terça-feira, 5 de agosto de 2025

D@ minh@ escritor@ f@vorit@


 

O Cheiro do Café

O cheiro do café tem algo de mágico. Ele acorda a casa, antes mesmo que os olhos se abram. Espalha-se pelos quartos como um anúncio silencioso de que o dia começou. É aroma de aconchego, de lembrança, de rotina com afeto. Há quem diga que o café só é bom mesmo quente e forte — mas, para muitos, o verdadeiro prazer está no cheiro que vem antes do primeiro gole.

Esse cheiro tem memória. Lembra manhãs na casa da avó, a chaleira apitando no fogão e o coador de pano pendurado como se fosse parte da decoração. Lembra conversas de domingo, tardes de chuva, pausas no trabalho, reencontros e despedidas. Lembra silêncio e companhia. É como se cada pessoa tivesse o seu próprio café, guardado na memória — com um aroma que não se esquece.

O cheiro do café tem o poder de confortar e de recomeçar. É convite e promessa. Promessa de que o dia pode ser melhor, de que há tempo para um respiro e de que entre um gole e outro, há espaço para viver.

Helena Sacadura Cabral

Foto José Coelho

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Já não se usa


Nasci e cresci na década de 50 do Séc. XX, uma época extremamente complicada do Pós II Guerra Mundial e Guerra Civil da Espanha onde residiu e continua a residir ainda a maior parte da minha família materna. As consequências inevitáveis quer de um, quer do outro conflito, estendiam-se por toda a Europa e na Península Ibérica a pobreza quase extrema assolava a maior parte das populações que sobreviviam como podiam de parcas jornas e do que a terra dava.

Não havia pedacinho de chão que não fosse aproveitado para semear, plantar e colher o que se punha na mesa o ano inteiro, porque cada família tinha de auto sustentar-se com o que colhia das hortas e com as aves de capoeira que eram a principal fonte de carne e ovos. Os mais afortunados conseguiam ainda engordar um porco para os enchidos das merendas e quem não conseguia tinha de os comprar semanalmente nas mercearias das aldeias, muitas vezes fiados.
Nasci, cresci e fui educado por essa categoria de gente que não sabia ler nem escrever, mas trabalhadora, íntegra e completa até à medula, nos seus valores. Família, vizinhos e amigos. Desde que me lembro de ser gente e até há bem poucos anos atrás, nunca as portas da casa dos meus pais se fechavam à chave. De dia ou de noite, quer a porta de entrada, quer a porta do quintal. Havia total confiança nos vizinhos e em toda a aldeia. E ao contrário dos tempos que correm, quando alguém batia à porta era-lhe prontamente respondido de dentro da casa:
- Entre, quem é!
Parece um conto de fadas, não parece? Mas não foi. É a descrição da mais pura e absoluta verdade. Eu só escrevo aquilo que vivi ou vi acontecer. Talvez um pouco poetizado sim, mas absolutamente autêntico.
Nasci, cresci e fui educado por essa excecional categoria de pessoas que nos ensinavam desde o berço de forma espontânea os seus valores e princípios que por nós eram naturalmente aprendidos. Obviamente, tal como existe terra fértil onde se reproduz e multiplica a boa semente, também existe outra terra mais débil onde ela cai mas não consegue enraizar-se, reproduzir-se e multiplicar-se, ainda que a sementeira tenha sido a mesma.
Por isso na História da Humanidade sempre houve, há e continuará a haver, pessoas que sendo da mesma geração ou até da mesma família, têm comportamentos completamente opostos.
Assim se cumpre inevitavelmente o princípio da diversidade.
Porquê esta prosa?
Estou de luto há já três anos porque fiquei inesperadamente e de forma absurda sem a minha primeira ama, aquela que muitas vezes cuidou de mim, a minha irmã mais velha. Não escrevo “a minha preferida” porque não há irmãos preferidos, há irmãos, ponto. No meu caso três irmãs. A primogénita Adelina dos Santos que Deus prematura e injustamente chamou, a seguir vim eu quatro anos depois, a Maria da Luz seis anos depois de mim e por fim a caçula Joaquina Maria que se apresentou à família quando já eu tinha dez.
Sinto-me ainda de luto três anos depois porque somos sangue do mesmo sangue e porque é impossível ficar indiferente a tão inesperadas perdas. É a minha história de vida a extinguir-se aos poucos, são as minhas raízes a perderem-se inevitavelmente, são mais histórias de dias felizes que vou ter de arquivar na memória já tão cheia, mas que só desaparecerão para sempre no dia em que eu for ter com todos os que já lá estão.
E, atualmente, não sei se é comum se cómodo, dizer-se, como eu ouço por aí:
- Ah e tal, o luto já não se usa!
Homessa! Não se usa? Mas no Amor Fraterno também se aceitam modas e tendências? Que raio se passa na cabeça e no coração das pessoas para banalizarem assim aquilo que temos de mais sagrado e autêntico na vida? Jamais alinharei por essas modas cruéis e rejeito absolutamente tais tendências.
Banalizar a perda dos nossos entes queridos, de quem nos deu a vida e criou, nos ensinou a sermos gente e por nós fez sabe Deus quantos sacrifícios ou se privou de quantas coisas para que não nos faltasse nada, tratar a perda de mãe ou pai, avó ou avô, irmã ou irmão, como se fossem meros desconhecidos, não é para mim, de todo, compreensível.
Não me interessa minimamente o que cada um faz, mas fico profundamente surpreendido quando vejo pessoas sem luto nenhum no funeral dos pais, ou netos/as aperaltados/as com coloridas vestes como se fossem para um pub conviver com amigos ou para um desfile de moda na mais absoluta indiferença pelo respeito que é devido aos que partem e eles tanto mereceram toda a sua vida.
Não se usa? Uma ova!
Moda? Qual quê!
Comodismo, indiferença, desrespeito, desamor.
Quem assim age não se identifica de modo nenhum, comigo. Se calhar – com todo o respeito e carinho que sinto também pelos animais – se fosse algum gato ou cão de companhia que se finasse por velhice, não faltariam fotos com sofridas declarações de dor e luto dos seus desgostosos donos em todas as redes socias, também tão em moda agora.
Esta inversão de valores e princípios que inundam a sociedade é surpreendente, aflitiva, confrangedora. E a pandemia Covid19 veio dar-lhe uma achega quando as autoridades sanitárias decretaram o fim dos funerais com a presença de familiares e amigos. Que jeitão essas regras vieram dar a quem já não queria saber dos pais, avós ou irmãos idosos, quando eles ainda estavam vivos! Desde então acabou-se praticamente com os velórios e todos os defuntos passaram a ser tratados por igual, infetados ou não.
Decididamente vivemos tempos sumamente estranhos quando vemos todos os dias fotos com laços negros em sinal de luto pelo animalzinho de companhia que morreu, mas nem uma roupinha cinza-escuro se veste, quando morrem pais, irmãos ou avós.
Porque já não se usa...

domingo, 3 de agosto de 2025

Bendições raras, difíceis de encontrar

Foto José Coelho - 02. 08. 2025

"Benditos sejam os que chegam à nossa vida em silêncio e com passos leves para não acordarem as nossas dores, não despertarem os nossos fantasmas, não ressuscitarem os nossos medos. Benditos, os que se dirigem a nós com leveza e gentileza, falando o idioma da paz, para não assustar a nossa alma. Benditos sejam, os que tocam o nosso coração com carinho, nos olham com respeito e nos aceitam inteiros, com todos os nossos erros e imperfeições".

Pe Ricardo Esteves (Excerto) 

sábado, 2 de agosto de 2025

Domingo e Família combinam tão bem


Em tempos ainda não muito distantes a grande mesa da nossa sala de jantar ficava tão cheia de gente que as suas oito cadeiras nunca eram suficientes e tínhamos de acrescentar os lugares para o dobro, às vezes mais.

E como era salutar esse convívio.

Ainda assim, mesmo sendo já muito menos os comensais, um domingo sem alguma família cá em casa nem parece domingo. Tento, a todo o custo, não deixar extinguir a tradição que herdei do Senhor meu Pai de tão grata memória, a quem nada dava mais felicidade e alegria do que ter à sua volta a família, ainda que as suas posses fossem modestas e a comida não fosse muito diferente do que era nos outros dias da semana.

Muito mais importante do que qualquer iguaria que se colocasse nos pratos era mesmo estarmos juntos. Tudo o resto com toda a certeza estava sempre bom e era mais do que o suficiente.
Foi nessa escola de valores e tão benéfica simplicidade que aprendi a dar mais apreço ao amor fraterno do que a qualquer outro bem material.
Foi também em razão desse implícito exemplo paterno que formei no meu espírito a certeza da importância vital que a união familiar pode ter na moldagem do carácter dos filhos e netos, assim como na transmissão aos mesmos desses fundamentais valores e princípios.
Porque naturalmente quem aprende a amar e a respeitar os seus, aprende também sem dificuldade a amar e a respeitar os outros.
Tenho plena consciência que é uma batalha em vias de extinção, senão já praticamente extinta, porque no atual conceito da vida em sociedade e para conseguirem fazer face às inúmeras despesas do dia-a-dia, os pais têm de trabalhar os dois.
E isso veio alterar por completo os velhos preceitos da vivência familiar.
As crianças que antes eram criadas apenas na intimidade e conforto do seio familiar pelos pais com a preciosa ajuda dos avós, são atualmente entregues aos cuidados de instituições públicas que têm pessoal devidamente qualificado para as acolher e delas cuidar desde muito tenra idade, mas, a meu ver, pouco ou nada têm de comum com o ancestral colinho dos pais e avós.
Inevitavelmente os mesmos motivos que levam à separação prematura dos filhos pelos pais, estendem-se depois aos avós que não podem já também contar com qualquer apoio dos filhos no limiar das suas vidas e irão terminar os seus dias em instituições - infelizmente nem sempre qualificadas - que deles tratam, mas são também completamente diferentes do normal ambiente familiar.
É o que temos, há que aceitá-lo, concordemos ou não.
Ainda assim e enquanto puder, tentarei manter o que aprendi a esse respeito e tanto me enriqueceu com incontáveis momentos de felicidade, rodeado quase sempre por todos aqueles que incondicionalmente amei mas já partiram, que amo porque ainda os tenho e vou continuar a amar até ao último dia da minha vida.
Tenham, se puderem um excelente domingo.

Texto e foto

Não é fácil envelhecer


Temos de nos acostumar a caminhar mais devagar, a dizer adeus a quem éramos e aceitar quem nos tornámos.
É difícil contar mais um aniversário, termos de aceitar o nosso rosto enrugado e o nosso velho corpo sem vergonhas, sem preconceitos, sem medo do que os anos nos dão.
Deixar que aconteça o que tiver de acontecer, deixar ir quem queira ir embora e aceitar quem prefira ficar.
Não, não é fácil envelhecer
Temos de aprender a não esperar nada de ninguém, a caminhar e a desenrascar sozinhos e a não nos desconsertarmos com a imagem cada vez mais feia que espelho nos devolve todas as manhãs.
Aceitar sem dramas que tudo acaba e a vida também, saber dizer adeus a quem quis embora, lembrar aqueles que já se foram e chorar até ficar secos por dentro, para que novos sorrisos cresçam.

Faz-me o vento companhia


É um amigo que nunca vi mas de quem gosto, pese embora às vezes seja mais agreste do que a conta. Há quem ache o seu uivo sinistro quando vem zangado, mas a mim nunca meteu medo. Nos serões à lareira ouvi-lo rugir no côncavo chapéu de telhas da chaminé da nossa cozinha era para mim a glória bendita, porque, indiferente à fúria com que ele embatia nas tijoleiras lá em cima, o lume de lenha crepitava sossegadamente cá em baixo na pedra da lareira sem oscilar minimamente, oferecendo calor e conforto a toda a família em seu redor.

E em vez de sentirmos medo, o estrondo da invernia lá fora fazia com que nos sentíssemos ali abrigados e em segurança. Hoje, a muitas décadas de distância, rodeado de conforto e de mordomias que à época não existiam, sinto infinitas saudades de coisas tão simples como aqueles serões de inverno ao lume onde a minha mãe preparava a ceia depois do seu dia de trabalho no campo.
À medida que fui adquirindo novos conhecimentos, fui também, em simultâneo, aprendendo a lidar com o meu invisível amigo, de modo a não me deixar vencer por ele.
Coisas tão básicas e simples como acender um lume ao relento para me aquecer nos dias mais agrestes sem ter de gastar a “caixa dos palitos” inteira. E acender também o lume no pico do verão no meio do restolho das searas para cozinharmos o almoço sem deitar fogo à tapada toda, era outra aventura repleta de truques e cuidados.
Apesar de os camponeses cozinharem permanentemente as suas refeições em lume de chão fosse onde fosse, ou em que época do ano fosse, os cuidados eram tão eficientes que nunca havia os fogos assassinos de pessoas e do ambiente, como há agora.
A vida revelou-me segredos que o meu invisível amigo até hoje ainda não descobriu. Por exemplo, como é ele capaz de levar quase tudo à sua frente quando se zanga, excepto os cones em giesta das coberturas das aparentemente frágeis sóchas em que os habitantes desta região viveram, até há poucas décadas atrás.
Ah pois!
Destelha sólidos telhados, arranca coberturas inteiras de armazéns, barracas e barracões, mas uma frágil sócha de giestas bem feita, ainda nunca conseguiu “destapar”.
Tem de as deixar de pé exatamente como as encontra, seja qual for a força que traga com ele. Aquela forma cónica das suas coberturas não permite que ele lhes pegue ou as derrube, porque não encontra frinchas ou fraquezas por onde possa entrar ou pegar.
Limita-se por isso a seguir o seu caminho depois de inutilmente se enrolar em redor do hirto cone vegetal tão sabiamente inventado pelos nossos ancestrais para enfrentar a sua impetuosidade e resistir-lhe.
Tive a sorte e o privilégio de os meus avós e tios maternos serem quase todos guardadores de rebanhos. E todos eles viviam parte do ano em sóchas e sôchos onde eu dormia quando os ia visitar.
Já agora e porque muita gente não saberá qual a diferença entre ambos, explicarei que a sócha é uma construção circular fixa com vários diâmetros de raio, contruída sobre uma sólida parede feita de pedra seca – sem cimento ou qualquer outra argamassa – com mais ou menos metro e meio de altura e uma porta de madeira. Sobre essa parede é montada em cone uma armação de paus compridos direitos e pouco grossos, afastados entre si vinte ou trinta centímetros e solidamente amarrados uns aos outros com arames desde a base até ao bico da estrutura.
A seguir essa estrutura é meticulosamente coberta por várias camadas sobrepostas de giestas verdes, as quais, à medida que vão secando se vão transformando numa compacta e impermeável cobertura.
Quentes no inverno e frescas no verão, de um dos lados do círculo interior ficava normalmente a zona de estar e comer, ao centro e bem por baixo do topo do cone um quadrado no chão feito de lajes para o lume, enquanto do outro lado do círculo interior ficava a zona de dormir quase sempre sobre tarimbas de madeira forradas com restolho macio, por baixo das quais se guardavam roupas e víveres.
Todo o espaço interior era sabiamente aproveitado como se pode deduzir.
Capaz de afrontar também qualquer temporal o sôcho era o primo-irmão da sócha, embora muito mais pequeno e desmontável para se poder mudar de sítio sempre que isso se tornava necessário. Todo feito em giesta ou palha de centeio dispostos também em camadas sobre uma armação côncava de varas verdes de vime (ou outra madeira flexível) previamente entrelaçadas e fixadas, era composto por quatro peças amovíveis.
O lado côncavo direito, o lado côncavo esquerdo, o centro posterior em semi-arco para unir os dois lados côncavos direito e esquerdo, e, finalmente, o centro frontal amovível que fechava o espaço e simultaneamente fazia de porta para utilização diária.
Era montado num cabeço das cercanias do bardo onde o gado pernoitava durante grande parte do ano. Cada vez que o rebanho mudava de um para o outro extremo da herdade, o sôcho era desmontado para voltar a ser montado no novo local de pernoita do pastor e do gado.
Mas voltemos ao meu invisível amigo que já vai longa a prosa!
Em dias menos bons da minha vida e foram muitos, o sussurro das folhas nos ramos das árvores que ele suavemente balança quando vem calmo, ajudou-me tantas vezes a sossegar inquietações.
E há lá coisa mais repousante do que deitar-se uma pessoa sobre a erva dos campos a observar as brancas nuvens de algodão no seu deslizar pelo céu azul?
É, seguramente, o meu mais velho e fiel companheiro.
Sempre nos respeitámos um ao outro. Se me parece que vem muito zangado, não o afronto. Viro-lhe as costas, abrigo-me e deixo-o passar. Se pelo contrário vem manso em forma de brisa, gosto de o sentir no rosto e de ouvir aquele suave e melodioso murmúrio que nele parece transportar o timbre da voz das pessoas queridas que há muito deixei de ouvir...
Texto e foto

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Bom fim de semana


Algumas vezes ficamos em silêncio. Mas não é por falta de haver o que falar. É por haver dias em que não encontramos palavras que expliquem o que se passa na nossa mente e no nosso coração.

Foto José Coelho
01. 08. 2025