quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Saudade

Sim, é verdade. A vida é feita de ciclos e muitas vezes só compreendemos plenamente o valor de certas rotinas quando estas já não fazem parte do nosso quotidiano. Acordar cedo, tomar um duche revigorante, preparar um pequeno almoço apressado e sair de casa rumo ao Centro de Formação de Praças de Portalegre era para mim muito mais do que um mero ritual matinal: era o início de um dia com propósito, com objetivos e desafios a superar.

Curiosamente, quando somos pequenos, olhamos para a vida adulta como a fase em que finalmente poderemos tomar as nossas próprias decisões, ser independentes e, quem sabe, realizar sonhos que julgamos ser exclusivos dos crescidos. Depois quando a fase adulta se instala com as suas responsabilidades e rotinas, ansiamos por um descanso merecido, imaginando a reforma como um tempo de pura liberdade – sem horários, sem pressas, sem obrigações.

No entanto a experiência mostra-nos que, após a euforia inicial desse aparente “estado de graça” que a reforma nos oferece, surge uma espécie de vazio. A ausência de tarefas diárias, de horários para cumprir, de metas a atingir, pode facilmente transformar-se numa sensação de inutilidade ou de nostalgia do que já foi. É uma fase de adaptação profunda, onde muitos se questionam: - E agora, qual é o meu papel?

A melancolia é, nessas alturas, uma companheira silenciosa. Não poucas vezes damos por nós a sentir falta das pequenas coisas – a conversa com colegas, o café apressado, a satisfação de um dever cumprido. A rotina, que em tempos nos pesava, revela-se afinal um alicerce importante do nosso bem-estar emocional.

Vá lá a gente entender este paradoxo: ansiamos pela liberdade e quando a temos, sentimos falta da estrutura. No fundo, talvez o grande desafio da reforma seja reinventar o nosso propósito, encontrar novas formas de nos sentirmos úteis, de contribuir para a sociedade, mesmo que de maneira diferente.

A saudade do tempo de trabalho não deve ser vista como um sinal de insatisfação com a reforma, mas sim como um reconhecimento do valor que aquele período teve e da importância de mantermos atividades, laços sociais e objetivos, mesmo após o fim da “vida ativa”. Afinal, em cada ciclo, há sempre espaço para um novo começo, para novas paixões e para redescobrirmos quem somos para além da profissão que nos definia.

José Coelho