segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O que mais necessitamos é união


No dia seis de julho do corrente ano após a Eucaristia Vespertina do XIV Domingo do Tempo Comum fiquei, como quase todos os sábados depois da missa, a trocar algumas impressões com o nosso Pároco acerca dos preparativos para a Solenidade da Padroeira da Beirã Senhora do Carmo, que iria realizar-se dali a dez dias. Entre outras coisas informou-me também o reverendo pároco que a TVI iria no dia oito de setembro transmitir em direto a Solene Eucaristia de Nossa Senhora da Estrela, também ela Padroeira, mas do Concelho de Marvão, pelo que era preciso organizar um coro que ele gostaria fosse composto com pessoas das que fazem parte dos coros de todas os paróquias do Concelho.

Na qualidade de orientador do minúsculo coro da Paróquia da Beirã, imediatamente inquiri as senhoras que dele fazem parte e ainda ali se encontravam, as quais imediatamente se disponibilizaram a colaborar, pelo que tomei nota dos seus nomes e informei o sacerdote ao que ele respondeu:

- Nove elementos para começar não é nada mau, vamos acreditar que as outras três paróquias adiram com o mesmo entusiasmo. Irei falar com as pessoas e publicar também na folha paroquial semanal. Entretanto vá selecionando alguns cânticos para se começar a ensaiar logo na semana a seguir à Festa da Senhora do Carmo, porque é praticamente logo um mês depois.

Sempre disponível para tudo aquilo que seja necessário e me for solicitado, assim aconteceu uma vez mais. Atrevi-me ainda a sugerir ao Revº Padre o contacto com um dos paroquianos da nossa paróquia exímio músico em piano, ao que o sacerdote se disponibilizou e conseguiu que viesse. Fez toda a diferença.

No Dia Maior da Beirã, o da Padroeira, foi a igreja a abarrotar de devotos quer na sempre emotiva Eucaristia Solene do meio dia, quer depois à noite na procissão das velas com a Senhora a percorrer em ombros as duas ruas principais da aldeia, apesar de ser terça-feira e dia de trabalho. E tal como se havia falado no dia seis de julho, logo na semana a seguir convocou-se a primeira reunião para as pessoas dos coros paroquiais que estivessem dispostas a fazer parte do que iria animar a da Senhora da Estrela no dia oito de setembro.

Compareceu um surpreendente grupo de vinte pessoas oriundas de três paróquias, com indicação de mais umas quantas que se haviam inscrito mas que naquele dia por motivos vários não puderam comparecer. Mas estariam nos ensaios seguintes a perfazerem uma presença total de trinta pessoas disponíveis e muito empenhadas, na medida em que os ensaios foram todos no Convento de Nossa Senhora da Estrela em Marvão afim de podermos adaptar-nos melhor à sonoridade do templo. Mais louvável ainda, cada participante que generosamente compareceu fez-se transportar nas suas viaturas a expensas próprias.

Tudo preparado ao pormenor com a devoção e empenho de sempre, soubemos poucos dias antes da Festa do Concelho que a TVI não iria estar presente. Motivo? Não faço, ou melhor, não fazemos ideia. Ninguém se importou minimamente com isso. A TVI ou qualquer outra estação de televisão nunca foram nem nunca serão a razão desta Celebração anual. O nosso empenho, há muitas décadas, tem por razão única a devoção de todo o Concelho de Marvão à sua Senhora d'Estrela. 

Nós estivemos lá este ano, como estivemos sempre. 

E querem que vos diga mais? 

No silêncio da Consagração Eucarística agradeci intimamente a Nossa Senhora ter-nos unido mais uma vez em seu redor. Porque não sei, ninguém sabe, se para o ano lá estaremos. E da maneira que anda o mundo, com tantos ódios, tantas guerras, tantos inocentes a sofrerem e a morrerem sem culpa alguma, do que todos mais necessitamos mesmo é de muita união, de muita paz e de nos conseguirmos entender melhor uns com os outros.

Provavelmente o empenho do nosso estimado Pároco em formar este coro multiparoquial com gente de todos os coros das paróquias do concelho tinha muito mais a ver com aproximar-nos e unir-nos uns aos outros, do que com o mediatismo televisivo que só se preocupa também com as suas guerras diárias das audiências... dos shares... do eu sou melhor que tu! 

Querem lá os seus acionistas saber de Marvão, da Senhora da Estrela ou dos Marvanenses...

José Coelho
Texto e foto

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Fiquem bem

A paz que existe no silêncio


Sou, sempre fui, um pouco dado à solidão, talvez em consequência da uma precária meninice onde quase tudo faltava menos o amor familiar, sem direito à adolescência que foi substituída pela promoção precoce a adulto com onze anos, idade em que comecei a trabalhar. Assalariado pelo meu pai ao mês, com um ordenado de cento e cinquenta escudos. Cinco escudos por dia, sem direito a qualquer folga mensal porque as ovelhas que guardava também precisavam de comer aos domingos e porque cada centavo ganho era necessário para ajudar no sustento da casa e não havia margem para mais nada.

Nunca tive brinquedos nem aprendi sequer a andar de bicicleta porque nunca tive nenhuma. E ninguém alguma vez me ouviu queixar, assim como nunca tive inveja ou me senti menos gente do que aqueles meus amigos a quem não faltava quase nada por terem pais Ferroviários, Guardas Fiscais, da Pide, Funcionários da alfândega, ou Despachantes oficiais com ordenados certos que nada tinham a ver com as precárias jornas dos trabalhadores do campo como nós.
Um dia ou uma semana de chuva sem se poder ir trabalhar, era um dia ou uma semana sem se receber depois a jorna. Mas a sopa e o pão tinham que se por na mesa para alimentar as famílias quer chovesse ou fizesse sol. Valia-nos a confiança dos merceeiros de então – em paz descansem – que nunca negavam o avio semanal às donas de casa porque sabiam que logo que recebessem o pagamento do seu trabalho iriam pagar o que lhes deviam.
Distante já desses tempos, a minha vida foi felizmente evoluindo para melhor, mas não sem muita luta, pois foi bastante dura e difícil de vencer até aqui chegar. Tinha onze anos como já escrevi quando o meu pai me promoveu a adulto. Nunca fiquei com um só centavo sequer, do meu modesto ordenado. Em vez de fazer como faziam alguns dos meus amigos que ficavam com tudo o que ganhavam, eu entregava-o feliz à minha mãe porque sabia que era uma ajuda, ainda que pequenina, para as inúmeras necessidades do governo da casa onde éramos seis à mesa a todas as refeições, quando não aparecia mais alguma visita.
Ajudá-la foi sempre a minha prioridade. Ela gostou sempre muito de mim, mas eu gostei também, toda a minha vida, muito dela.
Era absolutamente recíproco.
Cedo percebi, sem que ninguém tivesse de mo explicar, que não podia ir com os rapazes da minha idade para as farras e petiscos aos domingos ou dias de festa. Talvez por isso mesmo muito cedo o fascínio pelos livros tomou conta de mim. Primeiro as histórias infantis assim que aprendi a ler, depois já rapazote as aventuras dos cow-boys como o Billy the Kid que alguns amigos me emprestavam, e por fim, milagre dos milagres, da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian que começou a vir todos os meses à Beirã e emprestava logo três livros de cada vez, à escolha do leitor.
Aí começaram as minhas mais emocionantes aventuras. Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da terra, A Ilha misteriosa do Júlio Verne, com centenas de páginas, Guerra e Paz de Tolstoi, Os Miseráveis de Vitor Hugo, Retrato de uma Senhora, O Monte dos vendavais, Camilo, Herculano, Camões, Junqueiro, Garret, e mais, mais, muitos mais autores de centos de livros que literalmente "devorava" na ânsia de conhecer, de aprender, mas, se calhar também, de me evadir um pouco do meu mundo real e das suas incontáveis dificuldades.
Namorisquei a partir dos treze anos por aqui ou por acoli e ofereci-me voluntário para o serviço militar tão novinho que ainda quase nem sequer tinha barba. Essa ousadia levou-me para a guerra em Angola onde me tornei ainda mais saudoso da paz e do sossego das minhas paisagens alentejanas. A seguir, como se a guerra não tivesse sido suficiente, fui comer pó de pedra a três mil metros de profundidade nas galerias das Minas da Panasqueira pelos contrafortes da Serra da Estrela, na Beira Baixa.
Casei e finalmente alistei-me nas fileiras da GNR onde afincadamente estudei para poder me candidatar-me aos cursos de promoção, primeiro a cabo, depois a sargento.
E consegui.
Não é de todo possível no entanto, passar por tantas e tão sucessivas dificuldades uma vida quase inteira, sem se ficar marcado para sempre. Se cada dificuldade vencida deixou no meu coração um sabor agridoce de conquista, deixou também em simultâneo uma amarga perplexidade de algumas inexplicáveis injustiças.
E uma infindável lista de porquês:
- Porquê tudo aquilo?
- Porque teve de ser assim?
- E… Porquê a mim?
Nunca encontrei as respostas, as razões ou os motivos.
E aqui continuo a procurar na solidão e no silêncio destes campos onde nasci, cresci e me fiz gente, a paz e a harmonia que a vida nunca me facilitou gratuitamente. Porque ficaram, para sempre, coisas que doem, magoam e entristecem.

Texto e foto

Lugares míticos da minha mocidade

Fonte da Murta em 04. 09. 2024
Vídeo José Coelho

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Testemunhos inquestionáveis de uma vida feliz

a) Ruínas da Caseta do Maxial do lado direito do Ramal de Cáceres

b) Cerejeira em flor na horta da Caseta do Maxial

Ainda é verão pelo menos por mais uns dias. E como o tempo já não é o que era, vai vir ainda com toda a certeza mais calor por outubro dentro, quiçá até depois dos Santos. A vindima está feita porque as elevadas temperaturas queimaram as folhas das parreiras e cozeram as uvas em crescimento e maturação, deixando-as de tal jeito que 90% foram diretamente das parreiras para o contentor do lixo. Figos já não temos de nossa produção porque a figueira pingo de mel que durante seis décadas deu camadas atrás de camadas e cada uma mais doce e suculenta que a anterior, teve de ser abatida por estar a forçar a parede que divide o nosso quintal da Tapada da Rabela e já estava a rebentar.

Esta é a melhor época do ano em questão de fartura pelas hortas e pomares que infelizmente já rareiam. Seguramente as poucas árvores de fruto que têm resistindo ao tempo e ao abandono irão sucumbir definitivamente com estes tórridos verões cada ano mais agressivos, e, consequentemente, à falta de humidade no ar e nos solos que lhes matem a sede.

Esta época é também aquela em que eu me desculpo a mim próprio conjeturando que o doce da fruta não é tão prejudicial à saúde como o do açúcar refinado. Como diz o ditado, morra Marta, morra farta! Por isso, cada vez que passo por qualquer árvore com frutos maduros, em vez de três, colho seis! Até os sacanas dos figos-chumbos cheios de incómodos picos são de comer e chorar por mais.

Viver numa aldeia deste Alentejo profundo que só é visitado pela malta do poder de 4 em 4 anos - vocês sabem porquê - tem muitas limitações e inconvenientes, mas tem também - por enquanto - algumas vantagens, como, por exemplo, a de se poder comer ainda assim a fruta diretamente da árvore sem qualquer perigo de contaminação por químicos. Quando muito, haverá a possibilidade de o fruto conter algum "marisco" hospedeiro que também precisa de se alimentar, porque, tal como nós, também tem direito à vida.

Mas como dizia o meu avô Zé Lourenço, "mal do bicho que vai para a barriga de outro".

Caminho muito pelos campos ao redor da minha Beirã e sei exatamente onde ficam as hortas de antigamente e onde continuam a lutar valentemente pela sua sobrevivência muitas velhinhas árvores de fruto plantadas pela mão de gente boa que conheci e frequentemente recordo com saudade. Uma dessas pessoas foi o meu Pai, exímio hortelão e tudo o que plantava se reproduzia fartamente.

No Cancho de Ruivo há ainda duas ou três pereiras e macieiras, parreiras moscatel e figueiras de várias espécies que são mais velhas do que eu. Lá continuam a lutar contra as silvas que as tentam sufocar e a dar frutos, ano após ano. Pelas margens do ribeiro da Cavalinha já não se vislumbra a terra das hortas cobertas de mat, mas em muitos locais ainda podem ver-se videiras a treparem em busca dos raios do sol, pereiras, figueiras, nogueiras e macieiras.

Junto às Casetas da via-férrea do velhinho Ramal de Cáceres, como por exemplo na do Maxial que já nem telhado tem, lá continuam as cerejeiras de pé, a dar flor e fruto cada primavera, marmeleiros e pereiras, mesmo enleadas nas silvas assassinas. Mais admirável ainda é a resiliência de algumas flores plantadas pelas mãos das mulheres, esposas e mães d'outrora, pois até essas continuam a vencer o tempo e a florir primavera após primavera, recusando-se a morrer.

Cercada de roseiras em flor de várias espécies, a esventrada casa que foi morada de quem cuidava diariamente da manutenção da linha ferroviária, transforma-se num tão admirável como bucólico quadro quando exibe simultaneamente as ruínas da casa em contraste absolutamente oposto ao da vida e beleza de todas aquelas roseiras floridas que lutam pela vida e exalam o seu inigualável perfume, completamente indiferentes ao abandono a que foram votadas.

Mas não é só no Maxial que se desenrola esse milagre da vida. Também no antigo jardim da casa da minha avó Amélia junto à passagem de nível da Cavalinha as açucenas que ela plantou há cinquenta anos continuam a nascer, a crescer e a florir a cada primavera. Vou lá sempre visitá-las. Acaricio-as com os olhos e com as mãos como se nelas permanecessem ainda as santas mãos de quem as plantou e eu amava tanto.

Como é possível que uma planta aparentemente tão frágil não morra sem ser regada sob tantos verões inclementes, no meio do matagal que cerca quase sempre a casa? Já por várias vezes falámos, eu e a minha companheira, em trazermos uns tubérculos para replantar num canteiro do nosso quintal. Mas ainda nunca o fizemos porque no nosso íntimo sabemos que não seria a mesma coisa. Aquelas é que são obra das amadas mãos da Avó Amélia da Conceição de Brito.

Quaisquer outras seriam apenas uma imitação sem sentido e sem o mesmo valor sentimental. É naturalmente uma fantasia nascida da saudade imensa que muitas vezes me atormenta o espírito, mas simbolicamente, as suas resilientes açucenas são a visita possível que ela me vem fazer cada ano.

Mas...

A melancolia tomou de novo as rédeas dos meus sentires!

Desculpem.

José Coelho - Texto e fotos

Cidade Romana Ammaia em Marvão

Foto José Coelho

Coordenado pela universidade de Évora, o Projecto Radio-Past permitiu reconstituir digitalmente o perímetro da cidade, os arruamentos principais e sugerir volumetrias de alguns dos principais edifícios e foi possível fazê-lo com apenas 1% de Ammaia escavado. Projecto Radio-Past. Ilustração de Michael Klein 7reasons Medien Gmbh. Coordenação: Cristina Corsi (Universidade De Évora)


Foto José Coelho