quinta-feira, 31 de julho de 2025

2022 - "Ó Senhor, Vós tendes sido o nosso refúgio

SALMO RESPONSORIAL DO XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Assim sou


Nunca fui de ter muita gente à minha volta. Para ser sincero, nunca precisei. Sempre fui mais de silêncios do que de barulhos, de profundidade mais do que de superficialidade.

Embora haja quem goste de correr atrás das multidões, eu sempre preferi o aconchego de poucos. E às vezes, nem isso. A solidão nunca me assustou. Pelo contrário. Gosto dela.
Foi com ela que aprendi a ouvir-me, a entender-me e a bastar-me sem esperar por ajuda de ninguém.

Talvez...


Talvez um dia eu me esqueça...
Dos nomes,
Dos lugares,
Dos porquês.
Talvez as minhas mãos não saibam mais onde pousar,
E os meus olhos vagueiem por rostos familiares sem encontrarem abrigo no reconhecimento.
Talvez eu não saiba mais quem sou.
Mas ainda assim, terá valido a pena ser.
Porque a história que vivemos não depende só da memória.
Ela mora nos outros.
Mora em quem ouviu o meu riso e se sentiu mais leve.
Em quem chorou comigo e se sentiu menos só.
Em quem eu toquei com presença, com cuidado, com verdade.
Se um dia a lembrança me abandonar, espero que o amor que dei, ainda permaneça.
Porque ele não se apaga.
E quando já não puder contar a minha própria história,
Que ela continue sendo contada por quem fui abrigo,
Por quem fui passagem,
Por quem me amou - mesmo quando eu já não soubesse mais o que era amor.
É por isso que vale a pena viver com inteireza.
Porque mesmo quando tudo se desfaz,
A parte de nós que se fez amor, permanece.
E essa parte…
Essa parte ninguém esquece.
Ana Cláudia Quintana

Testemunhos milenares


 Menir da Meada - Castelo de Vide - O maior da Península Ibérica.

Foto Turismo do Alentejo

Uma dor que não é física


O dia a terminar, visto da minha casa, é um quadro digno de ser reproduzido numa tela por qualquer pintor. Todos os dias, seja verão ou inverno. No tempo quente o sol começa por deixar o vale onde fica a Estação do Caminho de Ferro e mais além o ribeiro da Cavalinha. Depois vai banhando de ouro a Murta, os cumes graníticos da Anta e da Cavalinha de Cima, para se despedir um pouco mais acima na zona da Meirinha.

Quando desaparece completamente no horizonte, logo se acerca o cinzento-escuro do anoitecer vindo da Herdade dos Pombais, onde parece viver escondido.
No inverno dá-se precisamente o inverso. Os cumes que agora se despedem do dia dourados pelo sol poente, coroam-se a partir do outono com uma neblina cinzenta e húmida produzida pelo frio do anoitecer que vai lentamente descendo pela paisagem até ao vale, transmitindo-lhe um certo ar de mistério.
Só falta mesmo vislumbrar-se no meio dela El'Rei D. Sebastião.
Esta região raiana pedregosa e inóspita pouco mudou com o passar dos séculos ou até mesmo dos milénios, conforme testemunham os inúmeros vestígios arqueológicos existentes por toda a parte, é sem dúvida o meu paraíso na terra.
Aqui encontrei sempre a paz e a tranquilidade necessárias ao meu equilíbrio físico e emocional, por maiores que fossem os desassossegos.
Trago hoje no peito uma dor que não é física mas que incomoda tanto ou mais do que aquelas que passam com um analgésico. É a dor de ver a minha amada terra já sem quase ninguém.
Tudo aquilo que fez parte da minha vida até aos sessenta anos está a desaparecer em passo acelerado. E sei que é irreversível. Há dias comentei até com a minha companheira:
- Já nem chocalhos de gado por aqui se vão ouvindo Maria!
Aposto que se os nossos antepassados cá voltassem não iam gostar de ver o lugar onde viveram e foram felizes, votado assim ao abandono. Não vem longe o tempo em que as ruas e quintais irão ser invadidos pelo mato e silvas e as casas transformar-se em ruínas como é já a linda Herdade do Pereiro, o Ramal de Cáceres e muitos caminhos de acesso às propriedades.
Estes pequenos povoados da raia irão juntar-se aos vestígios arqueológicos milenares para serem parte do seu conjunto. Como é possível que em apenas quatro ou cinco décadas se tenha desfeito um mundo que se construiu ao longo de séculos?
A História o dirá e julgará. Ou talvez não, porque não vai haver quem, como eu, a escreva.
(Texto e foto)

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Para hoje


A gente segue. Entre quedas e recomeços, fé e cansaço. No fundo, todos os dias somos invadidos por aquela esperança escondida que algo bom aconteça e um sopro invisível do universo alivie o peso das nossas inquietações para nos devolver a paz.
Mas porque o tempo não espera, acabamos por entender que cada um de nós carrega a sua própria sorte, o seu próprio destino.
A vida não promete ser leve. Apenas ensina a sermos fortes. E muitas vezes tudo o que precisamos é de uma breve pausa, de um respiro fundo que aquiete todas as nossas dúvidas.

Perante qualquer dificuldade, que nunca nos falte também a sensibilidade de percebermos a harmonia existente nos mais simples detalhes que silenciosamente Deus vai semeando nos nossos dias.

Ninguém é insubstituível, mesmo


A paz interior é o bem mais precioso que você pode cultivar. E por mais que o mundo seja cheio de estímulos, às vezes, é preciso desacelerar.

Aprenda a viver sozinho, em paz. É possível continuar a vida depois de ter sido magoado ou ofendido. É mesmo. Tudo passa no fim de contas.

Por mais vulgar que possa parecer, a vida traz sempre depois algo melhor. Ninguém é insubstituível.

Se alguém lhe está a tirar o seu sono, a sua fome, a sua energia, aproveite e tire você também essa pessoa da sua vida.

Porque ninguém vale mais do que a sua paz.

Foto José Coelho

terça-feira, 29 de julho de 2025

Que simples pode ser a vida


Porque nasci no seio da humildade e pobreza, habituei-me desde pequeno a não dar grande importância ao dinheiro e a ser feliz com o que havia. A minha mãe, coitada, nunca programava a ementa do almoço do dia seguinte, sendo sua única certeza o pouco que teria por onde escolher. O mais certo com certeza ia ser uma sopa com produtos da  imensa e farta horta que o tio António Coelho tinha na Broca de meias com o tio João Forte, mais um bocadinho de pão com “qualquer coisa” que muitas vezes se resumia a uma omelete, um punhado de azeitonas, ou umas talhadas de toucinho frito, porque os enchidos tinham de guardar-se para o avio das merendas do dia seguinte. 

Muita gente deve achar que é mentira que se pudesse ser feliz assim. Mas éramos, sim. Felizes, mesmo. Na nossa casa a única coisa que havia em abundância era a alegria e a boa disposição de manhã à noite. A minha mãe cantarolava facilmente, fosse a migar as nabiças do jantar, fosse a lavar a roupa da família toda no tanque público, ou mesmo quando se sentava ao sol no quintal a remendar algum trapo mais surrado pelo uso.

Um rádio Grundig a pilhas fazia as delícias dos nossos serões com aquele programa diário de discos pedidos na Rádio Badajoz cujas músicas no acordeon da Maria Albertina ou outra “remexida” qualquer davam imediatamente azo a sessões de baile na nossa cozinha, alegres e despreocupados como nunca mais soubemos ser, apesar de a vida de todos nós ter evoluído para melhor.

Ou, pelo menos, é isso que nós pensamos. Só não sei muito bem, não tenho hoje assim tanta certeza se "ist’agora" é realmente melhor do que era "d’antes"...

Já velhinha e completamente invisual, muitas vezes ouvi a tia Florinda trautear ainda as modas dela comodamente sentadinha no seu sofá na sala. E quando ouvia alguma música sua conhecida na televisão logo os seus pézitos começavam a bater ritmadamente no chão ao compasso dos acordes. E eu ficava em silêncio, deliciado, a observá-la. Coisas tão simples que quase passavam despercebidas na altura mas que a saudade vai buscar hoje para me dizer que sim, que apesar de ter sido toda a vida pobre, que apesar de "o Senhor lhe ter levado os seus olhos" como ela dizia, ainda assim, a minha mãe foi uma criatura feliz.

Acho que herdei algum desse estado de espírito dela e estou-lhe muito grato por isso. Sou completamente desapegado do dinheiro e de outros bens materiais que para muita gente que conheço são quase imprescindíveis. Visto qualquer trapinho desde que goste sem me preocupar minimamente se é de marca ou da moda. Tanto sou capaz de comprar numa tenda de roupa do mercado como numa loja chique, desde que aquilo que quero se encontre numa ou noutra. Não troco um jantar em casa com a família por um no restaurante e aprecio muito mais umas migas de batata com sardinhas fritas do que uma mariscada. Em resumo, nasci no meio da simplicidade, sempre fui feliz no meio dela e é assim que gosto de viver.

A vida é já tão complicada e imprevisível, para que havemos de a complicar ainda mais dificultando o que pode ser tão fácil?

Na espuma agora suave dos meus dias ocupo as horas pelo quintal onde pacificamente vou prestando atenção a um casal de pintassilgos que namora num ramo do limoeiro porque muito provavelmente já têm algures num galho discreto o ninho com a sua nova prole. Todos os anos o fazem, umas vezes na nossa latada, outras nas roseiras, ou mesmo nas forcas mais altas das oliveiras.

E sob o cair da noite um ralo canta que se desunha. Ah valente! Assim mesmo é que é. Canta, amigo, canta, porque tal como os humanos tens uma vida breve. Só que eles fazem de conta que não sabem isso. Vive tua vidinha assim, um dia de cada vez, sem te “ralares” muito!

As rolas devem já ter também os seus borrachos quase criados nos sobreiros do quintal do vizinho ao lado do nosso e vêm frequentemente pousar no meio das hortaliças à cata de alguma larva. E aproveitam a viagem para de caminho se dessedentarem na água fresca do balde que coloco todos os dias ao lado do forno de lenha para a passarada beber sempre que lhes apetecer. 

Decididamente a vida por aqui é assim de simples e pacata com a paz a rodear-nos por todos os lados. Basta olhar e ficar atentos a tudo, que não é pouco...

 

José Coelho

Foto Maria Coelho

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Carta para a minha Mãe


Mãe…

Quantos anos terias se aqui estivesses ainda connosco? É irrelevante porque o meu coração continua a lembrar-se da tua força, da tua bondade e coragem, mas sobretudo do teu riso fácil apesar da dureza que foi quase toda a tua vida.
É assim que vou lembrar-te sempre.
A ti devo quase tudo o que sei exceto o ler e escrever, porque tu não podias ensinar-me aquilo que também não sabias fazer. Mas na humildade do teu analfabetismo eras melhor professora do que muita gente licenciada que conheço. Os “livros” de onde nos ensinavas, eram os exemplos diários e permanentes que nos transmitias, repletos de inexcedível conteúdo.
Dona e senhora de inúmeras virtudes, o asseio e a arrumação eram a tua característica mais forte. Foste sempre de um brio excecional como dona de casa, como esposa, como mãe, como avó. Trabalhaste continuamente durante toda a tua vida ajudando tudo e todos.
E foste, inequivocamente, o pilar fundamental da nossa família.
Eras também promotora e praticante da mais absoluta honradez e seriedade. Mereceste sempre por tudo isso, a amizade o respeito e o carinho de toda a gente que te conhecia e ainda hoje te recorda e elogia.
Todos os dias me lembro de ti, Mãe. Sinto tanto a tua falta. A minha vida nunca mais foi a mesma desde o dia 28 de julho de 2014. Não por ter sido surpresa porque era um fim anunciado há tempo suficiente para já estarmos preparados.
Mas não foi bem assim.
Percebi nesse dia que nunca estamos nem nunca estaremos preparados para perder quem nos trouxe ao mundo.
E se de verdade me doeu muito a partida do meu pai e teu companheiro de toda a tua vida, porque me doeu terrivelmente sim, mais verdade é que a tua partida me doeu infinitamente mais. Ele também perdeu a sua mãe e minha avó Adelina, por isso sei que, onde quer que esteja, o tio António Coelho me entende.
Se antes ia regularmente ao cemitério, agora que devia ir mais, vou menos. Acho que nunca vou conseguir fazer o luto de ti por completo e voltei sempre demasiado perturbado as poucas vezes que lá fui. E tu sabes que eu não sou de pieguices.
Mas fui sempre muito agarrado a ti, Mãe.
E tu a mim também.
Amávamo-nos sinceramente um ao outro. O momento mais angustiante da minha vida aconteceu poucas horas depois de teres partido. A família tinha ido não sei onde, fazer não sei o quê, e ficámos só os dois, eu à tua cabeceira, embora a sala mortuária estivesse apinhada de gente vizinha e amiga que queria estar ali a acompanhar-te.
Subitamente o pranto profundo e incontível brotou finalmente da minha alma meio estupidificada desde as três da tarde quando deste o teu derradeiro suspiro a segurares a minha mão. Acho que só naquele momento dei finalmente conta que te tinha perdido para sempre. E desatei a chorar perdido naquela dor inexplicável durante tanto tempo sem conseguir e sem querer conseguir conter-me. Só me lembro de a vizinha de toda a nossa vida Joaquina Brites se ter levantado da sua cadeira para me vir confortar dizendo-me baixinho “pronto, pronto, não chores já mais Zé Manel, a tua mãe deixou de sofrer e está agora em paz”.
Foi tão duro, Mãe.
Cá em casa o teu quarto mantém-se como quando tu o habitavas. E os “santinhos” e demais “coisinhas” que foram tuas continuam na cómoda do quarto algumas, outras na estante do meu escritório a fazerem-me companhia.
É, acho eu, uma forma singela de te sentir ainda próxima de mim.
Um dia vou conseguir diluir um pouco mais este sentimento de perda. Será talvez apenas uma questão de tempo. Mas ainda não consegui. Até um dia, Mãe. Voltaremos a estar juntos, mas dessa vez vai ser para sempre...
(Foto do dia do teu 85º aniversário)

Cada dia mais perto de ti, Mãe


***Florinda da Conceição Lourenço*** 
07. 10. 1926 / 28. 07. 2014 

- Se Deus atendesse um dia
Minha prece ingénua e doce
Quem fosse mãe não morria
Por mais velhinha que fosse.

domingo, 27 de julho de 2025

A vida é (mesmo) assim


 

Não culpemos o vento por ele ter tombado a jarra das flores quando fomos nós que abrimos a janela e o deixámos entrar. De igual modo não nos culpemos também por termos aberto a janela, pois não podíamos prever que ia vir o vento.

Na vida tudo acontece quando e como tem de acontecer. Nada consegue mudar isso. Por mais cuidadosos e prudentes que sejamos e por melhores que sejam as nossas intenções, jamais seremos capazes de prever o imprevisível.

Acreditar que as pessoas são como nós bem-intencionadas, é também absolutamente normal porque até prova em contrário todos somos confiáveis, dignos do crédito e do respeito de quem conosco convive ou priva.

Desde o berço fui assim moldado e todos os dias da minha vida dou graças por isso. A minha árvore genealógica é humilde de pergaminhos mas abastada de princípios e valores, dos mais básicos e simples de manter, aos mais elevados e difíceis de conservar.

Aprendi pelo permanente exemplo desses meus queridos mestres que a bondade, a honestidade, a educação e o respeito de uns para com os outos são invioláveis, porque cada um deles encerra em si a multiplicação de todos os outros.

E juntos promovem a dignidade humana que é devida e merece cada um de nós.

Infelizmente ao longo do meu já extenso caminho fui conhecendo de tudo um pouco. Do melhor e do pior. Do melhor foi, felizmente, a parte maior. Do pior, apesar de ter sido a menor parte, foi infelizmente aquela que me mostrou a cor mais negra da alma humana.

Não vou, porque não sou de lamechices, mencionar seja o que for. Está tudo arrumado no sótão da minha memória e disso só deixei alguns marcadores para quando necessito reaprender a superar a dor quando voltam a acontecer.

Claro que voltam e continuam a repetir-se. Mais do que deveriam com novos e cada vez mais letrados protagonistas. Mas a sua cor, amargor e a deceção que causam são iguais, ou ainda mais acentuadas.

Os diplomas catedráticos não conseguem cultivar mentes que já nasceram perversas.

E não há como evitá-lo, porque nem é possível mudar a maneira de ser de cada pessoa, nem a tal bondade, educação e respeito invioláveis conseguem reproduzir-se no coração de quem nasce torto e tarde ou nunca se endireita.

Não é também, de todo, defeito das sementes.

É mesmo a aridez dessas almas que não as deixa nascer e muito menos reproduzir. Apesar de ter disso consciência, nunca deixarei de lutar por um mundo melhor e mais justo.

Não são muito vastas as minhas capacidades, mas são verdadeiras.

Iguais às daqueles a quem as agradeço.

 

José Coelho

Foto Maria Coelho

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Quando Vos invoco, sempre me atendeis, Senhor

SALMO RESPONSORIAL DO XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Aprendendo a deixar ir


A nossa vida muda com a idade. Deixamos de aceitar conflitos e de dar explicações seja a quem for.

Optamos por rodear-nos de cada vez menos pessoas, começamos a eleger o silêncio e a escolher a ausência para nos dedicarmos apenas ao que nos concede paz.

Começamos a ver as coisas como elas são e cada vez menos como parecem, a preservar o melhor de nós só para quem nos conhece e estima.

Aprendemos a ficar calados e a abrir mão de muitas coisas, a selecionar o útil e o fútil porque tudo o que é inútil deixa de nos importar.

Livramo-nos de muitas coisas: palavras, pessoas e objetos para ficarmos apenas com o que nos torna melhores.

Em resumo aprendemos a deixar ir o que tem de ir e a aceitar o que veio para ficar.


José Coelho  (Texto e foto)

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Porque não há volta a dar

A Estação da Beirã em visível declínio de conservação a 23 de julho 2025

Desde que me conheço sigo e procuro cumprir os bons preceitos e comportamentos que me foram ensinados. Incansavelmente. Por isso me sinto também no direito de não aceitar e contestar aquilo que não consigo perceber. Há muito que me esforço por compreender as respostas e sinais de tudo o que me rodeia. Mas também a ausência deles. Poderia descrever um cento dessas manifestações na primeira pessoa, só que provavelmente vós não as iríeis entender como eu as entendi e iríeis entender outra coisa qualquer ditada pelo vosso raciocínio. O que para mim, à luz das minhas crenças, pode ter sido um sinal, para vós pode ser visto apenas como mera coincidência ou casualidade. 

E há que respeitar todas as opiniões.

Sei, tenho consciência plena que sou a mais imperfeita das criaturas. Mas sei também com toda a certeza que dentro das minhas humanas limitações e inúmeras imperfeições sempre tentei – e acho que tenho conseguido – pautar cada dia da minha vida pelo caminho do bem, da honestidade, da lisura de carácter, do não fazer a ninguém aquilo que não quero que me façam a mim.

Daí que me desiluda e fique revoltado algumas vezes quando vejo ou sou alvo de injustiças, faltas de honestidade, de carácter, de sujos e inexplicáveis esquemas que têm como objetivo único prejudicar, denegrir, enxovalhar ou tirar proveitos indevidos. E é nessas ocasiões que não percebo e me questiono zangado:   

- Porquê? 

- Se eu não o faço essas merdas a ninguém, porque m'as fazem a mim? 

É verdade que frequentemente todos somos postos à prova e temos de ter a capacidade de aceitar, mesmo o que nos fere e magoa. Porém, uma coisa é termos que irremediavelmente aceitar o que vem, outra coisa muito diferente é sermos capazes de o entender.

E as perguntas surgem do nosso íntimo em catadupa:

- Porque há tantas coisas ruins neste mundo que diz a Bíblia, Deus criou? Doenças incuráveis, guerras, atentados, refugiados, fome, sofrimento humano indescritível onde os mais atingidos são sempre os mais indefesos, mulheres, velhos e crianças inocentes?

- Porque há milhões de ricos a nadar em abundância num absoluto contraste com outros tantos milhões de infelizes que nada têm nem sequer para comer?

- Porque existe corrupção, cobardia, oportunismo, deslealdade e ganância humana?

- Porque... 

- Porque... 

Sofro com o declínio irreversível da minha terra e percebo tarde demais que tomei a decisão mais errada da minha vida ao voltar para cá. Muitos conterrâneos tiveram de ir-se embora porque tal como eu precisaram procurar outros destinos em busca do sustento para si e para os seus. Mas naturalmente por lá foram ficando e não mais voltaram. Deixaram por cá os seus idosos, mas à medida que eles se foram finando as casas foram ficando desabitadas. Nem sequer a interesseira "moda" de agora se transformarem algumas delas em Alojamentos Locais, versus "mini-hotéis" turísticos que a pandemia Covid 19 impulsionou, irá trazer o desenvolvimento que definitivamente se evaporou.  

As pragas ruins são por norma irreversíveis. Por isso não há cura científica para esta variante de cancro que dá por nome "desertificação" e se propaga por toda a Freguesia da Beirã, prossegue por todo o Concelho de Marvão e Distrito de Portalegre, continua depois pelo Alto e Baixo Alentejo para se juntar a todo o interior de Portugal desde Bragança a Vila Real de Santo António, perante a indiferença negligente de quem governa e só se preocupa com o bem-estar dos habitantes das grandes metrópoles eleitorais onde se conseguem os muitos votos que dão acesso aos dourados “tachos” e mordomias do poder.

Cancro.

Disse bem.

Maligno.

Incurável como o que levou o querido Amigo e Pároco Luís Ribeiro, uma perda tão inesperada para mim que passados alguns anos ainda não consegui digeri-la. Com ele se foi também a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo que desde então tem vindo lentamente a caminhar para a extinção.

Vivo hoje um dia de cada vez sem acreditar em nada já, sem esperar também muito mais do que aquilo que me rodeia e entristece. Até a vigorosa fé que sempre foi a minha principal fonte de força vou perdendo aos poucos.

Porque não há volta a dar vou também desistindo, perdendo o alento e deixando cair os braços. Sem apelo nem agravo.

José Coelho  

(Texto e foto)

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Basta querermos


Há tantas coisas boas neste mundo que somos capazes de ser, se quisermos. O abraço que acalma, a palavra que ajuda, o gesto que cura ou a luz que ilumina o caminho escuro de alguém.

Para isso basta que saibamos ser presença que inspira, esperança que renova, amor que tudo transforma e paz que permanece. Porque é tudo isso que nos faz verdadeiramente humanos.

_______ Texto e foto

Alentejo - Comeres e saberes

Gaspacho 

Açorda com poejos ou coentros, azeite, alho, sal, água a ferver e um ovo

Batatas de salada

O gaspacho e a açorda são irmãos, mas um é confecionado com água fresca e a outra com água a ferver. O gaspacho leva pão cortado em cubos, alho e poejo pisados com sal, vinagre e legumes frescos da horta - tomate, pimento verde, cebola e pepino, além do azeite. Normalmente acompanha-se com azeitonas de salmoura curtidas no pote de barro. Já a sua irmã açorda tem por temperos o azeite, um ramo de poejos ou de coentros pisados com alho e sal, pão cortado em cubos e água a ferver onde se escalfa sempre um ovo por cada comensal para a tornar mais nutritiva.

As "batatas de salada" são apenas primas-irmãs das outras duas iguarias porque em vez de pão cortado em cubos são feitas com batatas cozidas inteiras com a pele em água e sal que depois de cozidas serão peladas e cortadas em rodelas finas, adicionando-se-lhes tomate, pimento e cebola em pedacinhos, mais umas folhas de alface finamente migadas. Em parceria com o gaspacho é comida de verão e têm em comum a adição de vinagre para além do azeite e a água fresca que dantes se ia buscar às fontes, noras ou poços existentes um pouco por toda a parte, mas que hoje vamos comodamente buscar ao frigorífico. Há até quem goste de juntar alguns cubos de gelo. Eu não gosto de o fazer porque a água gelada em demasia faz coalhar o azeite e fica desagradável.

Foram estas três humildes comidas inventadas pelos camponeses do Alentejo que pouco mais tinham por onde escolher, mas tinham de sobreviver. Com o possível. Pão, água, ervas aromáticas, um toque de azeite e vinagre. Estou ainda convicto que a principal finalidade do gaspacho e das batatas de salada para além de saciarem a fome, seria também a de refrescarem os corpos suados, ajudando na sua agradável frescura a combater a canícula que se fazia sentir no meio das searas onde se ceifava o pão, pelas tapadas onde o mato era limpo à força de braços com enxadões na preparação das terras para as sementeiras do outono seguinte, ou pelos prados onde se gadanhava feno para encher os palheiros com as forragens dos gados para o inverno. Não havia máquinas para coisa nenhuma e as mil e uma tarefas agrícolas eram feitas por ganhões ou jornaleiros a par das mulheres sachadeiras, ceifeiras e mondadeiras, por conta dos senhores das terras. 

Em Espanha, aqui mesmo ao lado, todos os ingredientes do gaspacho são depois triturados e fica apenas uma caldeta meio espessa que pode até beber-se a copo. Mas no Alentejo fica tudo inteiro e sólido para abastecer o estômago porque para os alentejanos é um almoço e não um refresco gourmet. Por seu lado a açorda é uma comida muito mais aconchegante para os frios do inverno, pese embora seja atualmente servida também no verão nas festas e romarias porque parece ter virado moda aquilo que foi criado pela mais absoluta necessidade de sobrevivência dos nossos antepassados. 

Cá em casa esses "comeres" são sempre confecionados e servidos com a devoção e o respeito que lhes é devido. Talvez com mais devoção e respeito do que um arroz de marisco ou um belo bife do lombo. Porque eu não esqueci, não esqueço nem vou nunca querer esquecer a minha humilde origem. Pelo contrário. Ela é... O meu mais valioso e respeitado património.

José Coelho
(Texto e fotos)

É quanto me basta


Que nunca me falte a estrada que me trouxe até aqui, a força que sempre me levantou, o amor que me humaniza, a razão que me equilibra e a paz interior que me deixa dormir tranquilo.

Foto José Coelho

terça-feira, 22 de julho de 2025

O tempo de fora e o tempo de dentro


Todos envelhecemos, mas nem todos da mesma maneira.
A uns, envelhecem os olhos; a outros, envelhece o olhar.
A uns, envelhece a boca; a outros, envelhece o beijo.
A uns, envelhece o pescoço; a outros, envelhece o colo.
A uns, envelhece a memória; a outros, envelhece o sonho.
A uns, envelhece o corpo; a outros, envelhece a alma.
O tempo de fora é o tempo de vida; o tempo de dentro é a vida do tempo.

Elisabete Bárbara

__julho 2025