quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Pelo S.Martinho, castanhas e vinho...



Longe vai já o tempo em que nesta casa e nesta noite nos juntávamos mais de trinta comensais na sala de jantar para celebrarmos a Noite de S. Martinho. Sopa da pedra, vinho novo da casa, maçãs assadas no forno de lenha, marmelos cozidos em calda de açúcar, dióspiros, nozes e avelãs, biscoitos escaldados, castanhas e jeropiga. E um grande lume na lareira para aquecer e tornar ainda mais acolhedor o ambiente de festa e de harmonia. Mas, sobretudo, aquela união de toda a família próxima e distante desde os progenitores que já partiram, às irmãs, cunhados, sobrinhos e primos até à terceira geração. Porque é que as coisas realmente boas têm de ser sempre assim tão breves?

José Coelho - Texto e fotos

É fácil dizer que um fardo é leve...


 ... quando o peso não está nas suas costas.
Selfie José Coelho - 05.11.2022

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Coisas que leio...

Foto José Coelho - Por do sol na Lagem Alta - Beirã

Nunca te esqueças de olhar em volta. Por mais apressados que sejam os teus dias. O mundo tem belezas ímpares e, por vezes, andamos tão embrenhados em pensamentos inúteis, em preocupações, em angústias, que nos esquecemos de apreciar as coisas belas da vida. 

Não é o pôr-do-sol que vai terminar com os nossos problemas, é certo. Mas quando foi a última vez que paraste para o ver? É um espetáculo tão belo que pode, pelo menos, colocar um sorriso no teu rosto por breves instantes. 

Quando foi a última vez que paraste para brincar com uma criança? São tão puras e sinceras que o seu sorriso pode fazer-nos acreditar que vale a pena viver. 

Quando foi a última vez que te sentaste na relva e descalças-te os sapatos? Ou que caminhaste descalço à beira-mar? 

Não tens tempo, dizes tu... Mas basta um minuto para te sentires renovado.

Se não tirares um minuto por dia para olhar em volta e apreciar as coisas simples e belas deste mundo, todos os problemas te parecerão maiores. Se tirares um minuto, não estarás a perder tempo: estarás a deixar a tua alma respirar.

Às vezes deixamos as coisas para amanhã porque hoje estamos demasiado ocupados a resolver problemas... 

Quem nos garante que o amanhã chegará? 

Aproveita o hoje. Não vivas apenas. 

Aproveita a vida. 

E aproveita cada minuto da companhia dos que estão contigo.


Nami 
Palavras feitas de vento

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Coisas (lindas) que encontro...


Meu Alentejo

Guardo-te
 aninho-te

no coração
 em ninho feito de aromas
 alfazema rosmaninho e alecrim

guardo-te
 aninho-te

em searas douradas de trigo
 entre os meus (a) braços

guardo-te
 aninho-te

na minha voz
 a força das papoilas vermelhas
 entre os trigais

guardo-te
 aninho-te

no meu olhar
 onde brilha o teu sol
 quente e acolhedor

guardo-te
 aninho-te

Porque esquecer-me de ti

Ester Cid

Amor-próprio e sensatez


Há um momento na tua vida em que percebes o que 
deixaste para trás e não o lamentas. Agradeces.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Gosto do cheiro...

Foto José Coelho

A principal fonte de aquecimento durante o inverno em minha casa é o lume de lenha, no solo de uma bela lareira da nossa sala de estar, situada desde a sua remodelação onde anteriormente se situava a cozinha dos meus pais, quase, quase, no mesmo sítio daquela sua anterior congénere alentejana que tão bem nos aqueceu sempre, nos longos e gelados invernos de antigamente. 

Feita por encomenda e medida, de granito branco primorosamente esculpido por sábias mãos de uma célebre família de canteiros de Gáfete, tenha embora um ar algo mais fino e elegante, é tão eficiente como a sua rústica antecessora. E tal como ela nunca expeliu qualquer fumo para fora da sua zona de combustão, por mais insignificante que fosse. Para certificá-lo basta observar as paredes da sala de uma brancura imaculada, o que não seria possível se houvesse fugas indesejadas de fumos, por mínimas que fossem. 

Herdei dos meus pais e avós este gosto pelo lume de chão ao vivo e ao natural. E estou convicto que os meus dois filhos o herdaram também, pois, tal como o pai, não o trocam por quaisquer outros aquecimentos mais modernos e menos geradores de cinzas ou sobrantes.

O hábito faz o monge? Talvez. O meu avô José Lourenço (de quem herdei o nome) não dispensava sentar-se ao seu lume durante todo o outono e inverno, entrando até muitas vezes pela primavera dentro. E à minha avó Amélia, nunca lhe conheci qualquer fogão ou fogareiro, fosse a carvão, a petróleo ou a gás. Tudo o que cozinhava (e que comidinhas tão saborosas fazia) fosse inverno ou verão, era sempre em lume de lenha, na sertã ou nas panelas e tachos de barro.

Por seu lado, mal se mudou para a nossa casa aos 80 anos para viver connosco até ao fim da sua vida, o avô Faustino, pai do meu pai (não conheci a minha avó Adelina porque faleceu antes de eu a poder conhecer) imediatamente marcou, como território seu, o canto direito da chaminé com o seu banquinho de madeira, já que o outro, o esquerdo, foi toda a vida o canto do lume do dono da casa e meu saudoso pai. 

Um de um lado, outro do outro, não causavam porém qualquer problema, porque o espaço entre os dois era mais que suficiente para lá cabermos ainda todos, já que a chaminé ia quase de canto a canto da cozinha, tendo sido deixado apenas espaço para uma pequena despensa. Era aquela a zona vip da casa. Ali cozinhava a minha mãe todas as nossas refeições e ali se reunia a família todas as noites para se aquecer e confraternizar num harmonioso aconchego, conforto e paz, geradores de uma concórdia e felicidade indescritíveis.

Quando cada um de nós, os quatro irmãos, constituímos as nossas próprias famílias pelo matrimónio, levámos connosco, obviamente, aqueles hábitos simples e saudáveis. E mais tarde, os nossos filhos, também. Eu não troco o lume na lareira por nenhum outro aquecimento. Há lá melhor calorzinho que este? Assim que a gente entra em casa vindo do cortante frio da rua, é como que entra para o céu. Somos acolhidos por um ambiente tão confortável e naturalmente aquecido que é capaz de revigorar qualquer espírito por mais gelado que venha.

Os meus filhos, idem. O Pedro com a esposa e a filha vivem num agradável apartamento de uma grande cidade, mas têm também na sua bonita sala de jantar uma excelente lareira aberta com lume de chão não muito diferente da minha e que acendem diariamente durante todo o inverno. E o filho Manel também, pese embora a dele seja fechada com uma porta de vidro, daquelas que aproveita o calor da combustão ventilando-o simultaneamente para a sala e para os quartos no primeiro andar, aquecendo assim toda a casa. 

- Gosto do cheiro... 
  
Comentou, recentemente, uma vizinha e querida amiga, num post que publiquei no facebook no dia 1 de Novembro pp com a imagem da minha chaminé a fumegar ao vento. A mesma que ilustra hoje esta crónica. Entendi imediatamente que aquele "gosto do cheiro", não significava gostar de cheirar o fumo, mas, obviamente, do cheiro a lume e implicitamente a conforto, que o vento espalha sempre pelo ar.

Só poderia ser esse o sentido. 

O "gosto do cheiro" que a minha estimada vizinha comentou e eu subscrevi na íntegra é, para além das palavras em meu entender, um sentimento muito mais profundo. Aquele "gosto do cheiro" é algo que habita na nossa memória e refere-se ao odor da lenha a aquecer todos os lares habitados com lareiras acesas que se disseminava pela aldeia inteira quando ela era fervilhante de vida e de gente, noutros tempos. 

Refere uma realidade que aos poucos se tem extinguido. 

E significa para mim, entre muitas outras coisas, a vida que vivi. A saudade imensa de um tempo que se foi. Os vizinhos, amigos e conterrâneos que fizeram parte do que hoje sou. Finalmente e mais do que qualquer outro sentimento, significa a minha família, e, pelo meio, a que já partiu e não voltarei a ver enquanto viver. 

Que ao menos esse fumo branco e sinal de vida que sai da minha chaminé em cada inverno, leve com ele o amor que continuo a sentir por todos eles e suba tão alto, tão alto, que consiga alcançá-los onde eu sinceramente acredito que se encontram e um dia, já não muito longínquo, voltaremos a estar novamente todos juntos. Para sempre.

José Coelho

Boa semana