseguir, como tanto o regalava. Porém, se muito depressa o perdi de vista, mais depressa o vi voltar pelo mesmo caminho, aflito e a ganir apavorado à frente de uma furibunda mãe-javali que, aos sopros e grunhidos, o perseguia sem medo. Atrás dela vinha uma dúzia de bácoros-javalis recentemente paridos, motivo pelo qual, com certeza, a zelosa mãe-marrã não achara piada nenhuma à evidente ameaça que aquele cãozarrão representava para os seus bébés. E sem hesitar um segundo, contra-atacou.

E o Rex, ó abre... Fujam da frente que vem aí gente! Patas para que vos quero!

Nunca tinha visto nada assim.

A marrã-javali quando encarou comigo, tacitamente recuou. Deu meia volta com os bácoros e desapareceu de novo no mato. Mas o Rex, de rabo entre as pernas, o tal matulão atiradiço e destemido, naquela tarde não mais se atreveu a descolar o focinho dos meus calcanhares enquanto durou o resto do passeio. 

(...)
                                                           Do Livro Histórias do Cota

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Seja bem-vindo, obrigado pela sua visita...

Auto-retrato by José Coelho - Julho'18

E já lá vão 60 anos...

Foto by José Coelho

Tinha 6 anos quando o Revº Padre Joaquim Caetano me indigitou seu sacristão. Estávamos por isso em 1958. Exatamente há 60 anos. É muito tempo. Muito mesmo. Não tenho por que explicar-me, não devo satisfações a ninguém, mas também não tenho por que esconder a profunda devoção, amor e carinho que tenho pela Senhora do Carmo. Como não haveria de ter? É uma vida inteira a ver, cá de baixo, o terno olhar com que nos abençoa lá do cimo do seu altar por detrás do sacrário onde habita permanentemente o seu bem-amado Filho, não O que tem no colo, mas Aquele que se fez presente em cada Eucaristia e é depois guardado sob a forma de hóstia consagrada naquele digno tabernáculo.

Presunção e água benta cada um toma a que quer. Eu não tenho qualquer presunção mas sou devoto. Não aquele beato de andar sempre a bater com a mão no peito mas apenas devoto convicto e sério. Sou assim porque assim fui ensinado. E não só aprendi como interiorizei todos esses ensinamentos. Descobri, no dia a dia da minha já longa vida, de Deus "fala" connosco muitas vezes e de muitas formas. Dei-me conta disso sem qualquer hipótese de dúvida e senti-me sempre um privilegiado por n'Ele crer sinceramente. Poderia enumerar e explicar alguns desses factos concretos mas não o faço porque entendo não ter que convencer ninguém, seja daquilo que for.

Mas eu comecei por escrever que já lá vão 60 anos. Não estive sempre presente. Tive que crescer, ir à guerra, casar, cumprir enfim, todo o meu percurso de homem e profissional. Nos intervalos, sempre que podia, ia passando por cá. A Senhora do Carmo, essa, foi comigo aonde quer que eu fui, porque mora na carteira que trago sempre comigo, em forma de estampa (santinha) que inclusivamente já tive que mandar plastificar porque estava a desfazer-se com a idade. Foi comigo à guerra, às Minas, à GNR e continua ali na bolsinha da carteira que faz de Sua casa há muitas décadas. Foi a minha força, a minha ajuda, a minha proteção. 

Sempre. Inquestionavelmente, sempre!

Voltei incólume da guerra, conquistei todos os meus objectivos de vida, alcancei todas as metas que me propus alcançar. Entretanto fui naturalmente envelhecendo. E a vida que me levou foi a mesma que me trouxe de volta. Definitivamente, julgo eu, mas não posso ter a certeza, porque, muitas vezes, quando pensamos ter todas as respostas, vem a malvada e muda todas as perguntas. De qualquer modo, os meus planos foram sempre de voltar para cá definitivamente. Veremos. Entretanto já cá levo 25 anos consecutivos. Estes, já ninguém me tira. 25 anos de regresso à Senhora do Carmo também. Nunca mais dela me afastei. E tento merecer todas as bençãos que sempre me concedeu.

São por isso 25 anos a colaborar com os párocos. Primeiro com o Revº Emílio, depois o Revº Tarcísio, depois o Revº Luís Ribeiro, agora o Revº Marcelino e às vezes também o Revº João Rosa. As assembleias é que vão sendo cada vez menos numerosas. A Beirã está a ficar sem gente. No coro que tanto empenho me cativa, chegámos a ser mais de 20. Restamos 3 ou 4. De vez em quando, 5 ou 6. Não sei uma nota musical. Não conheço um fá, um ré ou um mi, só sei repetir o que aprendo de ouvido. Depois tento ensinar. E costuma sair bem. Não somos artistas e também a Eucaristia não é um espectáculo, por isso o único que importa é dignificar as celebrações e torná-las mais místicas.

É nisso que me empenho. E é APENAS por isso que dou o melhor de mim. Quase sempre conseguimos que cada celebração seja vivida com muita dignidade e interiorizada por quem nelas participa. Hoje estive toda a tarde no computador a preparar a Eucaristia da Padroeira que será de hoje a 15 dias. Com devoção, empenho, e muito carinho. Vamos uma vez mais honrar a nossa Mãe Senhora do Carmo. Já vou sendo velho e já me faltam às vezes o ânimo e a vontade de continuar porque sinto que já não estamos a conseguir. O futuro a Deus pertence e há que aceitar o que temos, assim como estas cada vez maiores limitações por falta de quorum.

Para 2018 está feito. Falta ensaiar, preparar, ajustar. Vai correr bem. E para o ano logo se verá. 

Haja Deus...

Cântico de Entrada que escolhi para a Eucaristia da Padroeira 2018...


Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...