segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Malabarismos eleitorais ou uma mão cheia de nada...

Belize - Angola - 1973


Foi bandeira de Paulo Portas em tempo de eleições já lá vai tempo. "Coitados dos combatentes da guerra nas ex-colónias" e mais blá-blá-blá-blá porque éramos ainda um bom punhado de votos à época. Foi por isso pensa(pari)da uma compensação que pomposamente batizaram com o título de Acréscimo Vitalício de Pensão, extensivo a todos os ex-combatentes ou suas viúvas.
E como todos rejubilaram!
- Finalmente lá houve alguém que se lembrou dos desgraçados que foram mandados para aqueles cus de judas a comerem o pão que o diabo amassou em defesa da então, Pátria.
E vá de palmadinhas nas costas do candidato e pai do menino. Obrigado, obrigado. Assim é que é! E foi. E o que seria de todos nós, ex-combatentes, se não fosse o dito-cujo acréscimo a engrossar as nossas pensões. Eu por mim falo e cada um fale por si.
Incorporado em 1-5-71 no BC8 de Elvas, já com 10 meses de tarimba e especialista em transmissões fui mobilizado para Angola onde cheguei em 7-3-72 com destino ao Belize, no coração da floresta do Maiombe, Enclave de Cabinda, num período agudo do conflito armado que vitimou alguns camaradas meus.
Por lá permaneci 2 anos, 3 meses e 7 dias. Porém, como a Zona de Acção do Batalhão de Cavalaria 3871 era considerada 100% zona de guerra, o tempo de comissão foi bonificado também em 100%, o que me deu, para todos os efeitos legais, um total de 5 anos, 5 meses e 19 dias de tempo de serviço, somados também os 10 meses e alguns dias antes da mobilização.
É o que consta na minha folha de registos. Felizmente, ao contrário dos camaradas que lá perderam a vida, regressei a casa em Junho de 1974. Tive sorte. Mas muito do Zé que para lá foi, por lá ficou para sempre. E o mesmo sucedeu com todos os que comigo partilharam tantos meses de incerteza. Mas voltemos ao pomposo Acréscimo Vitalício de Pensão. De acordo com as decisões do governo eleito na altura, foram então atribuídos os respectivos montantes.
O embaraço de quem decidiu o valor a atribuir deve ter sido tão grande que, de mensal, como em princípio prometeram, passou a anual e a ser atribuído de uma só vez na sua totalidade, junto com a pensão de reforma do mês de Outubro. E de quanto é esse acréscimo? Uma brutidade! Que faríamos nós sem ele? A mim calharam-me… 7,79 € mensais. SETE EUROS E SETENTA E NOVE CÊNTIMOS por mês.
Então, para não parecer tão ridículo, vem todo junto em Outubro o que soma a já menos embaraçosa quantia de 109,08 €. Mas, há mais mas… Com o acréscimo desses 109,08 €, o escalão de descontos para o IRS nesse mês, passa dos normais 20,9%, para 22,4% e a incidirem sobre o montante total da pensão e não apenas na porcaria dos 109,08 €, o que origina um aumento nos descontos de mais 53 €.
Com um bocadinho de jeito, ainda me dava era prejuízo.
Contas feitas, recebo por ano 56,08 € líquidos de Acréscimo Vitalício de Pensão, o que, dividido pelas 14 mensalidades, dá, em números redondos, 4 € por mês.
Num país onde um político pode somar 10 000 € mensais de várias pensões a que tem direito, o que não discuto mas sublinho, onde um político com mais de três mandatos consecutivos - 12 anos como deputado - adquire direito a uma subvenção vitalícia na ordem dos milhares de euros que irá duplicar o seu valor mensal a partir do dia em que o beneficiário completar 60 anos, onde ainda alguns membros do governo moram em Lisboa mas mesmo assim recebem subsídios de alojamento além de outros subsídios para tudo e mais alguma coisa, isto é, sinceramente, gozar com o pagode.
- Toma lá sete euros por mês de AVP mas dá para cá três e meio para o IRS.
Ora f****se…
Só gostava de saber se os senhores governantes também descontam assim para o IRS, metade dos subsidiozorros que recebem, conforme eu os tenho de descontar do meu subsidiozinho. Pela parte que me toca, e repito que só por mim falo, bem podiam, em genuíno vernáculo alentejano, meter no cu a porra do Acréscimo Vitalício de Pensão.
Disse.
José Coelho
- 17Out’22

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Fim de tarde raiano

Foto José Coelho - 11.10.2022

 

Meus poetas favoritos

Foto José Coelho

Outono.
(A palavra é cansada...)
Tudo a cair de sono,
Como se a vida fosse assim, parada!
Nem o verde inquieto duma folha!
O próprio sol, sem força e sem altura,
Olha
Dum céu sem luz e levedura.
Fria,
A cor sem nome duma vinha morta
Vem carregada de melancolia
Bater-me à porta.

Miguel Torga

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Santa (?) tapona!

O António. Não temos fotos dos tempos de crianças



E foi assim:

Embora só tenha três irmãs tive também um quase-irmão. É ele o principal protagonista desta história que hoje trago à baila! Foi meu primo em segundo grau e afilhado dos meus pais. Por isso mesmo se chamava António como o padrinho. Filho mais novo da irmã mais nova da minha avó Amélia, a tia Joaquina Brito, que era mãe solteira de dois rapazes. Do Manuel, o mais velho, já homem feito naquele tempo e ainda hoje vivo e com saúde nos seus mais de 80 anos, assim como também do António, dois anos apenas mais velho do que eu e que infelizmente faleceu em finais dos anos 70 vítima de um trágico acidente de viação com apenas 27 anos.

Além de trabalhar no campo para angariar o sustento para si e para os filhos, a tia Joaquina “Carroleta” sua mãe, era também contrabandista, como eram muitas outras mulheres por estas bandas naquele tempo. E foi numa fria madrugada a carregar com o bebé António ao colo e várias dúzias de ovos numa cesta à cabeça que foi apanhada pelos carabineiros espanhóis. Detida na mesma hora, foi conduzida à cadeia de Valência de Alcântara de onde transitou para a de Cáceres e lá ficou presa várias semanas por tão "gravíssimo" crime.

Entretanto por a cela ser bastante húmida e fria o pequenito contraiu tosse convulsa. Sem as mínimas condições para o tratarem "en la cárcel" e sem tencionarem libertar a aflita mãe, conseguiram, contudo, que ele fosse entregue aos cuidados da madrinha, a qual, naquela genuína generosidade que sempre a caracterizou, logo se prontificou para ficar com o petiz para o tratar e cuidar dele, ao mesmo tempo que cuidava de mim, bebé também nessa altura. Provavelmente por isso, o António eu e a minha mãe gostávamos muito uns dos outros e isso acabou por nos unir aos três numa profunda e fraterna amizade.

Como não havia um pai presente em sua casa e a vida era muito complicada nesse tempo, o António não tinha brinquedos, como aliás eu também tinha poucos, apesar de ter o meu pai presente, assim como a maior parte das crianças de então, principalmente os filhos dos camponeses pobres como nós. Porém, nesse ano pelo Natal, o padre Caetano arranjou, não me lembro já muito bem como nem de onde, alguns brinquedos para serem distribuídos pelas crianças mais necessitadas que frequentavam a catequese. O António nunca lá punha os pés por ser um miúdo um pouco rebelde, por a catequista lhe não ser simpática, talvez também por ser um rapazote mais crescido e com pretensões a sentir-se já dono do seu nariz.

Consequência direta: o António não teve direito a receber nada, apesar de ainda andar na escola. Sucedeu, no entanto, que depois de todos os brinquedos distribuídos sobraram ainda alguns. E entre eles, uma pequena bola de borracha pouco maior que uma laranja que o António cobiçava e lhe fazia até brilhar os olhos. Primos e amigos inseparáveis como sempre fomos, aproveitei o acesso privilegiado que tinha a tudo em redor do pároco por ser o seu sacristão, peguei na bola sem dar cavaco a ninguém e ofereci-lha de presente, na ingénua esperança que ninguém fosse dar pela falta.

Feliz da vida, em vez de esconder a irregular “oferta”, o sacana exibiu o troféu a toda a gente numa atitude bacoca de desafio como que a dizer “não me deram nada mas já cá canta um brinquedo” originando que a notícia chegasse num ápice aos atentos ouvidos do padre a quem não deve ter sido difícil somar um mais um, para chegar à conclusão lógica de como a bola fora parar às mãos daquele indomável rebeldezito que nunca punha os cotos na catequese nem tinha pai que o obrigasse a ir, mas queria ter as regalias dos outros que nunca faltavam.

Poucos dias depois, lá fui eu “chamado a capítulo”:

- Coelhinho, chega aqui – ordenou o sacerdote com um ar muito carrancudo.

E perguntou a olhar-me nos olhos:

- Onde está aquela bola verde que estava aqui?

Não havia volta a dar!

Numa secreta esperança de a confissão do delito reverter em meu benefício, respondi amedrontado:

- Dei-a ao meu primo António, sr padre!

- E com ordem de quem? Voltou ele a inquirir…

- De nin-ninguém se-senhor pa-padre…

- Fo-foi porque ele na-não te-teve nenhum bri-brinquedo no Natal - tentei justificar apavorado com o semicerrar de olhos do furibundo padre.

- Záááásss… 

Uma estrepidosa e dolorosa bofetada na minha face com aquela mãozorra pesada toda aberta!

- Isto é para aprenderes a não ser atrevido – vociferou o padre.


Até vi candeias a bailarem diante dos olhos, tal foi o estaladão.

Enxuto, com a cara em fogo, papei-a e calei-me, não fosse o diabo tecê-las, pois se a mãe Florinda soubesse, ia de certeza acrescentar mais algumas! 

Ai ia, ia...

O padre "malhou-me" mas o que fiz foi com boa intenção - pensei.

Que se lixasse!

O António ganhou a bola dele! Olá se ganhou. Já ninguém lha tirou e ficou mesmo com ela.

Porra! Podia era ter calado o bico, não?

Amigo, primo-quase-irmão, quantas lembranças e saudades! Onde quer que estejas, sabes com certeza que se fosse hoje, eu voltaria a fazer exatamente o mesmo.

Porque tu merecias.

Mais tapona, menos tapona, que se lixasse outra vez! Dada pelo padre, até deve ter sido santa!

E… 

Olha lá: 

-Aqui só para nós, aquilo não foi roubar, pois não?


José Coelho - Histórias do Cota

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Coisas qu'escrevi

 Por do sol por detrás do Monte da Broca
Foto José Coelho

Desassossego

Saio, é tardinha, vou caminhando e vejo,
coberto de silvas e giestas, o montado
e a brisa morna do meu Norte Alentejo,
traz no seu ventre um leve balir de gado.

Subo a um cerro e sento-me no seu cume,
rodeado de paisagem e imponência,
estala o restolho como lenha a arder no lume,
e à minha volta só o abandono é evidência.

Eu inda cá moro, mas muitos já se foram,
Beirã amada esculpida no cancho agreste,
lembrada és sempre por quantos te adoram,
estranho feitiço que em nós sempre exerceste.

Espreita ao longe, de Castela a serrania,
por fundas margens serpenteia o Sever,
rumando à raia envelhece a férrea via,
progresso d'ontem que hoje deixou de ser.

Se o ribombar deste silêncio dói no ouvido,
o abandono e a solidão esmagam o peito,
o piar do velho mocho parece mais um gemido
e até o rouxinol, do seu trinar mudou o jeito.

Fontes secaram com os estios e maus cuidados,
matagais encheram as hortas, pomares e olivais,
e os alcatruzes das noras, jazendo enferrujados
miram-nos tristes por já não regarem mais.

Que progresso foi este que matou,
tudo o que na minha terra era vida?
Pouco nos trouxe, pouco nos fez, mas deixou,
o silêncio, o abandono e tanta ilusão destruída.

José Coelho – Outubro 2016