quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Bom dia!


No meu chão, entre as minhas árvores, na paz e tranquilidade dos meus dias!

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Amanhã fico triste. Hoje não.

Foto Pedro Coelho

Tenho setenta anos. Tinha apenas seis quando comecei a servir na igreja de Nossa Senhora do Carmo da Beirã, como acólito. Estávamos em 1958 e era pároco o Reverendo Joaquim Caetano, já falecido. Foi ele que me escolheu para ser um dos seus acólitos nesse ano, mal comecei a frequentar a escola e a catequese. Ensinou-me princípios e transmitiu-me valores tais que a ele devo também muito do que sou, quer na minha formação como pessoa, quer no carácter e integridade. Por tudo isso guardo por ele ainda hoje uma amizade, um respeito e uma consideração sem limites.

Mas voltemos um bocadinho atrás no tempo. Contava a minha falecida mãe que desde mui tenra idade eu desatava a correr rua abaixo mal ouvia tocar os sinos: 

- Zéi, mas aonde é que tu vais a correr? 

E que eu, eufórico, lhe respondia: 

- Vou à micha, mãe!  Vou à micha… 

Tinha que ser algo assim. Há de facto coisas inexplicáveis. Tudo indica que o meu fascínio pelo divino e pela Senhora do Carmo, começou logo na inocência da mais tenra idade.

Veio depois passados mais dois ou três anos o convite para acólito do padre Caetano que me tratava como a um filho. E porque a minha mãe não tinha posses para me comprar roupas finas para o ir acolitar, era ele quem comprava tecidos e mandava fazer as roupas domingueiras às costureiras que naquele tempo abundavam na aldeia. Calções e calças de terylene, camisas de popelina, casacas e blusões quentinhos. E comprava-me também sapatos na fábrica Ebro de Santo António das Areias, a única que por aqui existia nesse tempo, pois só alguns anos mais tarde foi construída a Celtex.

Não haverá já por cá muita gente que se recorde destas coisas e as que houver se calhar não vão ler estas minhas memórias porque ou serão já muito velhinhas ou provavelmente nem saberão ler nem escrever. Quem me conhece minimamente sabe, com toda a certeza, que não faço uso de mentiras, que sou frontal e digo sempre o que tenho a dizer cara a cara seja o que for e a quem for, além de que não faço também prática do detestável costume de andar a dar palmadinhas nas costas das pessoas fingindo amizade, para a seguir, quando se vão embora, ficar a cortar-lhes na casaca, como tanta gente faz e me tem feito a mim. 

É certo, porém, aquele velho ditado que diz: "Cada um só pode dar aquilo que tem". E cá continuo no meu tranquilo dia a dia completamente indiferente a todas essas ignomínias e falsidades. Por isso o que digo e escrevo é, por norma, a verdade, apenas a verdade e só a verdade. Sempre que tiver que dizer, seja o que for, mostro a cara, levanto a voz, falo sem medo e sem má-fé, dizendo tudo quanto tiver que ser dito. É assim que as coisas devem funcionar numa sociedade minimamente decente e bem formada. 

Pese embora a minha saúde ultimamente não tenha ajudado muito, tenho continuado a colaborar em tudo o que posso e sei como tenho feito desde que vim morar definitivamente para a Beirã em 1 de Novembro de 1992 e imediatamente me "alistei", com a minha esposa, quer no coro paroquial, quer como leitor e salmista até 1999. No ano 2000, 2001 e 2002, por indisponibilidade do então Conselho Económico Paroquial, foi-me solicitado pelos Revºs Párocos Tarcísio e Luís Ribeiro que tomasse temporariamente ao meu cuidado as contas da Paróquia até à nomeação oficial que só foi efetivada em 2003, a partir de quando integrei o Conselho Económico Paroquial oficialmente nomeado por Sua Eminência o Bispo da Diocese para tais funções e por mandatos sucessivos, até ao dia de hoje.

Tenho guardados em suporte informático e também em papel, todos os processos que justificam escrupulosamente cada cêntimo de receita, cada cêntimo de despesa, semanais, mensais e anuais, desde 2000. A contabilidade da igreja, das obras de restauro e conservação realizadas, dos donativos, da instalação do relógio e automatização dos sinos, da colocação das luzes LED, das despesas com vencimentos dos sacerdotes e todas as outras. Ao pormenor, limpinhas e fáceis de entender. Tudo pronto a entregar a quem de direito. E mais. Este cargo no CEP da Paróquia da Beirã, está, como sempre esteve, disponível todos os dias e a todas as horas, ao completo dispor de quem me escolheu e nomeou, prontíssimo a entregar a quem se oferecer para me substituir. É só chegar-se à frente quem o quiser e seja muito bem-vindo.

Sei que sempre cumpri as minhas obrigações com lealdade, dedicação, esforço e empenho. Sei também que nunca cobrei um cêntimo sequer por nada do que fiz. Ofereço, desde o já longínquo ano 2000, gratuitamente, os meus serviços e tempo, o meu computador, tinteiros e resmas de papel da impressora, o combustível do automóvel nas deslocações ao banco, às reuniões a Portalegre, a São Tiago, a Mem Soares, a Nisa, a Castelo de Vide, a Marvão e a muitas outras localidades onde os párocos me solicitaram que fosse. Sozinho, ou quando muito, acompanhado apenas e só pela minha esposa, a qual, por sua vez, cuida ainda também gratuitamente do asseio e arrumação da igreja e dos altares em conjunto com outras duas senhoras, para além de passar horas a conferir, a separar e a acondicionar as moedas dos ofertórios e das caixas que posteriormente eu vou depositar no banco e na conta da paróquia que está sempre em dia.

Paguei ainda do meu bolso o curso para ministro extraordinário da comunhão e para ministro da celebração da palavra na ausência do presbítero - MECDAP - o curso para aprofundamento da fé - CAF - que teve a duração de três anos letivos no Seminário de Portalegre, de muitas outras formações em Mem Soares, em Alcains, Abrantes e Proença-a-Nova. Deslocações, alimentação, combustíveis e pagamento individual de cada curso ou formação. Com que intenção? Única e exclusivamente formar-me minimamente para melhor conseguir colaborar em tudo o que me era proposto pelos párocos no serviço à comunidade paroquial a que pertenço e que, muitas vezes, em vez de reconhecer a minha disponibilidade, a criticaram e botaram abaixo. 

É mais que verdade que "na sua terra ninguém é profeta". Muitas vezes me senti triste e desmotivado por tudo isso. Muitas vezes também me apeteceu mandar tudo às malvas, ir-me até embora de cá. Mas a sempre reiterada confiança e sincera amizade dos párocos Tarcísio e Luís Ribeiro, aliada à minha fé e à forte convicção de missão e de serviço à comunidade a que pertenço, conseguiram superar sempre a vontade de desistir. 

Até quando? 

Neste preciso momento estou quase completamente desmotivado e afastado da Paróquia. Há mais de um ano que fico por casa limitando-me a fazer a contabilidade escrita mensal em conformidade com os registos semanais feitos pelas senhoras do CEP, após o que, em ato contínuo, vou depositar os valores na conta bancária da Paróquia, como sempre fiz. Entretanto e como escrevi no início, comecei nestas "andanças" com seis anos de idade. Estávamos, portanto, no Outono de 1958. Estamos no Outono de 2022. Passaram sessenta e quatro anos e continuo cá. Hoje só já não desato a correr pela rua abaixo quando ouço repicar o sino da igreja que ainda continua a ser o mesmo, mas as minhas pernas é que já não conseguem agora correr como corriam então. 

Hoje sinto-me triste. Provavelmente a melhor forma de ilustrar o meu estado de espírito talvez seja reescrever aquele poema encontrado na parede de um dos dormitórios para crianças no campo de extermínio nazi de Auschwitz:

“Amanhã fico triste… Amanhã!
Hoje não… Hoje fico alegre!
E todos os dias, por mais amargos que sejam, eu digo:
Amanhã fico triste, hoje não…”

Desculpem a seca, mas quando começo a escrever, perco-me no tempo.

José Coelho

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Coisas que escrevi



Foto Maria Coelho

Desde muito pequenininha, logo no início de 2012 quando chegou ao nosso colinho, que entre nós se estabeleceu uma empatia mútua, um carinho indisfarçável, uma cumplicidade deliciosa. As suas primeiras gargalhadas sonoras e repetidas uma série de vezes, foram provocadas por mim, na minha casa, num serão em família, na brincadeira os dois. Teria, não sei muito bem, meia dúzia de meses, pouco mais. O pai, estupefacto com a cena e o efeito, gravou, sem nós nos darmos conta, aquele momento num vídeo que ainda hoje nos faz rir a bom rir quando o revemos. Mas essa foi apenas uma das nossas primeiras aventuras. Depois desse dia já aconteceram muitos mais momentos de pura felicidade entre os dois.

Porque foi a primeira e tão desejada netinha? Talvez, não sei. É que, entretanto, já chegou também ao nosso colo, há pouco mais de um ano, a caçulinha Mariana, que, parece-me, é mais uma grande fã do vô Zé Coelho. Avô baboso dirão vocês. Vô babão diz a família do Brasil. E não me ofende nada tal juízo. Muito pelo contrário, pois adoro literalmente as minhas duas pequeninas. E se a Francisca é uma grande compincha do vô, a Mariana, ainda que mais bébézinha, não o é menos. Vem para o meu colo sem qualquer contrariedade. Conhece-me à légua, brinda-me com aqueles lindos sorrisos que tem sempre prontos e dorme grandessíssimas sestas se me sentir perto dela a guardar-lhe o soninho.

Não posso, porém, deixar de vos contar a mais recente prova de carinho que recebi há poucos dias da pipoquinha Francisca. Estávamos no meu carro, eu, ela e a avó Manuela em Montemor, à espera que chegassem os papás de quem tínhamos ido ao encontro a meio caminho, depois de ela ter vindo passar uns dias com os vôs "tudis". Primeiro fui o lobo mau na história do capuchinho vermelho - interpretado por ela na perfeição - e despoletando as tais sonoras gargalhadas quando eu imitava a voz do lobo "É p'ra te ver beeeeemmm!" quando ela me perguntava: "Avó, tens uns olhos tããão grandes?" Depois, o cenário mudou e passei a ser um fantasma, gemendo um "búúúúúú" muito sinistro, colocando sobre a cabeça uma fralda que faz de lençol da cama da boneca que ela traz sempre consigo. Resultado, mais meia dúzia de felizes gargalhadas. Não cabia em si de contente, feliz, divertida. Os condutores e passageiros que circulavam nos seus carros pela rua em frente, olhavam admirados o reboliço e agitação dentro daquele corsa estacionado no parque. Não podiam nem imaginar que tão pequeno palco estivesse a ser cenário de tão movimentadas aventuras...

Ligamos aos papás a saber se ainda demoravam. Já estão perto. A pequenita, entretanto, faz um lanchinho, que são horas. Miminho da avó Manuela, uma belíssima fatia de bolo de cenoura  - ou não fôssemos nós Coelhos - e dois iogurtes yoco de beber com palhinha. Satisfeita, notoriamente feliz, a dado momento a pequenita agarrou-me a mão direita e... beijou-ma várias vezes com um carinho tão puro, tão inocente e tão verdadeiro que se me encheram instantaneamente os olhos de lágrimas. Fiquei tão... tão... tão... Grato, feliz, comovido. A minha mão carinhosamente beijada por um dos dois anjos com que Deus abençoou este outono da minha vida. 

Há muitos, muitos anos atrás, também eu beijava assim as mãos dos meus avós para lhes pedir "a bença". Era obrigatório naquele tempo. Ao chegar junto deles pela primeira vez nesse dia, fosse onde fosse, tínhamos de dizer-lhes:

- A sua bença, avó/ avô. 

E imediatamente eles nos apresentavam a costa da sua mão direita para ali depositarmos um reverente beijinho ao mesmo tempo que eles murmuravam com doçura:

- Deus te abençoe, meu neto.

E eu amava-os assim, como as minhas netas parecem amar-me agora a mim. Bem dizem que, nesta vida, tudo quanto damos e fazemos nos será devolvido...

José Coelho
Setembro 2015

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Canção de Outono...



Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecília Meireles

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Bom fim de semana


O nosso painel de azulejos foi pintado à mão por encomenda, exclusivamente para embelezar esta parede da varanda do primeiro andar da Toca dos Coelhos.

- Setembro 2022