sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O poder dos pequenos gestos

Acabara de me acomodar na cabine de uma das carruagens do Lusitânia-Comboio Hotel Lisboa-Madrid, junto a uma das portas de acesso à mesma, na Estação de Santa Apolónia. O ambiente era quentinho, muito acolhedor e preparava-me para mais uma confortável travessia noturna, quando reparei num casal de idosos que com muito esforço tentavam subir, cada um deles carregando um malão de viagem quase maior do que eles, lutando contra o peso da mala e da altura dos degraus metálicos da carruagem.
Senti-me impelido a ajudá-los e aproximei-me rapidamente. Primeiro aceitei os enormes malões acomodando-os cuidadosamente na rede das bagagens sobre os assentos, garantindo que ficassem ali seguros até ao destino. Depois ajudei o casal a sentarem-se na poltrona em frente à minha, certificando-me de que estavam confortáveis e prontos para o longo percurso de várias horas até Madrid.
A comunicação revelou-se o maior dos desafios entre o português e o inglês que nenhum de nós conhecíamos suficientemente, mas com uma generosa dose de mímica e gestos lá nos fomos entendendo. Descobri que eram americanos, ele militar recém reformado, ela sua fiel companheira de sempre. Viajavam pela Europa para celebrarem a sua aposentação e nova liberdade, aproveitando para conhecerem outras culturas e povos. Viviam na Flórida e não poupavam elogios à hospitalidade portuguesa, sublinhando que eu era mais uma prova do acolhimento generoso do nosso povo – o que nos fez rir, partilhando aquele momento de boa disposição.
Como pude, apresentei-me também. Disse-lhes, com o inglês que aprendi nos filmes da tv que também era militar a estudar em Lisboa “from sargeant” e que ia para Castelo de Vide, onde tinha “my house, and woman, and two childrens”. Rimo-nos das traduções mal-amanhadas e a atmosfera rapidamente se tornou familiar e descontraída.
Foram três horas de viagem incrivelmente animadas; não houve um minuto de silêncio entre nós. A dada altura o revisor entrou para verificar os bilhetes. Procurei o meu porta-moedas redondo de cabedal – daqueles que se rodam para alinhar a boca interior com a exterior – e retirei o bilhete, bem dobrado. O americano ficou fascinado com o objeto, pediu para o ver e, enquanto rodava, abria e fechava o porta-moedas com ar extasiado, repetia vários “nice, nice” como se tivesse nas mãos uma peça exótica e rara.
Expliquei-lhe, como consegui, que aquilo era uma peça de artesanato comprada em Reguengos de Monsaraz. Vendo-o tão maravilhado, decidi ali mesmo: despejei moedas e bilhete para o bolso e ofereci-lhe o porta-moedas. Ele, entre exclamações de surpresa e gratidão “wow, now, now, now…”, aceitou o presente com um grande sorriso. De imediato, estendeu-me um papel e uma caneta, pedindo-me “your address” para mantermos contacto. Escrevi-o, como ele insistiu, sentindo que aquele gesto simples tinha criado uma ponte inesperada entre dois mundos.
O Lusitânia aproximava-se entretanto da estação de Castelo de Vide. Despedi-me do simpático casal recebendo efusivas demonstrações de satisfação e múltiplos “tank you”. Saí do comboio convencido de que aquela era apenas mais uma entre tantas histórias de viagem e que provavelmente nunca mais os veria.
Meses depois, já esquecido daquele episódio, recebi um aviso dos correios para levantar uma encomenda oriunda da Flórida, EUA. A curiosidade levou-me até à estação dos CTT, onde me foi entregue uma caixa: lá dentro encontrei a calculadora Casio que ilustra este texto – das primeiras a energia solar – acompanhada de uma longa carta de agradecimento. Apesar de não conseguir compreender o inglês da carta pedi a um camarada licenciado que fez o favor de me a traduzir. O casal agradecia, mais uma vez, a minha ajuda, o gesto do porta-moedas e enviava a calculadora como presente, convidando-me ainda a ir com a minha família visitá-los na América.
Tenho ainda guardada e perfeitamente funcional a já velhinha calculadora quarenta anos depois, como podem verificar na foto que dela fiz agora mesmo. Mais do que recordações materiais, são símbolos de um encontro improvável, do poder dos pequenos gestos e da universalidade da empatia, que, mesmo em viagens rápidas de comboio, podem criar laços para a vida inteira.
Texto e foto