sábado, 31 de janeiro de 2026

Espírito de missão


Todo o percurso da minha vida tem refletido a bondade do Altíssimo para comigo. Assim o creio e afirmo sem beatice, apenas e só pela mais inequívoca convicção porque eu é que sei os apertos por que passei, as aflições que me atormentaram e a forma como sempre consegui ultrapassar tudo.
É muito fácil as pessoas opinarem sobre aquilo que não sabem, denegrirem e darem palpites. Mas como o povo diz, e bem, "quem vive no convento é que sabe o que tem lá dentro". O resto são tretas quase sempre mal-intencionadas, vindas de gente menor e feia por dentro.
Por isso e muito mais, logo que regressei e estabeleci residência definitiva na Beirã fui apresentar-me ao padre Emílio a oferecer os meus préstimos com carácter permanente na igreja e paróquia, onde quer que eles fossem necessários e estivessem dentro das minhas capacidades.
Passaram 33 anos e lá continuo.
Faço-o por sentido do dever de gratidão ao Deus do meu amor – como diz o poeta – e às minhas raízes cristãs, como modo de retribuir também a ajuda que nunca me faltou.
Somos hoje muito poucos os paroquianos que nas celebrações semanais ou festivas, cruzamos já a porta da igreja para nos aproximarmos do Santíssimo Sacramento que há 83 anos se tornou o mais ilustre habitante desta aldeia.
Sei e tenho plena consciência que não andará muito longe o dia em que esta igreja será apenas mais um templo religioso fechado e sem a presença do Santíssimo, como há já por aí tantas. Para mim uma igreja sem o Santíssimo Sacramento no Sacrário, é um corpo sem coração, ainda que esteja a abarrotar de gente.
E vai doer-me muito se ainda cá estiver, como já me dói agora cada vez que mais uma casa fica vazia sem os vizinhos amigos, para se transformar pouco depois em mais um alojamento local para turistas.
Sou o único salmista desta paróquia que prepara em casa durante a semana o salmo para cantar em cada Eucaristia. Continuo também na medida do que sou capaz, a orientar o coro paroquial que, de quinze ou vinte pessoas, se resume agora apenas a quatro ou cinco.
O padre Emílio e exímio músico, promovia ensaios semanais e incentivou-me a aprender muitas coisas, convencendo-me a ir ao ambão cantar os salmos dominicais, mas também a aleluia na proclamação do Evangelho. Porém, desanimado com a cada vez menor afluência de fiéis às celebrações, em meados 1998 desistiu e rumou às paróquias da Beira Baixa deixando-nos sozinhos.
Sem a sua formação musical não desisti contudo e continuei a fazer uso da formação que dele tinha recebido, empenhando-me em não deixar morrer o coro paroquial, por não haver mais ninguém que quisesse ou soubesse fazê-lo.
E lá continuo, desde aquela data até hoje.
Não possuo conhecimentos que me permitam interpretar uma pauta musical, mas tento ainda assim, apenas de ouvido, fazer e ensinar o melhor que consigo. Não para exibir dotes de tenor que não tenho, mas por amor à minha comunidade e para, enquanto for possível, conferir à eucaristia semanal um mínimo de solenidade que ajude à reflexão e paz interior de cada participante na sua aproximação a Cristo.
Para o lugar do padre Emílio foram pouco depois nomeados “in solidum” o cónego Tarcísio Alves e o padre Luís Ribeiro que me convidaram a tomar conta da contabilidade paroquial como tesoureiro do CEP – Conselho Económico Paroquial – o que faço ainda, por não haver também quem se ofereça para me substituir.
Aconselhado pelos novos párocos frequentei, a expensas minhas sempre, formação teológica e litúrgica para leigos em inúmeros encontros semanais em Mem Soares – Castelo de Vide, Sertã e Abrantes, um Cursilho de Cristandade para homens no Seminário de Alcains, um CAF – Curso de Aprofundamento da Fé – durante três anos aos sábados no Seminário de Portalegre, tendo sido mandatado pelo Bispo da Diocese de MECEPAP – Ministro Extraordinário da Comunhão e da Palavra na Ausência do Presbítero.
Mas não há – mesmo – volta a dar. Somos cada vez menos e estamos cada vez mais velhos. Até quando estarei à altura para continuar? Até que Deus queira. Só a Ele cabe decidir. Mas honestamente confesso que muitas vezes me sinto já também cansado e com vontade de ficar por casa, sossegado.
Foto Pedro Coelho