Desfruto hoje de uma vida de reformado que, sem qualquer dúvida, todos merecíamos desfrutar. Mas infelizmente não é o que sucede para a esmagadora maioria dos portugueses e todos sabemos porquê. Porém, não foi também a sorte nem o acaso que me trouxeram até aqui.
Lutei muito para cá chegar.
Foi, sem qualquer falsa modéstia, o meu espírito lutador que nunca se deixou intimidar apesar das minhas humildes origens e parcas habilitações literárias, guiado pelo exemplo dos meus pais e avós – analfabetos, gente do campo, pastores e agricultores – cuja capacidade de trabalho dia e noite, integridade, honestidade e resiliência foram meu farol e guia, ao longo de toda a vida.
Se alcancei profissionalmente o que muitos nem ousaram tentar, talvez tenha sido porque não permiti que o medo de falhar me travasse. Enquanto outros se convenciam de que certas conquistas não estavam ao seu alcance, o meu íntimo repetia: “Tenta, Zéi. O não está certo, mas se não fores à luta, nunca saberás se consegues ou não.”
E fui. Sim, com o coração apertado por receios invisíveis e incertezas, tantas vezes, mas desistir nunca foi opção.
Avancei. Sempre.
E consegui.
O caminho – garanto-vos – não foi nada fácil.
Durante quatro longos anos dediquei-me a calhamaços de leis, decretos-leis e portarias que dimanam da Assembleia da República e determinam as regras da vida em sociedade de todos nós, sobre tudo e mais alguma coisa, debitando centenas de páginas em infindáveis serões e madrugadas num incansável estudo e indomável perseverança.
Não tive ajudas de ninguém, nem facilidades fosse de quem fosse. Sinto, convictamente, que se alguma mão me ajudou, terá sido a divina.
E mais não digo, pois foi esse acreditar e esforço solitário que fizeram de mim o que sou hoje.
Ao olhar para trás tenho a certeza de terem sido os valores familiares que já referi que me moldaram: a honestidade para agir corretamente mesmo quando ninguém estava a ver; a integridade para nunca trair os meus princípios, e a resiliência para ultrapassar os momentos mais duros, mesmo quando tudo parecia impossível.
Olhando para o que alcancei, orgulho-me do caminho percorrido. A minha reforma não é apenas o repouso do corpo envelhecido, mas o reconhecimento da luta de uma vida inteira. Cada conquista e cada batalha vencida, foram alimentadas pelo exemplo daqueles que vieram antes de mim, tão pequenos na sua aparência, mas tão gigantes no seu carácter.
Se pudesse deixar uma palavra às gerações mais jovens, seria esta: não permitam nunca que as circunstâncias condicionem os vossos sonhos. Confiem em vocês próprios, mesmo quando tudo parecer inalcançável. O caminho faz-se caminhando, mas por vezes é preciso ser teimoso, persistente e acreditar que vamos ser capazes, mesmo contra todas as probabilidades.
Que a história de vida deste filho e neto de humildes pastores e agricultores possa servir de inspiração para quem duvida de si próprio. Todos merecemos uma vida digna e plena, a chave está dentro de cada um de nós. Só é preciso coragem para abrir a porta e avançar sem medo de cair, porque essa é a única forma de sabermos até onde somos realmente capazes de chegar.
José Coelho
Texto e foto (do diploma da minha licenciatura)
15. 01. 2026
