Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
Na medida do possível, Boas Festas
Embora não haja muito para brindar neste sombrio 2020 finalmente prestes a terminar, não deixemos que a nossa coragem, força e fé, nos abandonem. Por isso, olhemos com renovada esperança para 2021 que está aí, mesmo, mesmo, ao virar da esquina...
José Coelho - 28.12.2020
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Desculpe estragar a festa, mas o Natal não existe
Há uma ideia
generalizada de que o Natal é a comemoração do nascimento de Jesus. Desculpe
estragar a festa, mas Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro nem há 2018 anos
atrás. Então vejamos.
No tempo do Império Romano, havia uma festa dedicada a Saturno (deus grego Cronos/tempo e da agricultura), denominada de Saturnalia, marcando o solstício de inverno. Era uma data muito importante para os povos agrícolas, como o caso dos romanos. Uma festa popular, para agradar os deuses e pedir que o inverno fosse brando e o Sol retornasse ressuscitado, no início da Primavera, o renascimento da vida. O culto solar era celebrado nos dias 24 e 25 de Dezembro, data de nascimento da divindade. Era um período de suspensão do trabalho, de visitar parentes e amigos, de ser generoso, solidário, de oferecer prendas. Isso lembra o Natal, não?
No século IV, o politeísta imperador Constantino converte-se, oficializa o Cristianismo e nasce, assim, a Igreja Católica. Absorveu e ressignificou práticas pagãs diversas; neste caso, o festejo pagão da Saturnalia, transformando-o numa celebração cristã. O Papa Gregório XIII, no século XVI, com a criação do calendário gregoriano, fez o resto. A partir daí, o nascimento de Cristo (que não nasceu no dia 25 e ninguém sabe a data exata) começa a ser celebrado pelos cristãos.
Portanto, o Natal não existe, pelo menos não da forma como a maioria imagina – o nascimento do menino Jesus.
Em que se transformou, hoje, esta antiga data pagã?
Uma cultura do consumo. Capturada pelo comércio, a data é para vender coisas, na sua grande maioria supérfluas. Uma agressiva propaganda na televisão, jornais, revistas, na internet, provoca uma azáfama, planos, listas de compras, centros-comerciais lotados, lojas abarrotadas de gente, ávidas para comprar. As crianças de hoje, exageradamente mimadas, exigem e obtêm, um sem número de prendas. Às vezes, são tantas que não conseguem abri-las todas ou valorizam mais as embalagens do que os próprios brinquedos.
É a época dos políticos e governos, maioritariamente corruptos, que passam o ano a roubar e a esbanjar os impostos e, nesta data, mandam belas mensagens e participam em jantares junto com os pobres, com os sem abrigo, miseráveis estes que os próprios políticos e agentes do governo criaram (ou ajudaram a criar) ao desviar o dinheiro que poderia garantir a comida e o bem-estar deles o ano todo. É lógico que esta ‘solidariedade’ natalina dos políticos deve ser sempre acompanhada por uma ampla cobertura da imprensa.
É a época das pessoas famosas, do jet-set, atores/atrizes, jogadores de futebol, que passam o ano a ganhar milhões e a sonegar impostos (prejudicando os contribuintes e os mais pobres), aparecerem na TV em programas ‘beneficentes’ para dar a entender que são solidários. Ficam sempre bem vistos perante a sociedade.
As autarquias gastam imenso dinheiro com enfeites de Natal e deixam os desabrigados a dormir na rua. Por exemplo, Lisboa gasta todos os anos mais de um milhão de euros, quantia que dava para abrigar/proteger, tirar da rua, definitivamente, todos os moradores de rua da cidade.
Todos, decisores políticos ou não, deviam assistir ao emocionante filme Cardboard Boxer (2016) para ter uma ideia da vida miserável destes excluídos da sociedade. Mas há outros filmes do género marcantes: deixem para lá o já cansativo Sozinho em Casa (1990), que repete todos os anos e assistam The Saint of Fort Washington (1993), Accidental Friendship (2008), The Soloist (2009), Time Out of Mind (2014), alguns baseados em dramáticos factos reais e todos expondo, de maneira super realista, a extrema dureza da vida de uma pessoa sem um lar para chamar de seu e sem um Shelter (2014), um endereço fixo, para mandar uma carta ao Pai Natal.
O que podemos fazer então para celebrar o Natal? Simples: é ser (genuinamente) solidário com os mais necessitados e, seguindo os verdadeiros ensinamentos de Cristo, respeitar e amar uns aos outros. E, se pensarmos bem, por que é que temos de esperar pelo Natal para fazermos isso? Ah, e o mais importante de tudo: não precisamos de dizer a toda a gente e postar no Facebook as fotos da generosidade. Não se esqueçam da lição de Antoine Saint Exupéry, no Principezinho: “o essencial é invisível aos olhos”.
Donizete Rodrigues, Professor de Sociologia, Universidade da Beira Interior, in Observador.pt - 22.12.2018
terça-feira, 3 de novembro de 2020
A dignidade de chegar a velho
Quando
nasci, o meu pai contava já 42 anos. Casou tarde, aos 36, pese embora a minha mãe
tivesse apenas 20. Tão mais jovem do que ele, deduzo que se terá deixado
encantar por aquele modo meigo e afável que o caracterizavam e com o qual
conquistava a amizade de quase toda a gente que com ele lidava. Cresci por isso
a ver surgirem no seu rosto as primeiras rugas e no seu farto cabelo os
primeiros fios prateados.
Treze anos mais tarde fui integrar a sua equipa de trabalho na pedreira da Lajem do Sapato da qual ele era subempreiteiro por conta do Engº Ventura e também ali todos os seus camaradas eram cinquentões como ele. Foi com esses dignos mestres que aprendi o ofício de cabouqueiro e foi também seguramente entre eles que colhi muitos dos ensinamentos que me moldaram para a vida adulta.
Influenciado pela sã vivência com essa geração grisalha e de muito bom senso, habituei-me a ver o mundo pelo prisma deles, mas, sobretudo, a estimar e respeitar os mais velhos, aqueles a quem, por ser mais fino ou – dizem – menos agressivo, se definem agora como idosos. Mas eu continuo a chamar-lhes velhos como sempre chamei porque entendo que a velhice não é uma vergonha nem um castigo e não deve por isso ser maquilhada com brandas denominações para ser mais bem aceite. Em meu entender, chegar a velho é um privilégio, uma recompensa da Vida, uma bênção para quem conseguiu alcançá-la.
Os rostos enrugados dos anciãos, os cabelos prateados e a sabedoria adquirida no decurso das suas vidas merecem de mim todo o respeito e consideração. Admiro a sua inquestionável dignidade, paciência e conformismo, mas, sobretudo, a enorme generosidade com que aceitam ser esquecidos e a nobreza com que ainda por cima desculpam os filhos que passam meses sem os visitar nos lares onde por conveniência própria os depositaram para lá ficarem o resto dos seus dias.
É vulgar ouvir os gentis argumentos com que ainda quase defendem o indesculpável abandono:
- Coitados! Eles não podem cá vir, têm lá as suas vidas…
Na sua imensa bondade não só aceitam como perdoam e ainda acham que coitados são os que, por absoluto desamor, se esquecem que eles ainda estão vivos. Haverá porventura outras tristes histórias de vida de que todos já ouvimos falar em que os enjeitados foram os filhos por razões mais ou menos censuráveis e é natural que esses infelizes não sintam qualquer compaixão por quem os enjeitou, mas de um modo geral é meu entender que abandonar mãe ou pai, irmãos incapacitados, avós ou outros parentes próximos é uma vergonha, um desmazelo, uma injustiça, uma falta de compaixão, de solidariedade, de respeito e de carácter.
Quantos desses velhinhos sacrificaram toda a sua vida e juventude para darem o que podiam, quantas vezes mais do que aquilo que podiam, para que nada faltasse a quem agora os ignora?
José
Coelho in Histórias do Cota
*Excerto
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
sábado, 31 de outubro de 2020
Estórias de roda do lume
Andávamos, havia já dois meses,
de segunda a sexta, a caminho do Centro de Saúde de Castelo de Vide a tratar
uma tendinite do ombro da minha companheira e mãe dos meus filhos. Chegávamos
por volta das onze para só nos despacharmos depois da uma da tarde, o tempo que durava
a fisioterapia. No dia que sucedeu a “estória” que vou hoje escrever, deixei-a no gabinete da fisioterapeuta e fui à farmácia tratar duma receita.
Vi, assim que entrei, sentada
num dos ângulos da farmácia a medir a tensão, a prima-irmã Antonieta, nos seus
bem conservados 83 anos. Fui dar-lhe o beijinho obrigatório porque sou do tempo
em que os nossos pais nos ensinavam a distinguir dessa forma a família mais
chegada. A eles e aos avós pedia-se a bênção dando-lhes um beijinho nas costas da
mão que eles prontamente nos estendiam e a dar dois beijinhos na face aos tios e primos.
Resolvido o que havia a fazer na
farmácia Freixedas convidei-a para tomarmos um café, dado que eu dispunha de mais
de uma hora pela frente. Chuviscava. A prima ainda não tinha tomado o pequeno
almoço por isso foi só atravessarmos a passadeira e instalarmo-nos comodamente
na pastelaria Sol Nascente do outro lado da rua. Inevitavelmente, a conversa
caminhou para as muitas e boas recordações dos nossos entes queridos que já partiram. Depois para os poucos que por cá já restamos, a começar por ela que estava sozinha no
mundo há um par de anos.
Os tios Ciro e Maria d’Alegria seus pais, haviam partido há mais de duas décadas. De velhice. O seu único
irmão o Joaquim, suicidou-se ainda na meia idade, só Deus saberá porquê. O
marido, excelente pessoa o Fernando, finou-se de doença maligna. E ela, embora
lisboeta de toda a sua vida, nunca esqueceu as suas raízes castelovidenses, tendo
comprado uma casa na vila para onde vinha passar longos períodos de repouso e
sossego. Estava agora quase de abalada para a capital porque os invernos lá
são muito mais amenos do que neste serrano Alto Alentejo.
De súbito perguntou-me se costumava
ver o nosso comum primo-irmão Augusto, com quem estava desavinda há vários anos.
E desatou a contar uma estória que eu não conhecia acerca dele. Estória triste
por sinal, coisas de que eu ouvira falar muito pela rama e não havia entendido bem.
Fiquei triste com o que ouvi. Nem a propósito, vimo-lo subitamente a aproximar-se
da pastelaria. Quase cego, ar abatido e muito velhinho para os seus 73 anos.
Levantei-me imediatamente e fui ao seu encontro para lhe dar um beijo como dava sempre que nos encontrávamos e convidá-lo a fazer-nos companhia.
Conheceu-me logo. E vinha chateadíssimo:
- Porra, Zé Manel. Já fiz merda!
- Então, o que aconteceu?
Perguntei surpreso.
- Tratei mal a rapariga do Centro
de Dia e ela não merecia. Se tivesse uma pistola dava um tiro na cabeça!
Retrucou, com manifesta amargura.
Acalmei-o como pude:
- Vá, esquece lá isso. Todos
cometemos erros…
Especada à porta da pastelaria a
equilibrar-se nas duas canadianas, a prima Antonieta olhava-nos atentamente. Não
sei se decidira sair por ver que o Augusto ia entrar, ou se fora só curiosidade. Continuava a chover
aquele molha-parvos miudinho. O Augusto olhou para a Antonieta. A Antonieta
olhou para o Augusto, ambos pouco à vontade mas era visível que algo os unia. Então ela perguntou-lhe:
- Conheces-me? Sabes quem eu sou?
E ele, pouco entusiasmado:
- Conheço! Sei…
Fazia-se já tarde para virmos almoçar
a casa e de súbito pensei de mim para comigo:
- Porque não tentar harmonizar
estes dois? E sem pensar duas vezes, convidei-os:
- Vamos todos almoçar ao Djony?
Não resultou!
A prima Antonieta respondeu
prontamente que havia acabado de tomar o pequeno almoço e já não iria almoçar. E
o Augusto havia já almoçado um arroz de frango no Centro de dia onde tinha
tratado mal a rapariga, aquilo que tanto o apoquentava. Acompanhei-o ao
interior da pastelaria, e, ao passarmos pela prima Antonieta, ela sussurrou-me:
- Paga-lhe lá o café e um bolinho
que eu depois dou-te o dinheiro…
Quem pagou – como fazia sempre – sem
querer ser ressarcido, fui obviamente eu. O primo Augusto quis apenas um carioca
e um copo com água para se acalmar. Despedimo-nos pouco depois do
Augusto que ficou a tomar o seu carioca e da Antonieta que nos aguardava para rumar à sua casa na Carreira de Cima. E fomos mesmo almoçar ao Restaurante
do Djony só os dois eu e a minha Maria, porque, entretanto, já passava das duas da tarde.
Algumas horas depois já em casa,
recebi um telefonema da prima Antonieta muito comovida para me dizer que tinha
passado a tarde inteira a pensar naquele encontro.
E acrescentou:
- Hoje é um dia memorável para nós,
Zé Manel. Foi a primeira vez na nossa vida que nos juntámos, os três primos-irmãos!
Eu, o Augusto e tu…
- É verdade! Não tinha pensado
nisso! Respondi, algo perplexo também.
A Antonieta com 83 anos, o
Augusto com 73 e o Zé Manel com 63.
Ele há coisas!
A Antonieta, nascida e criada em Lisboa. O Augusto, em Luanda, e o Zé Manel na Beirã. Tão longe
sempre uns dos outros. Que destino teria providenciado este raro e imprevisível
encontro naquele dia e hora, na terra que viu nascer a mãe da prima Antonieta,
a mãe e o pai do primo Augusto, assim como o meu saudoso António Coelho, o mais
velho daqueles três irmãos?
Lamentável foi a casmurrice do Augusto e da Antonieta que não deixou que ambos pusessem de parte as suas diferenças e se reconciliassem, como notoriamente devem ter desejado no seu
íntimo, deixando o orgulho falar mais alto de novo. A Vida não lhes permitiu que se voltassem a ver. Esta “estória” aconteceu numa tarde do outono de 2015. Cinco
anos volvidos, nenhum dos dois se encontra já entre nós…
José Coelho in Histórias do Cota
*Excerto





