quarta-feira, 9 de abril de 2025

Dia do Antigo Combatente


"Sabia lá eu então, provinciano ingénuo do profundo interior norte-alentejano de onde quase nunca tinha saído, o que era a tropa, o que era o Mundo, o que era a guerra. 

Ainda mal havia terminado a especialização quando fui mobilizado para integrar o BCAV3871, que se formou no RC3 em Estremoz e passou depois por Santa Margarida até embarcarmos num Boeing 747 a caminho da guerra de Angola, com destino ao Belize e às profundezas do Maiombe, no enclave de Cabinda"

Excerto do Livro Histórias do Cota

José Coelho

Foto Cidade de Estremoz.
22 de dezembro de 1971

Reflexão do dia


 Às vezes quem ajuda não é porque tem muito,
mas porque sabe o que é não ter nada.

Foto Pedro Coelho

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Trovoada...

Foto Pedro Coelho


Sabia que se aproximava uma "tormenta" como lhe chamava a Avó Amélia. Quem nasceu e viveu sempre no campo sabe interpretar os inconfundíveis sinais da natureza. Aprendi-os com o meu avô Zé Lourenço exímio mestre, mas também com o meu pai, outro mestre não menos exímio que o seu bondoso sogro. Qual dos dois amei mais e de qual dos dois tenho mais saudades, nem eu sei. Espero voltar a encontrá-los um dia e que seja para nunca mais nos separarmos.

A manhã de hoje até começou cálida e serena. Mas com o aproximar do meio dia, grossas nuvens negras começaram a cobrir o céu, vindas do lado de Marvão. E em surdina, ainda longínquos, o resmungar de trovões. Sempre tive um profundo respeito (mais medo que respeito) por essa manifestação tonitroante dos fenómenos elétricos, que depois de se degladiarem nos céus, se precipitam sobre a terra na forma de quase sempre destruidores raios.

O sinal mais evidente de perigo é o silêncio que se instala repentinamente em nosso redor. Só se ouve o murmúrio do vento nos ramos das árvores porque até os melros e a outra passarada subitamente começam a buscar, cada um, cautelosos, o abrigo das copas mais densas de folhas. É espantoso como todos os seres vivos o pressentem e tentam proteger-se. Não é para menos, porque além dos relâmpagos e trovões, estas tempestades trazem no seu ventre muitas vezes ventos e chuvadas para "esvacar" e derrubar tudo.

Coitada da mãe verdelhão que mais uma vez decidiu construir o seu ninho na nossa latada e tenho tentado ajudar como posso. Primeiro, foi a pedriscada que caiu na outra semana e quase "despiu" de parras os renovos que cobriam o ninho. Depois, a semana passada, um pé de vento tombou a parreira e quase despejou os ovos para o canteiro. Só não se concretizou o colapso do ninho porque eu vi na hora e corri em busca de ráfia para a endireitar e prender as tenras hastes aos esticadores que sustentam a latada, o que o salvou.

Por isso hoje, mal começou a dita-cuja, assentei arraial na varanda qual bombeiro pronto a acudir àqueles fragilizados amigos em caso de necessidade. Do abrigado alpendre avista-se toda a região norte e nordeste da freguesia, aquela onde nasceu a minha mãe e todos os seus sete irmãos e irmãs, meus tios. E a Cavalinha, onde era a casa dos meus avós.  

É um privilégio sem tamanho avistar tudo quanto foi chão dos meus entes queridos, os lugares onde cresci e fui muito amado por todos eles. Sem querer veio-me à lembrança aquela outra trovoada que em maio de 1963 me fez perder o meu primeiro emprego de pastor do rebanho de ovelhas do tio José Maroco, que Deus tem. Estava sozinho com o rebanho no isolado Monte Velho, quando se desencadeou essa pavorosa trovoada, bem mais assustadora do que a de hoje.

Tentei dominar o medo e afastei-me dos altos sobreiros como me aconselhou sempre o meu avô. Começou a chover a cântaros e as ovelhas abrigaram-se em redor de um pedregulho côncavo. E eu, à falta de melhor companhia, fui para junto delas. Subitamente o estampido ensurdecedor de uma faísca a cair num velho sobreiro do caminho a uns trinta ou quarenta metros de nós, seguido de um portentoso trovão. Foi demais para a minha ousadia. Ainda o sobreiro fumegava e já eu tocava o rebanho caminho abaixo em direção à Beirã.

Cheguei ao bardo e fechei as ovelhas lá dentro, antes das quatro da tarde. A seguir corri apavorado para casa, de onde não saí mais nesse dia. Os meus pais não deram por nada porque andavam a trabalhar também no campo e só regressaram à noite. A trovoada passou e o sol da tarde voltou. E o tio José Maroco foi encontrar as ovelhas fechadas no bardo a meio da tarde. No dia seguinte quando manhã cedo me apresentei no posto de trabalho, lá estava ele à minha espera:

- Então Zé Manel, o que se passou ontem para "ensarrares" as ovelhas quase ao meio dia? Perguntou-me com cara de poucos amigos.

- Tive medo da trovoada e fugi. Respondi-lhe com verdade.

- Ai sim? Então e fugiste para onde? Voltou ele a perguntar.

- Fugi para a minha casa!

- Ai fugiste? Então é para a tua casa que vais voltar agora outra vez porque já não te quero de pastor  para as minhas ovelhas. 

- E diz ao teu pai que depois eu falo com ele.

A trovoada de hoje também já passou mas sem grande alarido. Serviu, pelo menos, para me trazer de volta estas memórias.


José Coelho

Boa semana


Algumas vezes temos de passar pelo pior, para alcançar o melhor. É um processo. Um caminho. Uma trajetória natural que vai alinhando as coisas, colocando tudo no seu lugar. Ter algo fácil demais, deixa tudo muito frágil. Eu sei que a caminhada é longa. Que para ir mais alto, é preciso suar. E ter asas é para quem aperfeiçoa a alma. Só uma alma que aprendeu a lidar com os seus próprios sentidos, com a sua própria luz, com os seus próprios defeitos e já se conhece o suficiente para tentar quantas vezes for preciso - sem ultrapassar os limites da dignidade - é capaz de voar livre para conquistar o que quiser. É com o pior que nos acontece na vida que aprendemos a valorizar o melhor, quando ele vem. (Edgard Abbe Husen)