sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Quando um lugar deixa de ser o nosso

Não sou de muitas conversas. Em mim ecoa o silêncio sereno do meu pai, homem de poucas palavras, mas de muita presença. Cresci numa família modesta, envolta nas agruras partilhadas por quase todos na minha aldeia rural. A nossa vida era marcada pelo trabalho árduo, pelas madrugadas frias e pelos regressos noturnos à luz trémula de um candeeiro a petróleo, onde uma sopa caseira aquecia o corpo e reunia os nossos à volta da mesa.
Desde cedo, encontrei nas letras o meu refúgio. Nunca fui sozinho, pois um livro sempre me acompanhou no bornal, tornando-se o companheiro fiel nas horas de descanso. Ler tornou-se um vício saudável, uma paixão que me levou a devorar milhares de páginas ao longo dos anos. Hoje, enquanto saboreio "A história de um canalha" de Júlia Navarro, recordo que, apesar de evitar multidões e festas, nunca me senti isolado: um bom livro é, afinal, companhia maior do que se possa imaginar. Entrar nas histórias, viver outras vidas, sentir outras emoções, tudo isso me preencheu, muitas vezes mais do que a própria realidade.
Embora não seja solitário, aprecio profundamente a solidão voluntária. Sinto-a ao caminhar pelos campos da minha freguesia, ao ouvir o sussurrar da água dos regatos, ao sentar-me num cancho a contemplar horizontes, ou ao seguir as margens dos nossos ribeiros. Estes lugares, percorridos desde a infância, guardam ecos de tempos em que a aldeia era viva de crianças nas ruas, de vozes animadas, de casas cheias e do cheiro dos jantares a lenha.
Com o passar dos anos, a companhia mudou. Agora, caminho quase sempre ao lado da minha mulher, pois a idade recomenda prudência diante dos matos crescidos e dos silêncios cada vez mais profundos. Os trilhos que antes eram povoados, hoje são cenário de encontros fugazes com animais selvagens e um silêncio que ensurdece, tão denso que chega a doer.
Amo profundamente esta terra. Reconstruí aqui a casa onde nasci, crente de que seria o meu eterno refúgio. Contudo, a dor do regresso, depois de ausências breves, tornou-se um fardo. O que era alegria e pertença tornou-se tristeza e nostalgia. O silêncio, antes exclusivo dos campos, invadiu a aldeia e parece abafar tudo: as memórias, as esperanças, até a própria vontade de permanecer.
Hoje, encontro-me perante uma encruzilhada. Rendo-me ao tempo e resigno-me, esperando pelo inevitável? Ou escuto a razão, procuro outros lugares, outras gentes, em busca do que resta dos meus dias? O coração, porém, resiste: como deixar o lugar onde estão as minhas raízes, as minhas histórias, aquilo que me fez quem sou?
O tempo passa, monótono. Os livros, outrora tão vivos, já não aconchegam como antes. Falta-me não apenas a paz dos campos, mas o bulício da aldeia de outrora as luzes nas janelas, as vozes, os risos, o aroma a vida e o convívio. Percebo, finalmente, que o que me faz falta são as pessoas, a comunidade, os laços.
E honestamente reconheço: já não sou feliz aqui.
No fundo, há uma saudade funda, não só do passado, mas do próprio sentido de pertença e de alegria que um dia encontrei neste lugar. Fica por resolver a dúvida, entre o apego e a coragem de partir, entre o passado que já não existe e o futuro incerto. Talvez, como diria um poeta, “a maior viagem seja sempre para dentro de nós mesmos”.

Fé e tradição uma vida inteira

A Imaculada Conceição no seu altar, na Igreja Paroquial da Beirã. É sempre neste feriado, ano após ano, que a Toca dos Coelhos se veste de gala para o Natal. Começámos já hoje essa tradição, pese embora estejamos cá apenas dois habitantes.
Quem ainda trabalha teve este ano a sorte de o feriado se unir ao fim de semana e assim poder descansar três dias consecutivos. Para todos vós, Família & Amizades, votos de um tranquilo e feliz fim de semana prolongado.
Aproveitem a vida porque ela passa a correr, nunca volta atrás e quando damos conta, já passou. Por isso não deixem para amanhã nenhuma oportunidade de serem felizes, procurem sê-lo todos os dias...

Boas Festas


Presépio em miniatura da Toca dos Coelhos

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Reflexão de hoje


 

Agir com bondade sem olhar a quem e sem esperar retribuição, constitui a essência de uma vida digna. A generosidade genuína não se limita àqueles que nos são próximos; estende-se, de forma incondicional a todas as pessoas, independentemente das diferenças, pois é no gesto altruísta que reside o verdadeiro significado da humanidade.

Manter um sorriso perante as adversidades demonstra resiliência, sendo igualmente relevante respeitar as próprias emoções, não sentindo vergonha das lágrimas quando estas se revelam necessárias. As lágrimas traduzem sensibilidade e não fragilidade.

A humildade deve fundamentar todas as ações. Ser humilde, generoso, prestar auxílio e estender a mão a quem dela necessita são atitudes que definem o carácter. Ao longo da vida, inúmeros obstáculos surgirão, pelo que é fundamental persistir na superação dos mesmos. O cansaço, o desânimo e o preconceito podem ser adversários, mas não se deve permitir que assumam o controlo ou desviem do propósito estabelecido.

Defender os seus ideais revela integridade. As verdadeiras amizades são conquistadas através da autenticidade e não pelo esforço de corresponder às expectativas impostas por outrem. Saber vencer e saber perder são virtudes raramente encontradas; exigem maturidade e humildade para aceitar tanto o sucesso quanto o insucesso com igual dignidade.

Importa recordar que a vida de cada pessoa não é superior nem inferior à dos demais. Cada indivíduo trilha o seu próprio caminho, defronta os seus desafios e celebra as suas conquistas. Por esse motivo, nunca se deverá adotar uma postura de superioridade ou de inferioridade perante os outros. O respeito por nós próprios deve caminhar em paralelo com o respeito pelos outros.

Mesmo perante atitudes menos corretas ou perante a ingratidão, nunca deve perder-se a capacidade de amar. O amor é o alicerce da felicidade. É ele que cura, une, renova esperanças e mantém viva a chama da alegria nos momentos mais exigentes. É precisamente no amor e na capacidade de o preservar apesar das adversidades que reside o segredo para uma existência realizada e plena.

José Coelho

Foto Pedro Coelho

Amigos de uma vida inteira


Enviou-me um amigo que me estima desde o nosso tempo da escola,
a quem de coração agradeço e envio um fraterno abraço.

José Coelho

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Mulher, amiga, companheira


Arrumado o serviço por aquele dia rumei a casa acompanhado de outro camarada amigo, já que entre nós e as nossas famílias existia uma boa amizade. Talvez mais por isso e não para alimentar intrigas, mal nos afastámos um pouco do posto, começou por me dizer:

- Amigo Coelho vou dizer-lhe uma coisa mas você vai fazer de conta que não sabe. É mesmo só para você se por a pau com algumas pessoas que se fazem muito suas amigas, mas depois nas suas costas…

E continuou:

- É sobre a carteira perdida no mercado com mil escudos lá dentro que você levou para o posto.

- Quando chegou da patrulha não se apercebeu da conversa? Inquiriu.

- Sim, apercebi-me que estavam a falar nisso, mas não prestei atenção. Respondi.

- Pois! Esse nosso camarada estava a dizer que se calhar você combinou com a senhora para ir lá buscar a carteira e dizer que era dela para depois dividirem os mil escudos a meias. Mas você não diga nada…

Foi como se um raio me atingisse de súbito.

Não era possível que um energúmeno daqueles fosse capaz de descer tão baixo e acusar-me de uma coisa tão suja, achando-me capaz de algo tão desprezível. Logo um conterrâneo cujo pai fora, segundo ele mesmo contava, o mestre pedreiro construtor da casa do meu pai e até se gabava de a ter ajudado a construir por lá haver trabalhado...

Assim que fechei a porta da minha casa atrás das costas desatei num pranto incontrolável e profundo. Chorei como nunca me lembro de ter chorado em toda a minha vida. Chorei por aquela injusta e maldosa falsidade acabadinha de acontecer. Chorei por todos os enxovalhos que até ali sofrera desde a hora em que meti os pés na guarda republicana e chorei de indignação por nunca mais me ver livre de tantas injustiças e agressões maldosas.

Eu suportara melhor ou mais mal no alistamento tantas calúnias por serem falsas, concebidas por maldade e sem o menor fundamento. Mas chamarem-me desonesto, afirmarem que eu era capaz de “engendrar” um golpe sujo para ficar com… quinhentos escudos? Doía-me muito.

Não podendo imaginar nem pouco mais ou menos o que de tão grave pudesse ter sucedido, a minha companheira ficou obviamente alarmada ao ver-me assim. Por isso e para não a assustar mais, quer a ela, quer aos miúdos, tentei acalmar-me.

Seguiu-se depois uma longa noite de vigília a dois, e, enquanto ao nosso lado os dois pequeninos dormiam o sono dos inocentes, contei-lhe, novamente em lágrimas, pormenorizadamente, o inferno que tinha sido todo o alistamento em Portalegre e que havia guardado tudo aquilo só para mim por amor a eles, por não querer preocupar mais ninguém.

Para terminar expliquei-lhe o caso do porta-moedas perdido no mercado naquele próprio dia e o que o nosso conterrâneo tinha insinuado. E foi nessa tormentosa noite que tive a maior prova da grande mulher que era a minha, mãe dos meus filhos, companheira discreta e dona da maior das simplicidades, mas também capaz de se dispor a fazer fosse o que fosse para me ajudar a ser feliz ao seu lado.

- Não chores mais que “a gente” vai resolver isso…

Ficou um bocado a pensar só para si. Por fim foi a sua vez de falar e a minha de a escutar.

E que bom foi ouvi-la:

- Que nunca lhe passara pela cabeça as “brutidades” que na GNR eram capazes de fazer contra mim ou contra outra pessoa qualquer. Por isso tinha tão má fama.

- Que tudo aquilo fora inadmissível e que eu nunca devia ter ficado calado mas sim ter-lhe contado, porque para isso éramos marido e mulher, pois se tivesse sabido de tudo na altura teria sido a primeira a dizer-me para sair “da merda” do alistamento e os “mandar cagar” a todos.

- Mas agora tinha de ter calma e não fazer nada antes de telefonar ao José Mouro meu anterior capataz nas Minas da Panasqueira e ao primo João Gaspar a ver se nos ajudava a arranjar lá casa.

- Que visse primeiro essas hipóteses e de certeza eles iriam ajudar-nos porque sempre foram grandes amigos nossos. Só então depois entregava "o papel" para sair da Guarda e ela mais os nossos filhos iam comigo.

Nada disso foi necessário porém, porque a ajuda do camarada Faustino Marques com a sua conversa na Capelinha na Senhora da Penha logo no dia seguinte e aqui transcrevi há poucos dias com o título ‘Existem anjos sobre a terra’, foi determinante porque mudou a minha decisão de desistir da profissão de GNR.

Diz o povo e com razão que algumas vezes há males que vêm por bem.

José Coelho

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Crescer, aprender, valorizar

À medida que 2025 se aproxima do fim é aconselhável fazer uma pausa para refletir o que queremos levar conosco para o próximo ciclo, bem como o que já não nos serve e nada acrescenta. Crescer é um processo de reconhecimento não apenas dos nossos objetivos e conquistas, mas também do limite das relações e expectativas que depositamos nos outros.
Às vezes insistimos em esperar respostas, gestos ou considerações de quem não quer estar conosco e nunca sequer esteve de facto na nossa vida. A ausência dessas respostas fala mais alto do que mil palavras. O silêncio é uma resposta clara ainda que não seja a que desejamos ouvir. Aceitá-la é um passo fundamental para a nossa maturidade emocional.

Evita-se sofrimento desnecessário e poupam-se energias para investir no que realmente importa: nós e os nossos projetos.
É comum tentarmos impor as nossas rotinas como se pudéssemos controlar as escolhas e os caminhos dos outros. No entanto é mais sábio reconhecer que cada pessoa trilha o seu próprio percurso e quando paramos de querer dirigir a vida alheia libertamo-nos de muitas expectativas frustradas e dores evitáveis.
O foco deve estar apenas nos nossos sonhos e realizações.
Com o tempo aprendemos que algumas pessoas querem caminhar conosco durante uma certa etapa mas não querem lá continuar no percurso todo. Deixar ir quem de facto nunca esteve conosco é sinal de inteligência emocional.
Não vale a pena insistir em relações que nada trazem de bom à nossa vida e só nos desgastam. Valorize quem merece estar ao seu lado e deixe partir sem mágoa quem não quer fazer parte do seu presente ou futuro.
Assim como arrumamos e arejamos a nossa casa para receber o novo ano, também o nosso coração precisa ser arrumado e arejado. É tempo de olhar para dentro, de perceber que as "tralhas" emocionais precisam ser descartadas e arranjar espaço para o que precisa entrar. O processo de desapego é libertador e essencial para o crescimento pessoal.
2025 está a terminar.
Que tal aproveitar este mês para uma verdadeira limpeza de fim de ano?
Numa sociedade de laços cada vez mais efémeros, reconhecer quem realmente importa é uma dádiva. Cuidemos e amemos as poucas pessoas que merecem o nosso afeto e aos demais ofereçamos um sorriso, sejamos gentis, cumprimentemos, mas sigamos em frente sem carregar pesos desnecessários.
Cada fim de ano convida à introspeção e à renovação.
Crescer é aprender a valorizar o que edifica e deixar ir o que não nos acrescenta. Cuide de si, dos seus projetos e da sua paz interior. Que 2026 chegue com leveza, coração limpo e espaço para novas vivências.