quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Tempo de Natal 2022







Dia oito de Dezembro, Imaculada Conceição e antigo Dia de Todas as Mães. Toda a minha vida, neste dia, a tarde foi sempre dedicada à construção do presépio e a enfeitar a casa para a Festa do Natal.
E este ano não poderia ser excepção.
Quando os filhos eram pequenos, íamos os três para a tapada procurar o melhor musgo para juntos fazermos um presépio enorme por baixo do pinheiro de Natal com as toscas figurinhas de barro que comprei numa loja em Évora no dia 19 de Dezembro de 1969, depois de sair da Inspeção Militar no hoje extinto Regimento de Infantaria 16 e de ter ficado Apto para todo o serviço militar.
Os filhos "voaram" do ninho um deles levou consigo o tal presépio velhinho mas muito estimado, mas nós, os Cotas, mesmo sózinhos em casa, não deixamos de cumprir essa bonita tradição. Muito mais simples, muito mais discreta, mas com o mesmíssimo amor e carinho de sempre.
E o resultado final é o que as fotos documentam.
Boas Festas a todos, Família & Amizades.
Um abraço com muita estima para todos vós.
Texto e fotos José Coelho
- 08 Dezembro 2022 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Amor de (minha) Mãe...


O dia 8 de Dezembro de 1971 não foi apenas e só o feriado de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal. Nesse dia, naquele tempo, celebrava-se também o Dia da Mãe. De todas as Mães. Durante décadas assim foi. Exatamente por isso e por eu considerar esse dia o segundo mais importante depois do dia do seu aniversário, enviei à minha Florinda este postal por correio desde Elvas onde me encontrava no serviço militar, prestes a ser transferido para o Regimento de Cavalaria Nº 3 de Estremoz, onde iria dali a poucos dias integrar o Batalhão de Cavalaria 3871, com destino a Angola. 

O tempo passou. Década após década. Cinco. Meio século. O Dia da Mãe foi entretanto mudado para o segundo domingo de Maio de cada ano. A minha querida progenitora ficou velhinha, perdeu  a visão e cuidámos dela em nossa casa onde viveu até ao fim da sua vida. Foi nessa altura que encontrámos, entre os tesourinhos por ela guardados, algumas destas coisas. 

Entre muitas outras lá havia, estava também este postal, do qual eu já não me lembrava como é óbvio tantos anos depois. As estaladelas que apresenta, foram consequência do envio por carta de correio. Percebi isso pela forma como estava acondicionado e conservado junto com outras "relíquias" que lhe eram queridas e ela guardava com carinho.

Eu sabia que gostavas muito de mim, minha Mãe. No entanto, apesar de todas as minhas certezas, estes teus gestos, estas coisas, disseram-me mais sobre ti, do que um milhão de palavras. Obrigado Mãe, onde quer que estejas. Não imaginas, nem eu imaginei nunca, o tamanho da falta que o teu colo me fazia. Hoje, para mim, o dia 8 de Dezembro de cada ano, continua a não ser só o dia da Senhora da Conceição. Continua a ser também, sê-lo-à até ao fim da minha vida, o Teu Dia, Senhora Minha Mãe...

José Coelho

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Carta para o meu Pai

Ao tio António Coelho faltam os óculos. A mim, o bigode!
Fotomontagem José Coelho - 06.12.2022



Boa noite, velho amigo. Não penses que por me teres deixado há tantos anos me esqueço de ti. Pelo contrário. Quanto mais o tempo passa, mais sinto a tua falta e mais me pareço contigo. Quando corto a barba pela manhã, a imagem que o espelho me devolve é a tua cara escarrapachada. Já tenho comentado em voz alta: 

-  Zé, tás a ficar igualzinho ao tio António Coelho! 

Sou-te infinitamente grato por tudo o que contigo aprendi. Éramos unha com carne. Sempre fomos. Gaiato com apenas 13 anos que feliz fiquei quando me tiraste daquela lonjura do Monte dos Pavios do tio José Bonacho onde andava a guardar vacas e de onde só podia vir a casa de quinze em quinze dias, para me levares a trabalhar contigo para a pedreira da Lagem do Sapato. 

A seguir fomos para a Portagem a abrir o enorme buraco no leito do rio Sever onde construíram a grande piscina que lá existe. Os dois de madrugada de casa para o local do trabalho e no final do dia do local do trabalho para casa, a pé por caminhos e "atravessos". Mais tarde, rumámos a Campo Maior, sempre por conta do engenheiro Ventura do Porto da Espada de quem foste muitos anos subempreiteiro. 

Éramos inseparáveis, exceto numa coisa. Aos sábados, no regresso a casa, tu ias mais os nossos camaradas de trabalho que connosco andavam lá, beber o vosso copinho e eu nunca queria ir contigo porque não gostava de vinho nem de tabernas. Ficava por isso sentado no banco traseiro da camioneta sozinho até vocês voltarem depois de "molharem o bico", o que às vezes demorava uma ou duas horas.

Se calhar o vinho era como as sardinhas e tinha muitas espinhas que vos empatavam tanto tempo!

Também nunca esqueci a ajuda cúmplice com que enfrentaste a teimosa relutância da senhora minha mãe e tua companheira de vida, quando assim que completei dezassete anos quis ir voluntário para a tropa e ela não queria que eu fosse com medo que morresse lá prá guerra, mas tu, mais atento à minha necessidade de mudar de vida do que em dar razão aos mesmos receios que ela tinha, não hesitaste em acompanhar-me à Câmara de Marvão para "assinares" com o teu dedo indicador direito untado de tinta preta, a necessária autorização paterna em virtude de eu ser de menor idade.

São inexplicáveis as saudades que tenho de falar contigo e daquele carinho que sempre nos uniu. Hoje, como o tempo está chuvoso, sentei-me no sofá à lareira. Inesperadamente veio-me à lembrança aquele dia em que eu estava sentado exatamente no mesmo sítio a aquecer-me ao lume e tu, já bastante doentinho e a preparares-te para me deixares órfão, vieste em pijama do teu quarto sentar-te no outro sofá ao meu lado e puseste sobre o meu joelho a tua mão, para me dizeres, bastante lucidamente:

- Isto está mal, filho. Os remédios já não me fazem nada…

E continuaste:

- Venho pedir-te uma coisa, filho. Não deixes que me levem para o hospital para ir lá morrer sozinho no meio de estranhos em cima de alguma maca, num corredor. Deixem-me ficar aqui na nossa casa onde eu gostava de poder morrer na minha cama e ao pé de vocês.

Tu sabias, Pai. 

Sabias que o teu fim estava próximo. 

E eu também sabia. 

Todas as manhãs, antes de me ir embora para Portalegre, ia dar-te um beijinho, com receio que não resistisses e partisses antes de eu regressar à noite. Mas não. Esperaste por mim, dia após dia, todos aqueles que ainda te restavam, até à madrugada de 23 de Janeiro de 1994. 

Eu estive no sofá a vigiar o teu agonizar até às duas da manhã para a Mãe Florinda poder ir dormir e descansar um pouco, entre as nove da noite e as duas da manhã. Depois veio ela para o meu lugar para ir eu descansar, porque tinha de levantar-me às seis e meia como todos os outros dias para ir trabalhar. 

Ainda quase não tinha pousado a cabeça na almofada quando a Mãe Florinda tocou ao de leve na porta do quarto e chorosa me chamou:

- Zé, levanta-te filho, o pai já faleceu.

Que momento tão dramático da minha vida meu santo pai. 

Não consigo esquecer tamanha angústia passados todos estes anos. Fui ter contigo, cerrei-te as pálpebras e abracei-te num pranto impossível de conter. Nesse dia não só perdi o meu melhor e maior amigo, como também parte do meu coração que levaste contigo. Nunca mais consegui ser mesma a pessoa, porque não há nada nem ninguém que te substitua no meu coração. 

Por muito que ame os meus filhos e netas, teus netos e tuas bisnetas, o meu amor e gratidão por ti viverão comigo enquanto eu viver também. Hoje tinha de escrever-te esta carta, igual a muitas outras que já escrevi, mas depois apaguei. Esta não irei apagar. Não tenho de ter vergonha por sentir saudades tuas, meu velho e querido amigo. 

Voltaremos a encontrar-nos, assim o creio. 

Um beijo onde quer que estejas, do filho que nunca te esquece e continua a amar-te como se estivesses ainda aqui.

José Coelho