segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Rotinas de reformado

Oito e meia da manhã. O cheiro a café – Delta, sempre – a passar na máquina para o pequeno almoço invade os nossos sentidos, enquanto apanho o borralho da noite e volto a acender a lareira para mais um dia de conforto.
Este rito matinal tornou-se o compasso do meu tempo.
Já não há pressa: o relógio marca as horas, mas quem dita o ritmo são os pequenos prazeres. A luz suave filtrada pelas persianas atravessa as cortinas e desenha padrões tímidos nas tijoleiras do soalho.
O crepitar da lenha a acender na lareira acompanha o aroma robusto do café, como uma orquestra invisível que anuncia o início de mais um dia igual e, ainda assim, extraordinário na sua simplicidade.
Ao avivar as brasas penso nas muitas manhãs passadas de correria, de compromissos inadiáveis, de trânsito e de reuniões. Agora, o tempo pertence-me – ou talvez seja eu que pertenço finalmente ao tempo.
A chávena quente entre as mãos, é uma promessa de aconchego. E o som discreto da tv, com as notícias de sempre, torna-se pano de fundo para os pensamentos que vagueiam livres.
Viver a reforma é redescobrir o valor das rotinas.
São elas que dão estrutura aos dias e fazem sobressair os detalhes: o sabor do café acabado de fazer, o calor da lareira acesa, o silêncio que só é interrompido pelo chilrear dos pássaros ou pelo estalar da madeira.
São pequenos luxos, antes despercebidos, agora celebrados.
Enquanto o sol sobe no céu e a casa aquece devagar, decido que a maior tarefa do dia será desfrutar destes momentos. Talvez mais tarde uma caminhada, um dedo de conversa com algum vizinho, ou simplesmente uma leitura tranquila à beira do lume.
Afinal, o segredo está mesmo aqui: no presente, no ritual, no conforto das rotinas que, longe de serem monótonas, são agora fonte de contentamento e gratidão.
Sejam (também) felizes, se puderem...
Texto e foto