Estar em casa sossegado é, para mim, puro aconchego. Pouca gente compreende este sentimento, mas o importante é o que eu sinto, não o que os outros entendem. O silêncio que me rodeia, tecido por uma vida inteira de memórias, suaves e gratas, fazem desta casa muito mais do que um simples abrigo.
Aqui consigo quase ouvir o bulício de outros tempos, quando a casa estava cheia de gente boa. Recordo-me do riso sempre pronto da minha mãe, do tom grave e sereno da voz do meu pai, do crepitar do lume nas noites de inverno, do aroma reconfortante da sopa camponesa a ferver na sertã sobre a trempe. Lá fora a chuva tamborilava nas telhas mouriscas e o vento rugia, mas nós, aquecidos pelo fogo e pelo afeto, sentíamo-nos protegidos ao redor da lareira.
Nos verões, após a ceia, era costume irmos respirar o fresco da rua, sentando-nos em bancos de pinho e cadeirinhas de bunho em amena cavaqueira com a vizinhança, dando largas à alegria naqueles convívios fraternos, quase familiares, até à hora de recolher.
Depois o tempo a passou e foi a nossa vez de construirmos novas famílias. Primeiro a irmã Adelina, depois eu, seguido pela Luz e finalmente a Joaquina. Cada um de nós voou do ninho aconchegante sem nunca nos afastarmos verdadeiramente dos nossos patriarcas nem da casa que nos viu nascer. Regressávamos com frequência, reuníamo-nos à volta da mesa – que teve de crescer, tal como a cozinha, para nos acolher a todos.
De quatro passámos a oito, depois nove, dez, onze… E assim vieram os nossos filhos, recebidos e acarinhados pelos avós com um afeto quase superior ao nosso. Os seus primeiros risos, passos e palavras ecoaram sob o mesmo teto humilde, mas imenso em afetos.
Mais tarde por vontade expressa do meu pai, herdei a casa. Nunca imaginei tal coisa, pois na nossa inocência acreditamos que os pais são eternos. Recordo o momento em que, enquanto eu considerava comprar casa no bairro novo, o meu pai, decidido, me disse: “Não procures casa para comprar porque eu quero que ‘esta’ seja para ti.”
Ele já tinha, inclusivamente, tudo calculado: o valor a pagar às minhas irmãs e a única condição era que ele e a minha mãe aqui ficassem connosco enquanto vivessem. Nada disso foi um fardo para mim, antes pelo contrário, foi uma bênção.
O respeito à vontade do patriarca foi imediato. Em pouco tempo, tratou-se de toda a burocracia e a casa passou, oficialmente, de António Coelho para José Coelho e passámos a habitar três gerações sob o mesmo teto: a avó Amélia, os patriarcas e nós, os herdeiros.
Fiz obras para melhor nos acomodarmos todos, mas preservei intactas as quatro divisões da casa-mãe. Assim, as paredes que assistiram ao meu nascimento continuam no seu lugar e as pedras moldadas pelas mãos do meu pai permanecem como ele quis. Entre essas paredes me despedi dele numa triste madrugada de janeiro de 1994, no quarto que sempre foi o seu e na casa que construiu.
Por tudo isso nutro pela Toca dos Coelhos uma devoção comparável à de quem chega ao santuário da sua fé. Aqui mantenho vivas as memórias dos pais, avós, irmãs, filhos e agora também das minhas netinhas.
O futuro não é responsabilidade minha nem me preocupa. Herdei o passado e cuidei dele. Cumpri na íntegra o compromisso verbal imposto pelo meu pai, como se tivesse sido lavrado num notário, porque a minha palavra vale mais que todos os testamentos e certidões.
Vivo por isso o presente de consciência muito tranquila, em paz com o mundo inteiro e comigo mesmo.
Como diz o provérbio:
“Atrás de mim virá, quem melhor fará.”
