Foto by José Coelho
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
domingo, 16 de setembro de 2018
Meu vício de ler...
A minha foto preferida, obra do meu Pedro e retocada por mim
Despedir-nos
da nossa mãe é sepultar um pouco de nós.
Despedir-nos
da nossa mãe é sepultar um pouco de nós. As despedidas, no geral,
maltratam-nos. E o que dizer sobre despedir-se da mãe?
Este
tema é tão desolador, que, ao escrever sobre ele, as lágrimas
brotaram imediatamente e olhem que eu e a minha mãe nos despedimos no natal de
2010.
Um
dia destes eu dei-me conta de que há quase oito anos eu não pronuncio a palavra
“mãe” referindo-me à minha.
E sinto tanta falta disso. Frases simples como “bênção, mãe” ou “mãe, viste
fulando? Agora isso não faz mais parte da minha vida.
Tanta
coisa para ser dita e tanta coisa que eu gostaria de ouvir dela. Mas saio de mim e vou para o geral. Quando perdemos a nossa mãe, tanta coisa se
agiganta dentro de nós.
Fica
um grito preso na garganta e uma louca vontade de voltar no tempo. O
arrependimento também se torna uma visita constante e incomoda. Arrependemo-nos por
não ter tido mais paciência em determinados momentos!
Arrependemo-nos de não ter demorado mais tempo dentro do abraço dela cada vez que
isso acontecia e por não termos dito com mais frequência o quanto a amávamos.
Por
que deixamos passar tantas oportunidades de acariciar aquele rosto tão querido?
Por que nunca dissemos que, apesar das marcas do tempo, ela era muito linda?
Por que omitimos que tínhamos muito orgulho da guerreira que ela foi?
Tantos “porquês, tantos “e se… " tantos “ah, se eu tivesse”.
E
assim vamos levando a vida sem o amor que era uma amostra do amor de Deus e nos
damos conta de que, aqui na terra, nenhum amor se assemelha ao da nossa mãe.
Uma
mãe não ama o filho porque ele é bom, bonito ou inteligente. Ela ama-o porque, ao
dar à luz ou ao adotá-lo, esse amor lhe foi apresentado e pronto.
Não
importa a idade que tenhamos ou o quão bem-sucedidos sejamos, quando a nossa
mãe vai embora, nós nos sentimos sem direcção e com medo. Talvez medo de não
conseguirmos caminhar sem aquele amor que era uma certeza para nós. Afinal, a
certeza de sermos amados, ainda que por uma única pessoa, imuniza-nos das mazelas desse mundo.
Perder
um amor dessa magnitude torna-nos desprotegidos e assustados. Sabes, carinho de
mãe é sempre aveludado, por mais ásperas que sejam as suas mãos. O cheiro dela
é sempre gostoso, mesmo que ela não use perfume… é cheiro de amor.
Sempre
que viajo de avião, por entre as nuvens, eu fantasio que estou bem perto dos
meus pais. Eu imagino-os sentados num banquinho a olhar para o horizonte e à
minha espera, em frente a uma casinha bem simples.
Na
cena, todos os cães e gatos que tivemos um dia estão presentes. Tem também um
bule de café e biscoitos. Eu chego e nos abraçamos por muito tempo.
Fonte:
Ivonete Rosa (adaptado)
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
Meu vício de ler...
Imagem copiada do Google
Melhorar
o défice? Cortar no roubo
Para
além do envelhecimento populacional e falta de produtividade do país, causada
pela má gestão privada e pública das atividades económicas, há uma fatia muito
grande do défice que tem uma explicação simples: o roubo.
Quando
se discute o défice nas contas públicas nacionais há a tendência para focar
dois pontos. Primeiro, qual o montante de défice ideal – uns concordando com as
regras europeias, outros achando que tais limites são demasiado apertados.
Segundo, qual a forma de atingir um determinado valor para o défice (ou
superavit) – uns preferindo cortar nas despesas e manter as receitas; outros
preferindo não cortar na despesa, mas aumentar as receitas. Depois, há ainda a
discussão sobre que despesas cortar ou que receitas aumentar.
No
plano governamental e parlamentar, esta discussão tende a ser muito técnica,
ligada às especificidades do Orçamento do Estado e das contas públicas,
faltando, muitas vezes, uma discussão mais estrutural.
Não
é admissível que Portugal tenha défices nas suas contas públicas desde que se
tornou democracia. Não é sustentável uma nação viver em permanente défice (a
não ser que se tenha acesso ilimitado ao crédito, como os EUA, porque são a
maior potência militar mundial).
Se
é verdade que Portugal necessitou de um esforço financeiro grande para sair de
uma situação de atraso económico causado pela ditadura tardia a que esteve
submetido durante, aproximadamente, 50 anos, muitas das dificuldades
financeiras actuais já não encontram aí justificação.
Olhando
para o problema de um ponto de vista estrutural, para além do envelhecimento
populacional e falta de produtividade do país – causada pela má gestão privada
e pública das actividades económicas – há uma fatia muito grande do nosso défice
que tem uma explicação simples: o roubo.
Esse
roubo tem duas origens:
1.
Receitas que não são cobradas – ora por ineficiência do fisco, que tantas vezes
deixa prescrever dívidas fiscais; ora por esquemas de corrupção – que permitem
a certos agentes eximirem-se às suas obrigações fiscais; ora por leis mal
desenhadas – que permitem aos advogados fiscais encontrar caminhos para a
impossibilidade prática de os seus clientes pagarem impostos;
2.
Despesas desnecessariamente exacerbadas – ora por corrupção, ora por
negligência/incompetência dos representantes estatais. São exemplos desses
agravamentos na despesa os contratos entre o Estado e os privados, em que os
privados ficam com os benefícios garantidos e o Estado com os riscos (vejam-se
as PPP rodoviárias, na saúde, ou na exploração energética), ou situações em que
o Estado paga muito quando podia pagar pouco (má escolha de fornecedores e
prestadores de serviços, avenças e consultadorias inúteis, por cumplicidades
impróprias, ou desmazelos na perscrutação de quais os verdadeiros gastos do
Estado e a avaliação de alternativas).
Para
combater estes roubos, são necessários diversos instrumentos: indivíduos
competentes na gestão dos dinheiros públicos, leis mais penalizadoras da
corrupção e facilitadoras da acusação desses actos corruptos e entidades
fiscalizadoras da gestão do dinheiro público que actuem celeremente – e não
passados dez anos, como tantas vezes acontece com o Tribunal de Contas.
O
maravilhoso do ataque ao roubo é que dispensa debates ideológicos. Fora aqueles
que pensam que roubar o Estado é moralmente correcto, combater a fraude fiscal,
a economia paralela e os desperdícios do Estado são acções que conseguiriam pôr
Portugal a ter, rapidamente, superavits das contas públicas e, por inerência, a
diminuir a dívida.
Depois,
podia entrar-se no debate ideológico sobre se devíamos diminuir ou aumentar os
impostos, e que impostos, pagar mais ou menos aos funcionários públicos, e com
que sistema de incentivos, aumentar ou diminuir as reformas, ou gastar mais ou
menos com o SNS.
Uma
coisa é certa: não temos economia que sustente tanto roubo, e combatê-lo é a
verdadeira reforma estrutural de que Portugal necessita.
Gabriel
Leite Mota, Professor Universitário de Economia in JE 13.09.18
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Metade... (do Oswaldo mas também de mim)
Foto by Pedro Coelho
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que triste;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
Oswaldo Montenegro
Amigos...
O Joaquim Eusébio e a Marie Andrée em nossa casa
Foto José Coelho - 04 Setembro'18
Não é de modo nenhum vulgar. Não é mesmo já quase possível, nos tempos que correm, conservar intacta uma amizade assim, durante mais de 60 anos. Há felizmente excepções. Raras mas reais. E nós somos a prova disso. O Joaquim Eusébio e eu somos amigos desde os distantes tempos da nossa escola primária nos idos de 50, teria eu 5/6 anos e ele 6/7. Se naquele tempo a diferença de idades não se notava nada, hoje nota-se menos ainda. Seguimos, naturalmente, percursos de vida diferentes, mas o companheirismo que teve como alicerce as austeras aulas da senhora professora Clarisse Quezada, manteve-se intocado através do muito tempo e da ainda maior distância.
O Joaquim alcançou, por seu elevado mérito, o estatuto de professor e doutor, sem nunca, contudo, abdicar da sua louvável simplicidade, do seu distinto modo de estar na vida. Continuou - e continua a ser - o mesmo amigo discreto, apesar de culto e famoso. Na parte que a mim diz respeito alcancei também o que pude, embora com pouco mais habilitações do que aquelas que tinha quando éramos miúdos. E continuamos, passadas mais de seis décadas, a ser os amigos leais que já éramos naquele tempo. Mudámos de fisionomia porque a idade não perdoa mas não mudámos a forma de estar nem de sentir, continuando ambos a defender aqueles valores e princípios que nos foram transmitidos por quem nos educou.
Ausente de Portugal por vicissitudes da vida que o obrigaram a optar por isso, vive, há muitos anos, noutro continente. Mas nunca esqueceu a "nossa" Beirã, muito particularmente o "seu" Carneireiro, um pequeno paraíso tranquilo nos arredores da aldeia e também, para além de mim, alguns outros velhos amigos e amigas que o fazemos regressar 2 ou 3 vezes por ano, sozinho, como veio na primavera, ou com a sua Marie Andrée, como sucedeu agora. Juntámo-nos primeiro em sua casa e depois na minha em fraterno convívio, a celebrar a amizade. À moda antiga, em família, conversando, rindo, petiscando.
Embora longe, as novas tecnologias globais de comunicação permitem que nos vejamos e conversemos em directo, de vez em quando, para pormos os nossos assuntos em dia. Mas não há nada como estarmos próximos e em amena cavaqueira a reviver tempos passados que de repente parecem ter sido ontem, tal é a nitidez com que acodem à nossa memória, por exemplo, aquela vez que eu, com apenas 5 anos, fui protagonista de uma peça de teatro infantil e tive que vestir umas roupas do Joaquim Eusébio que a mãe dele cedeu à minha, a título de empréstimo, para aquela ocasião. Tantas vezes ouvi a minha mãe recordar e falar nisso.
As boas recordações são ainda maiores que o tamanho da nossa amizade. Esta manhã, a meio da rega das nabiças que são a minha primeira sementeira da horta de outono/inverno no quintal, fui chamado a despedir-me do Joaquim e da Marie. Estavam de partida. E não foram sem se despedir. Obrigado aos dois. Façam muito boa viagem, levem convosco o nosso carinho e amizade, voltem em breve, ou, melhor dizendo, voltem logo que vos seja possível. Somos muito gratos pela vossa simpatia, consideração e amizade.
Au revoir...
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