quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Metade... (do Oswaldo mas também de mim)

Foto by Pedro Coelho


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca; 
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que triste;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada 
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta 
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso 
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria 
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada 
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

Oswaldo Montenegro

Amigos...

O Joaquim Eusébio e a Marie Andrée em nossa casa
Foto José Coelho - 04 Setembro'18

Não é de modo nenhum vulgar. Não é mesmo já quase possível, nos tempos que correm, conservar intacta uma amizade assim, durante mais de 60 anos. Há felizmente  excepções. Raras mas reais. E nós somos a prova disso. O Joaquim Eusébio e eu somos amigos desde os distantes tempos da nossa escola primária nos idos de 50, teria eu 5/6 anos e ele 6/7. Se naquele tempo a diferença de idades não se notava nada, hoje nota-se menos ainda. Seguimos, naturalmente, percursos de vida diferentes, mas o companheirismo que teve como alicerce as austeras aulas da senhora professora Clarisse Quezada, manteve-se intocado através do muito tempo e da ainda maior distância.

O Joaquim alcançou, por seu elevado mérito, o estatuto de professor e doutor, sem nunca, contudo, abdicar da sua louvável simplicidade, do seu distinto modo de estar na vida. Continuou - e continua a ser - o mesmo amigo discreto, apesar de culto e famoso. Na parte que a mim diz respeito alcancei também o que pude, embora com pouco mais habilitações do que aquelas que tinha quando éramos miúdos. E continuamos, passadas mais de seis décadas, a ser os amigos leais que já éramos naquele tempo. Mudámos de fisionomia porque a idade não perdoa mas não mudámos a forma de estar nem de sentir, continuando ambos a defender aqueles valores e princípios que nos foram transmitidos por quem nos educou.

Ausente de Portugal por vicissitudes da vida que o obrigaram a optar por isso, vive, há muitos anos, noutro continente. Mas nunca esqueceu a "nossa" Beirã, muito particularmente o "seu" Carneireiro, um pequeno paraíso tranquilo nos arredores da aldeia e também, para além de mim, alguns outros velhos amigos e amigas que o fazemos regressar 2 ou 3 vezes por ano, sozinho, como veio na primavera, ou com a sua Marie Andrée, como sucedeu agora. Juntámo-nos primeiro em sua casa e depois na minha em fraterno convívio, a celebrar a amizade. À moda antiga, em família, conversando, rindo, petiscando.

Embora longe, as novas tecnologias globais de comunicação permitem que nos vejamos e conversemos em directo, de vez em quando, para pormos os nossos assuntos em dia. Mas não há nada como estarmos próximos e em amena cavaqueira a reviver tempos passados que de repente parecem ter sido ontem, tal é a nitidez com que acodem à nossa memória, por exemplo, aquela vez que eu, com apenas 5 anos, fui protagonista de uma peça de teatro infantil e tive que vestir umas roupas do Joaquim Eusébio que a mãe dele cedeu à minha, a título de empréstimo, para aquela ocasião. Tantas vezes ouvi a minha mãe recordar e falar nisso.

As boas recordações são ainda maiores que o tamanho da nossa amizade. Esta manhã, a meio da rega das nabiças que são a minha primeira sementeira da horta de outono/inverno no quintal, fui chamado a despedir-me do Joaquim e da Marie. Estavam de partida. E não foram sem se despedir. Obrigado aos dois. Façam muito boa viagem, levem convosco o nosso carinho e amizade, voltem em breve, ou, melhor dizendo, voltem logo que vos seja possível. Somos muito gratos pela vossa simpatia, consideração e amizade. 

Au revoir...

sábado, 8 de setembro de 2018

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Coisas qu'escrevi...

Foto by Maria Coelho

"... No silêncio que tomou conta dos meus dias venho amiúde sentar-me aqui, ao cimo da minha aldeia, para, cada vez mais, encher a alma desta paisagem que me é tão querida e da qual nunca me canso, quiçá com a imperceptível certeza do dia - que há-de sem dúvida chegar - em que não voltarei a vê-la. E fico assim, horas a fio a pensar, a recordar, a deixar-me invadir pelas lembranças que me trazem de volta muito daquilo que vivi neste para mim sagrado chão..."

José Coelho in "Do alto do meu reino"

Tenho tanto sentimento...

Foto by José Coelho

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental.
Mas reconheço ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada.
E, a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada

Qual porém é a verdadeira
E qual a errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa
In Cancioneiro

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Meu vício de ler...



Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.

José Luís Peixoto, in 'Morreste-me'

domingo, 2 de setembro de 2018

Boa semana...

Auto-retrato 01-09-2018

Na convivência, o tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa é o que ficou desse minuto, dessa hora, dessa vida. Lembra que o que importa é que tudo o que semeares, colherás. Por isso, marca a tua passagem. Deixa algo de ti, do teu minuto, da tua hora, do teu dia, da tua vida...


Mário Quintana

Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...