Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quinta-feira, 31 de julho de 2025
2022 - "Ó Senhor, Vós tendes sido o nosso refúgio
Assim sou
Talvez...
Uma dor que não é física
quarta-feira, 30 de julho de 2025
Para hoje
Ninguém é insubstituível, mesmo
terça-feira, 29 de julho de 2025
Que simples pode ser a vida
Porque nasci no seio da humildade e pobreza,
habituei-me desde pequeno a não dar grande importância ao dinheiro e a ser
feliz com o que havia. A minha mãe, coitada, nunca programava a ementa do
almoço do dia seguinte, sendo sua única certeza o pouco que teria por onde
escolher. O mais certo com certeza ia ser uma sopa com produtos da imensa e farta horta que o tio António Coelho tinha
na Broca de meias com o tio João Forte, mais um bocadinho de pão com “qualquer
coisa” que muitas vezes se resumia a uma omelete, um punhado de azeitonas, ou umas
talhadas de toucinho frito, porque os enchidos tinham de guardar-se para o avio
das merendas do dia seguinte.
Muita gente deve achar que é mentira que se pudesse ser feliz assim. Mas éramos, sim. Felizes, mesmo. Na nossa casa a única coisa que havia em abundância era a alegria e a boa disposição de manhã à noite. A minha mãe cantarolava facilmente, fosse a migar as nabiças do jantar, fosse a lavar a roupa da família toda no tanque público, ou mesmo quando se sentava ao sol no quintal a remendar algum trapo mais surrado pelo uso.
Um rádio Grundig a pilhas fazia as delícias dos nossos serões com aquele programa diário de discos pedidos na Rádio Badajoz cujas músicas no acordeon da Maria Albertina ou outra “remexida” qualquer davam imediatamente azo a sessões de baile na nossa cozinha, alegres e despreocupados como nunca mais soubemos ser, apesar de a vida de todos nós ter evoluído para melhor.
Ou, pelo menos, é isso que nós pensamos. Só não sei muito bem, não tenho hoje assim tanta certeza se "ist’agora" é realmente melhor do que era "d’antes"...
Já velhinha e completamente invisual, muitas vezes ouvi a tia Florinda trautear ainda as modas dela comodamente sentadinha no seu sofá na sala. E quando ouvia alguma música sua conhecida na televisão logo os seus pézitos começavam a bater ritmadamente no chão ao compasso dos acordes. E eu ficava em silêncio, deliciado, a observá-la. Coisas tão simples que quase passavam despercebidas na altura mas que a saudade vai buscar hoje para me dizer que sim, que apesar de ter sido toda a vida pobre, que apesar de "o Senhor lhe ter levado os seus olhos" como ela dizia, ainda assim, a minha mãe foi uma criatura feliz.
Acho que herdei algum desse estado de espírito dela e estou-lhe muito grato por isso. Sou completamente desapegado do dinheiro e de outros bens materiais que para muita gente que conheço são quase imprescindíveis. Visto qualquer trapinho desde que goste sem me preocupar minimamente se é de marca ou da moda. Tanto sou capaz de comprar numa tenda de roupa do mercado como numa loja chique, desde que aquilo que quero se encontre numa ou noutra. Não troco um jantar em casa com a família por um no restaurante e aprecio muito mais umas migas de batata com sardinhas fritas do que uma mariscada. Em resumo, nasci no meio da simplicidade, sempre fui feliz no meio dela e é assim que gosto de viver.
A vida é já tão complicada e imprevisível, para que havemos de a complicar ainda mais dificultando o que pode ser tão fácil?
Na espuma agora suave dos meus dias ocupo as horas pelo quintal onde pacificamente vou prestando atenção a um casal de pintassilgos que namora num ramo do limoeiro porque muito provavelmente já têm algures num galho discreto o ninho com a sua nova prole. Todos os anos o fazem, umas vezes na nossa latada, outras nas roseiras, ou mesmo nas forcas mais altas das oliveiras.
E sob o cair da noite um ralo canta que se desunha. Ah valente! Assim mesmo é que é. Canta, amigo, canta, porque tal como os humanos tens uma vida breve. Só que eles fazem de conta que não sabem isso. Vive tua vidinha assim, um dia de cada vez, sem te “ralares” muito!
As rolas devem já ter também os seus borrachos quase criados nos sobreiros do quintal do vizinho ao lado do nosso e vêm frequentemente pousar no meio das hortaliças à cata de alguma larva. E aproveitam a viagem para de caminho se dessedentarem na água fresca do balde que coloco todos os dias ao lado do forno de lenha para a passarada beber sempre que lhes apetecer.
Decididamente a vida por aqui é assim de simples e pacata com a paz a rodear-nos por todos os lados. Basta olhar e ficar atentos a tudo, que não é pouco...
José Coelho
Foto Maria Coelho
segunda-feira, 28 de julho de 2025
Carta para a minha Mãe
Cada dia mais perto de ti, Mãe
domingo, 27 de julho de 2025
A vida é (mesmo) assim
Não culpemos o vento por ele ter tombado a jarra das flores quando fomos nós que abrimos a janela e o deixámos entrar. De igual modo não nos culpemos também por termos aberto a janela, pois não podíamos prever que ia vir o vento.
Na vida tudo acontece quando e como tem de acontecer. Nada consegue mudar
isso. Por mais cuidadosos e prudentes que sejamos e por melhores que sejam as
nossas intenções, jamais seremos capazes de prever o imprevisível.
Acreditar que as
pessoas são como nós bem-intencionadas, é também absolutamente normal porque até prova em contrário todos somos confiáveis, dignos do crédito e do respeito
de quem conosco convive ou priva.
Desde o berço fui assim
moldado e todos os dias da minha vida dou graças por isso. A minha árvore
genealógica é humilde de pergaminhos mas abastada de princípios e valores, dos
mais básicos e simples de manter, aos mais elevados e difíceis de conservar.
Aprendi pelo
permanente exemplo desses meus queridos mestres que a bondade, a honestidade, a
educação e o respeito de uns para com os outos são invioláveis, porque cada um
deles encerra em si a multiplicação de todos os outros.
E juntos promovem a
dignidade humana que é devida e merece cada um de nós.
Infelizmente ao
longo do meu já extenso caminho fui conhecendo de tudo um pouco. Do melhor e do
pior. Do melhor foi, felizmente, a parte maior. Do pior, apesar de ter sido a
menor parte, foi infelizmente aquela que me mostrou a cor mais negra da alma
humana.
Não vou, porque não
sou de lamechices, mencionar seja o que for. Está tudo arrumado no sótão da
minha memória e disso só deixei alguns marcadores para quando necessito
reaprender a superar a dor quando voltam a acontecer.
Claro que voltam e
continuam a repetir-se. Mais do que deveriam com novos e cada vez mais letrados
protagonistas. Mas a sua cor, amargor e a deceção que causam são iguais, ou
ainda mais acentuadas.
Os diplomas catedráticos
não conseguem cultivar mentes que já nasceram perversas.
E não há como evitá-lo,
porque nem é possível mudar a maneira de ser de cada pessoa, nem a tal bondade,
educação e respeito invioláveis conseguem reproduzir-se no coração de quem
nasce torto e tarde ou nunca se endireita.
Não é também, de
todo, defeito das sementes.
É mesmo a aridez dessas
almas que não as deixa nascer e muito menos reproduzir. Apesar de ter disso
consciência, nunca deixarei de lutar por um mundo melhor e mais justo.
Não são muito
vastas as minhas capacidades, mas são verdadeiras.
Iguais às daqueles
a quem as agradeço.
José Coelho
Foto Maria Coelho
sábado, 26 de julho de 2025
sexta-feira, 25 de julho de 2025
Aprendendo a deixar ir
Optamos por rodear-nos de cada vez menos pessoas, começamos a eleger o silêncio e a escolher a ausência para nos dedicarmos apenas ao que nos concede paz.
Começamos a ver as coisas como elas são e cada vez menos como parecem, a preservar o melhor de nós só para quem nos conhece e estima.
Aprendemos a ficar calados e a abrir mão de muitas coisas, a selecionar o útil e o fútil porque tudo o que é inútil deixa de nos importar.
Livramo-nos de muitas coisas: palavras, pessoas e objetos para ficarmos apenas com o que nos torna melhores.
Em resumo aprendemos a deixar ir o que tem de ir e a aceitar o que veio para ficar.
José Coelho (Texto e foto)
quinta-feira, 24 de julho de 2025
Porque não há volta a dar
Desde que me conheço sigo e procuro cumprir os bons preceitos e comportamentos que me foram ensinados. Incansavelmente. Por isso me sinto também no direito de não aceitar e contestar aquilo que não consigo perceber. Há muito que me esforço por compreender as respostas e sinais de tudo o que me rodeia. Mas também a ausência deles. Poderia descrever um cento dessas manifestações na primeira pessoa, só que provavelmente vós não as iríeis entender como eu as entendi e iríeis entender outra coisa qualquer ditada pelo vosso raciocínio. O que para mim, à luz das minhas crenças, pode ter sido um sinal, para vós pode ser visto apenas como mera coincidência ou casualidade.
E
há que respeitar todas as opiniões.
Sei,
tenho consciência plena que sou a mais imperfeita das criaturas. Mas sei também
com toda a certeza que dentro das minhas humanas limitações e inúmeras
imperfeições sempre tentei – e acho que tenho conseguido – pautar cada dia da
minha vida pelo caminho do bem, da honestidade, da lisura de carácter, do não
fazer a ninguém aquilo que não quero que me façam a mim.
Daí
que me desiluda e fique revoltado algumas vezes quando vejo ou sou alvo de
injustiças, faltas de honestidade, de carácter, de sujos e
inexplicáveis esquemas que têm como objetivo único prejudicar, denegrir,
enxovalhar ou tirar proveitos indevidos. E é nessas ocasiões que não percebo e me questiono zangado:
-
Porquê?
-
Se eu não o faço essas merdas a ninguém, porque m'as fazem a mim?
É
verdade que frequentemente todos somos postos à prova e temos de ter a
capacidade de aceitar, mesmo o que nos fere e magoa. Porém, uma coisa é termos
que irremediavelmente aceitar o que vem, outra coisa muito diferente é sermos
capazes de o entender.
E
as perguntas surgem do nosso íntimo em catadupa:
-
Porque há tantas coisas ruins neste mundo que diz a Bíblia, Deus criou?
Doenças incuráveis, guerras, atentados, refugiados, fome, sofrimento humano
indescritível onde os mais atingidos são sempre os mais indefesos, mulheres, velhos e crianças inocentes?
-
Porque há milhões de ricos a nadar em abundância num absoluto contraste com
outros tantos milhões de infelizes que nada têm nem sequer para comer?
-
Porque existe corrupção, cobardia, oportunismo, deslealdade e ganância
humana?
-
Porque...
-
Porque...
Sofro
com o declínio irreversível da minha terra e percebo tarde demais que tomei a
decisão mais errada da minha vida ao voltar para cá. Muitos conterrâneos tiveram de ir-se
embora porque tal como eu precisaram procurar outros destinos em busca do
sustento para si e para os seus. Mas naturalmente por lá foram ficando e não
mais voltaram. Deixaram por cá os seus idosos, mas à medida que eles se foram
finando as casas foram ficando desabitadas. Nem sequer a interesseira
"moda" de agora se transformarem algumas delas em Alojamentos Locais,
versus "mini-hotéis" turísticos que a pandemia Covid 19 impulsionou,
irá trazer o desenvolvimento que definitivamente se evaporou.
As
pragas ruins são por norma irreversíveis. Por isso não há cura científica para esta
variante de cancro que dá por nome "desertificação" e se propaga por
toda a Freguesia da Beirã, prossegue por todo o Concelho de Marvão e Distrito
de Portalegre, continua depois pelo Alto e Baixo Alentejo para se juntar a todo o
interior de Portugal desde Bragança a Vila Real de Santo António, perante a indiferença negligente de quem governa e só se preocupa com o bem-estar dos habitantes das
grandes metrópoles eleitorais onde se conseguem os muitos votos que dão acesso aos dourados “tachos”
e mordomias do poder.
Cancro.
Disse
bem.
Maligno.
Incurável
como o que levou o querido Amigo e Pároco Luís Ribeiro, uma perda tão
inesperada para mim que passados alguns anos ainda não consegui digeri-la. Com
ele se foi também a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo que desde então tem
vindo lentamente a caminhar para a extinção.
Vivo
hoje um dia de cada vez sem acreditar em nada já, sem esperar também muito mais
do que aquilo que me rodeia e entristece. Até a vigorosa fé que sempre foi a
minha principal fonte de força vou perdendo aos poucos.
Porque
não há volta a dar vou também desistindo, perdendo o alento e deixando cair os
braços. Sem apelo nem agravo.
José Coelho
(Texto e foto)
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