sábado, 1 de setembro de 2018

Setembro'18...

Foto by José Coelho

O sol que queimou a face da terra
E secou de água ribeiros e fontes
Vai dando lugar na encosta da serra
 Às folhas caindo e formando montes


O ar abafado incómodo e quente
Ficará mais fresco, o dia pequeno
Setembro que leva o calor ardente
 Em troca nos traz o sol mais ameno


Setembro é silêncio, é melancolia
Castanhos d'outono, sossego, lembrança
Com pios dos mochos ao findar o dia
É tempo do tempo fazer a mudança


Setembro é o mês cujas madrugadas
Trazem a maresia ao sol da manhã
E deixa as ervas de gotas orladas
 P'los campos bonitos da minha Beirã


Na roda que roda veloz como vento
A vida foi breve e tudo levou
Deixando lembrança de cada momento
Na roda do tempo (só) Setembro voltou


Beirã, Setembro de 2005 
José Manuel Lourenço Coelho
(Modificado em Setembro'18)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Meu vício de ler...

Imagem copiada do Google


Pedrógão, uma vergonha coletiva


Há um estranho desconforto que se apodera de nós perante os crescentes pormenores de irregularidades no processo de reconstrução de Pedrógão Grande. Podemos apontar o dedo e alegar que felizmente nunca seríamos aquilo, mas nas trapalhadas e denúncias a que vimos assistindo está um pouco do país espelhado.

Poderes e serviços que deviam ser garante do cumprimento da lei e da boa gestão dos bens públicos encolhem os ombros e tentam minimizar as falhas cometidas. Pessoas que abusaram da sua condição de vítimas justificam-se com os erros dos outros e elaboram desculpas para transformar o puro oportunismo num direito. Contratações e subcontratações feitas sem transparência resultam em obras sem qualidade e sem sentido das prioridades. À distância, uma sociedade inicialmente solidária e presente demarca-se, generaliza os abusos e admite desconfiar de tudo.

A tragédia de Pedrógão Grande foi única na dimensão dos estragos e na exposição da vulnerabilidade do interior. Mas foi igualmente única na enorme mobilização de apoios, nas demonstrações de solidariedade, na quantidade de instituições e respostas no terreno. Se, por uma vez, fomos obrigados a olhar para as nossas maiores fragilidades de país desequilibrado, exigia-se que com isso tivéssemos aprendido alguma coisa. E que a tragédia de Pedrógão se transformasse em oportunidade - dolorosa, sempre, mas ainda assim uma oportunidade.

O que vemos, pelo contrário, é uma tragédia transformada em vergonha. Uma vergonha apenas possível porque ao longo dos anos fomos normalizando comportamentos abusivos nos poderes políticos, nos serviços públicos e na intolerável tendência para procurar ou condescender os "favorzinhos". Que ninguém desvie o olhar de Pedrógão. Do que foi e do que é urgente conseguirmos ser.


Inês Cardoso in JN 27.08.18

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Saudades...

Foto by Pedro Coelho

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Seis dias (e seis noites) de vigília forçada...

Imagem copiada do Google

Foi a primeira dor de dentes da minha vida. Sem ser de grandes pieguices, vi-me e desejei-me com a dita cuja. Latente, insuportável, chata, persistente. Não imaginava que fosse tão violenta. Duas visitas ao dentista e três raios x depois, foi diagnosticada infecção. Mas só passados seis dias a insistente e aguda dorzinha cedeu às bombas de antibiótico e me deixou descansar um pouco.

Uffff...

Vamos ver o que se segue. Para mim o melhor remédio é... Sol na raiz! Oxalá o dr Sousa Martins seja da mesma opinião daqui a uns dias. Já sabem agora o que me tem mantido afastado do meu vício. Todo o tempo foi pouco para cirandar da sala para a cozinha e da cozinha para a sala estes dias. Só quem já passou por elas saberá do que falo.

Vai lá, vai ...

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Bodas de prata dourada...

Em 4 de Agosto'18 no batizado das netinhas de um bom amigo

Cumprem-se hoje os 42 anos de matrimónio da Maria Manuela com o Zé Manel Coelho. Nem tudo foram rosas, nem tudo foram espinhos, como (provavelmente) todos os outros matrimónios de muito longa duração.  Mas, apesar de tudo, chegámos, pelo menos, de 14 de Agosto de 1976 a 14 de Agosto de 2018.

Os primeiros 25 foram, quase na íntegra, vividos em função dos filhos. Foi fácil perceber que o Manel e o Pedro tinham a máxima prioridade e que por eles era preciso caminhar e lutar juntos.  Valeu a pena. Oh se valeu. Só que eles, mal tinham deixado as fraldas, já eram adultos.

O tempo, esse malvado que às vezes parece tão lento, mostrou-nos o quanto é fugaz e passageiro. Os nossos meninos em menos de um ai já eram homens e foram-se embora porque constituíram a sua própria família, deixando-nos sozinhos. É a lei da vida, na sua mais perfeita normalidade.

Estamos a começar a envelhecer. E a ficar rabugentos. Os dois. Dizem, às minhas escondidas, que eu sou muito mais. Mas quem o diz deve ter também espelho em casa julgo eu. Ainda assim assumo que sou chatinho e que qualquer casca de alho serve para resmungar.

Feitios. Cada um tem o seu. No entanto, não tenho nada de meu. Preocupo-me. Com quase tudo e seguramente muito mais com os outros do que comigo mesmo. Sempre assim foi. Da mesma forma que também sempre senti que não são muitas as pessoas que se preocupam por mim. Pois.

Hoje celebra-se o nosso 42º aniversário matrimonial. Pela primeira vez a noiva a 235 km do noivo para cuidar de uma das netas porque a escolinha fechou para férias mas os papás estão ambos ainda a trabalhar. E é para isso que existem as avós. A pequenita esteve cá três semanas conosco. Agora foi a avó que teve que ir com ela por uns breves dias, até os papás ficarem também de férias.

E o Noivo, Pai, Avô, ficou em casa a cuidar da propriedade mas não só. É, sem dúvida e por muito justa causa, um aniversário diferente, mas nem por isso menos importante. Parabéns a nós dois, Noiva, Mãe, Avó, Maria Manuela...

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Coisas que escrevi e vou repetir...

Foto by José Coelho

É o por do sol - já o disse inúmeras vezes - o meu momento de eleição de cada dia. Fico enlevado no encanto destas paisagens que me viram nascer e que considero únicas e irrepetíveis. Estranhamente, a natureza parece que pára por completo nos momentos que antecedem cada despedida do astro-rei. E isso acontece todos os dias. Todos. São só uns breves minutos mas é deveras surpreendente. Hoje, a minha companheira, sentada ao meu lado na varanda da nossa casa, comentou:

- Que sossego! Nem os passarinhos se ouvem!

- É verdade! Respondi-lhe. E continuei:

- Até aquele cão ali de baixo que parece estar sempre zangado com o mundo inteiro, se calou! 

- Que estranho, não?  Perguntou, antes de se remeter também ao silêncio.

A luz do sol tomara entretanto um brilho amarelo pálido rodeado de matizes laranja e azul. Os canchos e o montado lá ao longe pareciam iluminados por uma luz artificial semelhante à dos holofotes que iluminam à noite as muralhas de Marvão e que lentamente se foi extinguindo até desaparecer por completo. No momento seguinte, a barra cinzento-escura da noite começou a aproximar-se suavemente e a cobrir de sombras os mesmos calhaus e montado que minutos antes estavam iluminados. 

Deve ser a hora em que Deus desce à terra todos os dias. E por isso toda a Natureza Sua Criação fica no mais profundo silêncio em adoração.

Rodeado por tão completa harmonia invade-me sempre uma paz de espírito que não é fácil de explicar. É uma tranquilidade íntima tão doce que instintivamente fecho os olhos e dou graças por ter nascido, por estar vivo, pela minha vida inteira. Pelos pais e avós maravilhosos que tive, pelas irmãs, filhos, netas, esposa, família em geral e amigos que ainda tenho, a profissão e a reforma do meu sustento de cada dia, a casa que consegui erguer e me acolhe, enfim, o infinito rol de graças e bendições com que fui e continuo a ser agraciado pelo Criador de todas as coisas, cada dia do meu viver. 

É mais natural rezar e agradecer nesses instantes, do que algumas vezes na igreja, se bem que, como é óbvio, respeito infinitamente a Casa onde o Senhor se faz presente no Sacrário. Todos quantos me conhecem sabem que sou crente quase desde que nasci mas instintivamente dou graças em qualquer lugar onde me encontre nesse momento, quando subitamente tudo em meu redor se cala e permanece na mais indescritível quietude. É algo tão sublime que fica impossível de explicar.

Nunca repararam nisso? Então experimentem. Subam a um monte, escolham um local sossegado e aguardem o por do sol. Até sentados na muralha de Marvão acontece esse fenómeno intrigante. Ou mesmo no vosso tranquilo quintal, como eu faço no meu. Quase me atrevo a apostar que se irão surpreender com o sossego e silêncio que de súbito se instalará em vosso redor. 

Serão só uns breves instantes, como já disse. Apenas o tempo que o sol demora entre tocar a linha do horizonte e desaparecer por completo por detrás dela. É algo tão raro que nós quase nem nos atrevemos a respirar, não vá o "barulho" da nossa respiração perturbar o silêncio que tudo envolve. 

Depois quando nos encontrarmos por aí contem-me como foi, se quiserem. A Vida, a Natureza, o Mundo, são maravilhosos. Às vezes nós é que não olhamos. Ou olhamos mas não vemos. Eu acredito que é obra do Criador. Contudo, respeito de igual modo quem não acredita. 

Cada um sabe de si...

Meu vício da leitura (I)


Foto by Pedro Coelho

A tua caminhada ainda não terminou.
A realidade te acolhe
dizendo-te que pela frente
o horizonte da vida necessita
das tuas palavras
e do teu silêncio.

Se amanhã sentires saudades,
lembra-te da fantasia e
sonha com a tua próxima vitória.
Vitória que todas as armas do mundo
jamais conseguirão obter,
porque é uma vitória que surge da paz
e não do ressentimento.

É certo que irás encontrar situações
tempestuosas novamente,
mas haverá que ver sempre
o lado bom da chuva que cai
e não a faceta do raio que destrói.

Tu és jovem.
Atender a quem te chama é belo,
lutar por quem te rejeita
é quase chegar à perfeição.
A juventude precisa de sonhos
e de se nutrir de lembranças,
assim como o leito dos rios
precisa da água que corre
e o coração necessita de afeto.

Não faças do amanhã
o sinónimo de nunca,
nem o ontem te seja o mesmo
que um nunca mais.
Os teus passos ficaram.
Olha para trás
mas vai em frente
pois há muitos que precisam
que chegues, para poderem seguir-te.


Charles Chaplin

Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...