segunda-feira, 25 de maio de 2026

Meu ponto de equilíbrio

Hoje, ao abrir os olhos, senti o coração regressar ao princípio de tudo. Quarenta e nove anos passaram desde o dia em que me tornei pai pela primeira vez e ainda hoje essa alegria primeira continua a viver dentro de mim intacta, luminosa, como uma chama que nunca se apagou.

Depois veio o segundo filho e a vida, generosa como sempre foi comigo, voltou a acender outra luz. E assim, sem alarde, fui-me tornando um homem mais inteiro.
O Manel e o Pedro são parte do que tenho de mais precioso. Com a Francisca, a Mariana e a Filipa, descobri que o amor tem uma capacidade infinita de se multiplicar. Cada uma delas é um ramo novo da árvore que plantámos, uma continuação suave daquilo que fomos construindo ao longo dos anos.
Há, no entanto, uma verdade que preciso escrever com toda a clareza: nada disto existiria sem a mulher que caminha comigo há mais de cinquenta anos.
A mulher que me ensinou que o amor não é feito de grandes gestos, mas de gestos certos.
A mulher que soube ser mãe com uma força silenciosa e agora é avó com uma ternura que desarma.
A mulher que me deu os filhos, que me deu tantas vezes colo, que me deu a paz.
A mulher que, mesmo nos dias mais difíceis, nunca deixou de ser o meu lugar seguro.
Com ela aprendi que o amor verdadeiro não precisa de espetáculo. Precisa de presença. De mãos que se procuram no escuro. De olhares que dizem “estou aqui” mesmo quando o mundo parece demasiado grande. De uma vida inteira a dois, onde cada um se torna melhor porque o outro existe.
Chego a esta fase da minha vida com uma serenidade que só o tempo concede. Aprendi a viver devagar, a ouvir mais, a falar apenas o necessário, a perceber que o que é verdadeiro permanece, mesmo quando demora a florir.
E hoje vivo com intenção. Com gratidão. Com a consciência de que a felicidade não está no extraordinário, mas no que é vivido com verdade.
A minha vida encontrou o seu ponto de equilíbrio no amor que construímos juntos. Nos filhos que criámos. Nas netas que agora nos prolongam. E, acima de tudo, na mulher que sempre soube ser casa – a minha casa.
Se há algo que aprendi, foi isto: a vida revela-se por inteiro quando deixamos de a perseguir e começamos, simplesmente, a caminhar ao seu lado. E eu tive a sorte de caminhar ao lado da mulher certa.
Com amor, serenidade e gratidão,

A Vida a florescer

Há exatamente 49 anos que começámos a ser três: pai, mãe e Manãe. O tempo passou e o nosso amor cresceu contigo.
Hoje tens também ao teu lado a tua companheira – e nossa nora – Paula, mais as tuas filhas lindas, Filipa e Mariana, nossas netas, a encherem de felicidade e orgulho as vidas de todos nós.
É maravilhoso ver a vida a florescer assim.
Que Deus vos abençoe e proteja sempre, é o que peço todos os dias. Beijinhos para os quatro, dos pais, sogros e avós:

Manãe! Chamo-me Manãe.

Introdução:
1 – Para ti, meu querido primogénito, que chegaste ao mundo numa madrugada azul de maio e mudaste para sempre o rumo das nossas vidas. Este texto é a memória viva do caminho que te trouxe até nós, um caminho feito de amor, coragem, surpresa, lágrimas boas, e uma felicidade que nunca mais nos largou. Hoje, quase meio século depois, celebro-te como no primeiro dia: com o coração cheio e a alma agradecida.
2 – Para ti, mãe Maria Manuela, companheira de vida, força serena, coragem discreta. Foste tu quem carregou no ventre o nosso primeiro sonho, quem lhe deu o primeiro calor, o primeiro abrigo, o primeiro amor. Foste tu quem enfrentou dores, medos, noites longas e madrugadas frias para que o Manel chegasse ao mundo saudável e amado. És a raiz silenciosa de tudo o que construímos, a heroína que nunca pediu medalhas, mas que merece todas. Sem ti, nada disto existia. Esta história é dele, mas começa em ti.
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Sem aviso, sem ensaio, apenas guiado pelo coração, olhei-a nos olhos e perguntei-lhe se queria casar comigo. Ficou suspensa no instante, surpreendida, como quem é apanhada pela vida no meio de um passo. Pediu um bocadinho para pensar.
Mas o amor não gosta de demoras. Meia hora depois, devolveu-me o olhar que eu lhe tinha dado e disse, com a serenidade de quem sabe o que quer:
– Sim. Quero casar-me contigo.
Nesse mesmo dia traçámos planos, sonhámos datas e marcámos o enlace para dali a sete meses, a 14 de agosto. O passo seguinte foi contar às famílias. O meu pai, esse homem de coração fácil, desatou num choro de felicidade e correu a abraçar a nora que tanto desejava:
– Dá cá um abraço, cachopa, que vais ser minha nora!
Assim se cumpriu o que a Vida já tinha escrito para nós. Regressei às Minas feliz, com o peito cheio, e tratei dos preparativos: anel de noivado, alianças, convites.
Num sopro chegou agosto, o casamento, a lua de mel em Madrid em visita aos cunhados, e depois o Gerês, sempre acompanhados pelos compadres do Porto, no seu Toyota novinho em folha.
Talvez por isso o nosso primogénito tenha alma espanhola – deve ter sido concebido nessa lua de mel madrileña, porque nove meses e onze dias depois chegou ao nosso colo.
Pedi à entidade patronal três semanas de licença sem vencimento para acompanhar o final da gravidez, o nascimento, o que fizesse falta. Concederam-nas sem descontar um centavo sequer do ordenado base. Só não me pagaram horas noturnas, porque não as fiz. Houve um tempo em que as empresas tinham consideração pelos seus trabalhadores.
Na manhã de 24 de maio de 1977, a Maria Manuela pegou num alguidar de roupa para ir ao lavadouro público. Não chegou lá. Rebentaram-lhe as águas e começaram as primeiras contrações. Chamámos o táxi do Zé Moura de Santo António das Areias e seguimos para a maternidade do Hospital Dr. José Maria Grande, em Portalegre.
Estava de serviço um médico amigo, competente e atento, que tomou conta dela com o cuidado de quem sabe o valor de uma vida prestes a nascer. Fui autorizado a acompanhá-la até às onze da noite. Vi o zelo incansável de todos – tão diferente dos dias de hoje.
Às onze tive de sair. Era a regra. Mas a sorte protege os que amam: a minha madrinha Jacinta, trabalhava naquele piso e entrava no turno da meia-noite.
– Toma a chave da minha casa e vai descansar. Eu tomo conta da tua Manuela. Do que houver, te direi.
Fui, mas dormir era impossível. A ansiedade, a esperança, o medo bom de quem vai ser pai pela primeira vez. Já de manhã, a madrinha ligou. Atendi num salto.
– Já aqui tens um belo cachopo à tua espera. Nasceu às duas da manhã e correu tudo muito bem. Anda para baixo, diz que és o pai, que te deixam entrar.
Desci a correr a Rua do Comércio mais feliz do que os pardais que debicavam migalhas das esplanadas. Numa loja de flores, uma senhora arrumava cravos… azuis. Nunca tinha visto tal coisa. Pedi-lhe um bouquet para a recém-mamã.
Quando entrei no quarto, uma enfermeira sorriu:
– O seu marido é um romântico! Vou buscar uma jarra para esses cravos.
A mãe sorria, entre dores e o nosso pequenito dormia ferrado no berço, com o lábio inferior escondido debaixo do superior. Fiquei com eles o dia inteiro. Depois tive de regressar à Beirã, a transbordar de felicidade, incredulidade e gratidão. Deus é bom.
O tempo passou, veloz. Em menos de nada já andava, já falava.
– Como te chamas, filho?
– Manãe. Chamo-me Manãe…
Hoje, 25 de maio de 2026, cumpres 49 primaveras. Pai, já és também. E eu continuo a amar-te incondicionalmente, desde o primeiro instante em que te segurei ao colo.
Parabéns, filho.

domingo, 24 de maio de 2026

A Ética e a Verdade

A ética é a bússola silenciosa que cada um traz dentro de si. Não faz barulho, não pede aplausos, não precisa de testemunhas. Mas é ela que nos orienta quando o mundo à volta parece andar às avessas. A ética é o que fazemos quando ninguém está a olhar – e é aí que se vê quem realmente somos.
A verdade caminha ao lado dela. Não é sempre suave, nem sempre cómoda, nem sempre bem recebida. Mas é íntegra. A verdade não se veste de conveniências, não muda de cor conforme o público, não se curva para agradar. A verdade é como a luz: pode incomodar quem vive na sombra, mas nunca deixa de iluminar.
Vivemos tempos em que muitos preferem o brilho fácil da aparência à solidez do carácter. Trocam a sinceridade por simpatias fingidas, a frontalidade por elogios vazios, a honestidade por atalhos. Mas quem escolhe a verdade sabe que ela vale mais do que qualquer aprovação passageira. A verdade não conquista multidões – conquista paz interior.
Ser ético é recusar a hipocrisia mesmo quando ela parece ser o caminho mais rápido. É não trair a confiança de quem nos procura. É não usar a mentira como ferramenta. É não falar mal de quem acabou de sair pela porta. É manter a palavra dada, mesmo quando custa. É, no fundo, ter a coragem de ser inteiro num mundo que tantas vezes se contenta com metades.
E a frontalidade – essa qualidade que tantos temem – não é dureza. É respeito. Respeito por si próprio e pelos outros. Dizer a verdade não é ferir; é honrar. É tratar o outro como adulto, como igual, como alguém que merece ouvir o que é real e não o que é conveniente.
A verdade pode deixar-nos sós por momentos, mas nunca nos deixa vazios. A mentira pode rodear-nos de gente, mas deixa-nos sempre incompletos. Entre a solidão da verdade e a multidão da falsidade, a escolha é simples para quem tem princípios.
Assim, a ética e verdade são escolhas diárias. Pequenas, constantes, discretas. São a forma mais nobre de caminhar pela vida. E quem as segue, mesmo quando o mundo parece andar ao contrário, deixa atrás de si um rasto de dignidade que nunca se apaga.
Cuidem-se e... tenham uma excelente semana.
Texto e foto

Na calma dos dias simples

Estou na fase mais serena da minha vida onde tudo é feito sem pressa, mas sempre com a mesma benéfica intenção.

Cada escolha, cada palavra e cada silêncio, são guiados pela vontade de desfrutar cada dia de forma autêntica e consciente.

Viver com serenidade é ter sabedoria para apreciar o que temos, sem ansiedade pelo futuro, ou apego ao passado.

É saber que o tempo é precioso e que tudo o que é verdadeiro permanece, mesmo que demore a florescer.

E é na calma dos dias simples que a felicidade se faz presente e a vida se revela em toda a sua profundidade.

sábado, 23 de maio de 2026

A solidão de quem nos protege

Há profissões que nunca dormem. As forças de segurança – PSP, GNR e outras – são assim. Não conhecem descanso, pausa, feriado ou indulgência. O relógio roda, o calendário muda, mas a responsabilidade permanece sempre ali, imóvel, como uma sentinela silenciosa.
Enquanto o país se reúne à mesa, enquanto o bacalhau fumega no Natal e o cabrito assa na Páscoa, há homens e mulheres que passam essas mesmas horas nas ruas frias, nas estradas escuras, nas esquadras silenciosas. Não porque sejam diferentes – mas porque escolheram servir. E servir, para eles, significa estar onde é preciso, quando é preciso, mesmo que isso lhes custe noites, família, saúde ou paz.
E depois há quem diga, com uma leveza quase cruel: “Foram para lá porque quiseram. São pagos para isso.”
É fácil falar assim. Difícil é compreender o que significa viver sempre um passo antes do perigo. Difícil é perceber que por baixo da farda há um ser humano que treme, que sente, que falha, que sofre – e que, ainda assim, continua.
O que me dói – e dói mesmo – é ver a indulgência com que tratamos quem mata a sangue frio, quem destrói vidas sem hesitar, quem dispara para roubar uns trocos. Chamam lhes “indivíduos problemáticos”, investe-se milhares na sua reintegração, oferecem lhes compreensão infinita.
Mas quando um agente, no cumprimento da lei, tem de usar a arma que lhe foi confiada para proteger a sua vida ou a de terceiros, o país inteiro ergue-se para o julgar. Cada gesto é dissecado, cada segundo é escrutinado, cada decisão é transformada em espetáculo. E o agente – que agiu para salvar alguém – é crucificado na praça pública como se fosse ele o criminoso.
Os valores inverteram-se, ou talvez tivessemos deixado de saber o que realmente importa.
E quando isto acontece, quem defende o agente?
A hierarquia? Sim, para vir anunciar, com pompa e circunstância, a abertura de processos de averiguações.
A comunicação social? Não. Precisa da manchete, não da verdade.
A opinião pública? Pior ainda. Se uma voz grita “matem-no”, cem respondem “esfolem-no”.
E depois perguntam, com ar de espanto, porque será que o recrutamento de novos agentes não consegue sequer preencher já as vagas por aposentação, em virtude de não haver candidatos suficientes, quando, não há muitos anos, havia seis mil candidaturas para seiscentas vagas?
Mais preocupante ainda, porque será que tantos guardas e polícias se suicidam? Será difícil perceber?
Não são apoiados.
Não são valorizados.
Não são compreendidos.
E ganham salários que mal chegam ao fim do mês.
Eu sei o que isso é. Vivi isso. Estive lá, noite após noite, dia após dia, dentro das viaturas ou a pé à frente dos meus homens e não comodamente instalado atrás da secretária, no ar condicionado. Ensinei, incentivei, protegi – mas, acima de tudo, tentei sempre ser exemplo.
E também errei.
Porque estava a trabalhar.
Porque estava a tentar ajudar.
Porque sou humano.
Só nunca errei por abuso, por arrogância, por maldade ou por desleixo. Nunca.
Poderia falar da minha folha de serviços, limpa, reconhecida, honrada. Mas não preciso. Cumpri o meu dever e isso basta-me.
O que hoje mais paz me dá, é a consciência tranquila. E o que me move ainda é a solidariedade profunda por todos os que lá continuam noite após noite, dia após dia, a segurar o país com as próprias mãos, mesmo quando o país parece esquecer-se deles.
Foto da net

O luto não acabou e o respeito também não pode acabar

Introdução:

Este texto teve origem na indignação que senti num momento de profunda dor quando uma pessoa da minha família se apresentou enfeitada e colorida como uma árvore de Natal no funeral de quem a ajudou a criar.

Há quem diga com a maior leveza: “Hoje o luto já não se usa.” Mas eu digo com toda a firmeza: O luto não é moda para “usar” ou “deixar de usar”. O luto é respeito. E o respeito nunca sai de moda.
Cresci no seio de gente humilde que não tinha estudos, mas tinha palavra. Gente que não tinha luxo, mas tinha honra. Gente que sabia que, quando alguém parte, não se acompanha à sua última morada todo “empampoulado” como se vai para uma festa.
E é isso que muitos jovens de hoje precisam de ouvir – não com paninhos quentes, mas com verdade:
Ir a um funeral vestido como quem vai para uma festa, não é modernidade. É desconsideração.
E não se trata de usar preto da cabeça aos pés. Não se trata de seguir tradições antigas. Trata-se de ter noção.
Noção que:
Um funeral não é palco – é despedida.
A dor merece respeito – não exibição.
A memória merece dignidade – não indiferença.
Quando alguém - como foi o caso - aparece no funeral de um ente querido muito próximo com roupa desadequada, a mensagem que passa, mesmo que não seja essa a intenção, é simples:
– Não entendo a importância deste momento.
E isso magoa. Magoa profundamente quem amou, quem cuidou, quem perdeu.
Eu vi a minha mãe faltar ao banquete do casamento do meu filho mais novo porque tinha perdido também o seu irmão mais novo – o tio Raimundo – dias antes. Não por obrigação. Não por tradição. Mas porque o seu coração não sentia que era dia de festa.
Hoje há quem faça luto público por um animal de estimação – e nada contra isso – mas não consiga vestir algo discreto quando perde um pai, uma avó, um irmão.
Há quem publique laços negros nas redes sociais, mas não tenha a sensibilidade de mostrar um simples gesto de respeito no momento da despedida de alguém a quem deve amor e respeito.
Isso não é evolução. É desligamento das raízes. É comodismo emocional. É falta de educação no sentido mais profundo da palavra.
E por isso afirmo, sem nenhum medo de ferir suscetibilidades:
O luto não acabou. O que está a acabar é a capacidade de sentir.
E isso é muito mais grave.
Quem ama, respeita.
Quem respeita, demonstra.
Quem demonstra, honra.
E honrar quem nos deu vida, quem nos criou, quem nos amou, não é opcional.
É o mínimo dos mínimos de tudo o que merece.