terça-feira, 11 de julho de 2023

Minha Mãe

Foto Pedro Coelho - 11.07. 2018

Minha mãe, minha mãe! Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava, orando ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se, voando em torno dos seus lares,
suspensos do beiral da casa onde eu nasci.

Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu.

E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço
vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço
eu balbuciava minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão.

Guerra Junqueiro

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Tuna Sénior de Marvão


"Poucas coisas na vida são tão gratificantes como deitar a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila, porque esse é um privilégio das pessoas que não têm nada a esconder." 

- Luiza Flecher.

 

No próximo dia 16 de julho de 2023 a Tuna Sénior de Marvão irá pela primeira vez tomar parte na Solene Eucaristia em Honra Nossa Senhora do Carmo – Padroeira da Beirã que este ano celebrará simultaneamente o 80º aniversário da inauguração da Igreja e o 70º aniversário da sua elevação a Paróquia.

 

Sou Marvanense – ou Marvanejo como muito bem canta o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Santo António das Areias – e sinto um particular orgulho em fazer parte deste grupo de pessoas dispostas a dar o seu melhor pelas boas causas, mesmo sabendo que há quem se oponha ou critique.

 

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” - diz o ditado popular:

 

- Se Deus quer, não o podemos ver.

- Se o homem sonha, também não é possível observar-se a olho nu.

 

Mas o que não pode de todo ser invisível aos olhos de ninguém é o empenho e a generosidade das 36 pessoas – 30 senhoras e 6 cavalheiros – que fazem parte da Tuna Sénior de Marvão orientada pelo Professor Carlos Vilhalva e oriundas de todas as freguesias do Concelho que, saindo da sua zona de conforto – alguns a expensas suas – se dispõem a contribuir na dignificação do Dia Maior de cada Comunidade Paroquial deste Concelho que o solicita, após obtida a concordância e respetiva orientação do Rev. Pároco que as irá presidir.

 

Não é tarefa fácil porque se da Tuna fazem parte algumas pessoas que simultaneamente fazem parte dos coros paroquiais e têm alguns conhecimentos desses desempenhos, outras pessoas há também que do mesmo não têm qualquer experiência. Porém, todas dão, de igual modo sempre, o seu melhor. Se ninguém é perfeito, também ninguém é melhor ou pior do que os outros.

 

Daí os inúmeros acertos nos sucessivos ensaios até à véspera da Celebração Eucarística, porque se é verdade que a sua importância é sempre a mesma, seja para uma dezena de fiéis ou seja para uma centena, não é menos verdade que a responsabilidade de quem a celebra e nela colabora, aumenta significativamente em proporção da quantidade de participantes.

 

Tomemos como exemplo de comparação uma Eucaristia na nossa pequena Paróquia com uma Eucaristia em Fátima. A importância é exatamente a mesma porque uma e a outra perpetuam Cristo na Última Ceia com os Doze Apóstolos, mas o peso da sua responsabilidade é completamente desproporcional.

 

São para mim dias e noites de particular desassossego porque sei as limitações que todos possuímos, a começar pelas minhas, assim como sei também qual é o meu lugar na vida. Não ando, nunca andei, em busca de protagonismos e é público o meu habitual recato no sossego da minha casa e no seio da minha família mês após mês, ano após ano. Jamais assumiria uma responsabilidade se não tivesse a firme convicção de que seremos capazes.

 

A confirmá-lo, pensemos apenas no que já fizemos juntos e o quanto valeu a pena.

 

Profundamente grato e pedindo desculpa se alguma coisa digo ou faço que mesmo sem essa intenção possa ser interpretada como menos correta, reitero o meu orgulho em fazer parte da Tuna Sénior de Marvão e também de ser Marvanejo.

 

 

10 de julho 2023

José Coelho


Foto António Gil

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Enquanto viver

Foto José Coelho

Passo a maior parte dos meus dias sossegado em casa naquela que foi, por decisão do meu pai há já mais de setenta anos, a primeira construção a dar forma à rua que mais tarde haveria de ser batizada com o nome de Fernando Namora.

Foi ele quem arrancou, à força dos seus braços, ajudado apenas pela alavanca de ferro e pela picareta de aço, os canchos enormes que aqui havia e depois moldou a guilho e a martelão cada bloco da pedra que Mestre Caldeira, dos Barretos, pedreiro de fama à época, haveria de utilizar para erguerem as paredes.

Envolto na serenidade e paz do lugar, estar aqui é para mim um duplo aconchego. Pouca gente compreende isso mas o importante é aquilo que eu sinto e não o que os outros pensem. O silêncio que me rodeia é abençoado por uma vida inteira de muitas e boas recordações, qual aguarela de pintor enriquecida pelas cores da sua paleta de tintas.

É tão fácil para mim "ouvir" e "sentir" ainda o bulício da casa de outrora. O riso sempre pronto da minha mãe ou o tom tranquilo da voz grave do meu pai. No inverno à lareira a ouvir o bater da chuva nas vidraças e no telhado, o vento frio a uivar lá fora e nós quentinhos em volta do lume. E no verão, depois da ceia, todos sentados à porta na rua, em amena conversa com a vizinhança até às tantas, naqueles convívios bonitos de quase família também. 

A vida era muito difícil de verdade, mas antigamente as pessoas eram tão mais honestas, tão mais amigas umas das outras, tão mais humildes, humanas e solidárias, na verdadeira acepção dessas palavras que agora se proclamam aos quatro ventos mas quase ninguém conhece ou pratica verdadeiramente.

O tempo voou e tudo mudou. 

Crescemos, voámos também nós deste acolhedor ninho e vieram os nossos filhos que os avós adoravam e aconchegavam a si como nos tinham aconchegado a nós, quiçá até mais do que a nós. Os seus primeiros risos, os seus primeiros passos, o balbuciar das suas primeiras palavras, tudo se repetiu sob o mesmo teto da mesma casinha em que nós seus pais o havíamos já praticado também, apesar de então ser minúscula no tamanho mas tão grande nos afetos.

Passei depois a proprietário por expresso empenho do meu pai. E nela passámos a habitar três ramos da mesma árvore. A matriarca Avó Amélia, os patriarcas António e Florinda, e nós. Tive de ampliar o espaço de modo a ficarmos todos comodamente instalados mas a pequena casinha de quatro divisões ficou intacta dentro da maior e passou a chamar-se Toca dos Coelhos e cresceu imenso para os lados e para cima.

Mas as paredes que me viram nascer ficaram intactas e as pedras que o meu pai moldou à força dos seus braços ficaram onde ele quis que ficassem. São sagradas para mim. Foi entre elas que ele partiu e eu lhe cerrei as pálpebras ainda quentes na madrugada do dia 23 de Janeiro de 1994. Em paz, tranquilamente, no seu pequeno quarto, na cama e na casa que nunca deixaram de ser também suas.

É por essas e por muitas outras razões que a Toca dos Coelhos tem para mim o valor de um santuário. Enquanto viver aqui se manterão religiosamente guardadas as memórias mais ternas dos meus pais e avós, das minhas irmãs, dos meus filhos e – como não hei-de estar a ficar velho – também já das minhas netinhas...


José Coelho

Tesouros esquecidos da minha Beirã

Praticamente ainda intacto, o Chafurdão da Meirinha

Alçado poente e zona envolvente

Estrutura em círculo perfeito de sólido granito

A porta e acesso único do e para o interior com abertura superior
para entrada de ar e possível vigia para o exterior

A porta vista de dentro para fora. O interior é composto por uma só divisão. 
Ao centro o lume de chão para aquecer e cozinhar. O restante espaço 
envolvente para estar, comer e dormir

As paredes e abóbada interiores foram calafetadas 
meticulosamente com argamassa de barro 


E nelas existem "pilheiras" ou "cantareiras" para colocar as candeias 
ou acomodar outros utensílios.

E bem ao centro da cobertura...

...a bem concebida chaminé a céu aberto para a saída do fumo
sem permitir a entrada da chuva!


A abóbada, de uma perfeição extraordinária, foi fechada com enormes lajes de granito das redondezas sobrepostas umas sobre as outras em degrau e foram depois cobertas por uma grossa camada de terra para impermeabilizar a estrutura. À esquerda, do lado de fora, pode ainda ver-se uma pequena construção retangular que deduzo se destinaria aos animais domésticos. Já visitei muitas vezes esta ancestral construção e mesmo em pleno inverno com chuva abundante o seu interior apresenta-se sempre completamente seco sem o menor vestígio de qualquer infiltração ou humidade.

 Nota: - Todas as fotos são da minha autoria. 
José Coelho - Julho de 2018

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Início da Celebração do 80º Aniversário


Pagela original distribuída à população da Beirã no dia 16 de julho de 1943 que 
irei mostrar na Eucaristia da Padroeira 2023, a quem quiser vê-la de perto.


A todas as pessoas que possam estar interessadas em participar, informa-se que a Novena em Honra de Nossa Senhora do Carmo neste 80º Aniversário da Inauguração da Sua Igreja, tem início a partir do dia 7 de Julho pelas 21;00 horas que será o horário de todos os dias, com excepção do dia 9 de julho em que será recitado às 17;30, meia hora antes da Missa.

Obrigado.

José Coelho

Quase a chegar o Dia Maior