Foto José Coelho
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
Terra amada
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025
Coisas que leio e gosto
Aprendi a construir todas as minhas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para planos e o futuro tem o costume de ser inseguro. Com o passar do tempo, aprendi que o sol queima se ficarmos expostos a ele demasiado tempo. E que não importa o quanto nos importamos porque algumas pessoas simplesmente nunca se importarão. E aceitei que por melhor que seja qualquer pessoa, alguma irá ferir-nos alguma vez e teremos de a perdoar por isso. Aprendi ainda que falar pode aliviar e muito, certas dores emocionais.
Descobri que se levam anos para construir a confiança e que basta um segundo para a destruir. E que fiz coisas num minuto das quais me irei arrepender o resto da minha vida. Aprendi que as amizades verdadeiras continuam a crescer mesmo a grandes distâncias e que o que importa não é o que temos na nossa vida, mas quem temos na nossa vida. E que os bons amigos são a família que me foi permitido escolher. Aprendi que nunca teremos de mudar de amigos se compreendermos que naturalmente eles mudam, se percebermos que com esses nossos melhores amigos se pode fazer qualquer coisa, ou nada, mas mesmo assim viver bons momentos.
Descobri que as pessoas com quem mais nos importamos na vida podem ser-nos tiradas a qualquer momento e por isso devemos deixar sempre as pessoas amadas com palavras carinhosas porque pode muito bem ser a última vez que as vemos. Aprendi que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas que somos nós os responsáveis por nós mesmos. Comecei a aprender que não devemos comparar-nos com os outros, mas sim com o melhor que conseguirmos ser.
Descobri que demora muito tempo para se conseguir ser aquela pessoa que queremos ser e que o tempo é demasiado breve. Aprendi que não importa onde já chegámos, mas onde queremos chegar. E que, se não soubermos para onde vamos, qualquer lugar serve. Aprendi que ou nós controlamos os nossos atos, ou eles irão controlar-nos a nós. E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação onde existirão sempre dois lados.
Aprendi que os heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. E aprendi que ter paciência requer muita prática. Descobri que algumas vezes a pessoa que esperava que me ignorasse quando me visse cair, foi precisamente uma das poucas que me ajudou a levantar.
Aprendi que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tive e o que aprendi com elas, do que com as dificuldades que venci. Aprendi que há mais dos nossos pais em nós do que supúnhamos e que nunca se deve dizer a uma criança que os sonhos não são reais porque poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprendi que quando estamos zangados temos o direito de estar zangados, mas que isso não nos confere o direito de sermos cruéis. Descobri que só porque alguém não nos ama da forma que queremos ser amados, não significa que esse alguém não nos ame, pois existem pessoas que amam mas simplesmente não o sabem demonstrar.
Aprendi que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém e que algumas vezes temos de aprender a perdoar-nos a nós mesmos também. Aprendi que, com a mesma severidade com que julgamos os outros, em algum momento da nossa vida seremos nós o julgado. Aprendi que não importa em quantos pedaços o meu coração foi partido e que o mundo não vai parar para que eu o conserte, porque o tempo não é algo que possa voltar atrás.
Portanto, plante o seu jardim e decore a sua alma, ao contrário de esperar que alguém lhe traga flores. Aprenda que pode suportar mais do que imaginava, que realmente é forte e que pode ir ainda mais longe depois de muitas vezes ter achado que já não podia mais. E que a vida tem valor, tal como nós temos valor diante da vida!
Veronica Shoffstall (Adaptado)
Foto José Coelho
domingo, 9 de fevereiro de 2025
A vida é (e sempre foi) composta de mudanças
sábado, 8 de fevereiro de 2025
Nem tudo é o que parece...
Gente que ainda existe
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
O irresistível apelo...
Talvez por essa sua inacessibilidade tenham sido desde sempre os meus lugares de eleição. Porque lá tudo quanto nos rodeia é real e puro. O cantar
da passarada pelas manhãs e também pelo silêncio dos entardeceres. A brisa suave que nos acaricia o rosto nos dias amenos ou o vento agreste que nos greta os beiços nos dias frios. Tudo é genuíno. Não existe buraco, cancho ou lapa que eu não conheça ou não tenha visitado, por mais ermo e longínquos que estejam. Cresci e fiz-me moço a percorrer estas paisagens onde apanhei tantíssimos braçados de lenha de giesta seca para a mãe Florinda e também para a avó Amélia cozinharem as nossas comidas ao
lume, porque o luxo dos fogareiros a petróleo ou a gás ainda não existia.
Nestes descampados me refugiei centos
de vezes em busca de tranquilidade quando me senti inquieto. Por mil e um
motivos. Pela aspereza da vida daquele tempo, pelos meus primeiros amores e desamores, mas também, quantas vezes, pelo meu indomável espírito que nunca entendeu render-se, fosse
qual fosse o desafio. Por estas paragens existem imensos lugares onde não chega
ninguém durante semanas, meses, anos até. E quando alguém lá tem de ir, desloca-se
em transportes apropriados, tratores e outras alfaias agrícolas ou carrinhas
4x4, onde, além de se transportar, leva ainda palhas e rações para o gado que por lá
pastoreia todo o ano. E sítios há onde só vão para fazer lenha no outono, ou para a apanha da cortiça no início do verão, sua principal fonte de rendimentos de nove em nove anos.
São quase todos estes lugares parte integrante da minha
história de vida, a começar pela Cavalinha onde me acolheram sempre com tanto amor e
carinho a avó Amélia e o avô/padrinho José que me deu o nome. Também o Muro de
que tanto ouvi falar a vida toda porque foi onde nasceu e se criou a minha mãe
mais os seus sete irmãos e irmãs, meus tios e tias maternos. Tantas peripécias suas contadas
nos nossos serões à lareira! E o Matinho, onde o avô José era guardador de gados, onde a avó
Amélia mondava searas com outras companhas. E para onde foram depois também transitando para trabalharem nos campos à medida que iam crescendo, todos os meus tios e tias.
Quantos lugares conheço por estes arredores?
São quase incontáveis. A Cabeçuda, a Herdade dos Pombais, as Amendoeiras,
o Batão, o Bravo a Bola da Cera, o Cavalo, os Aires,
a Pereira, a Nave, a Anta, a Murta, a Meirinha,
a Retorta, o Monte Velho, o Pereiro Velho, a Malhadinha
Alta, a Herdade do Pereiro com a sua Fadagosa, a Torre,
o Vale do Cano, o Cabeço de Seixo, os Pavios, o Chão
Salgado, o Santo Amador, a Saragoça, a Defesa, as Cebolas,
o Vale da Amoreira, as Águas, a Castinceira, a Bica,
o Cabril, a Fonte Salgueiro, o Cabeço, o Cancho de Ruivo, os Carvalhos de
Roque, a Lagem Alta e tantos, tantos outros que agora não me ocorrem…
Conheço-os de cor porque os percorri a
pé, sozinho e acompanhado, inúmeras vezes. Nunca tive sequer uma bicicleta quando
a maior parte dos meus amigos até já motorizadas tinham. Mas nunca me senti diminuído
por as não ter. Cedo me foi ensinado e compreendi que a vida tem prioridades. E que
a família é, era entre todas, a primeira. O pouco que ganhava da minha magra jorna fazia falta para essas
prioridades e não havia sobras para mais luxos. Por isso, sozinho ou acompanhado, quase
sempre com algum livro a tiracolo, marchava pelos campos e perdia-me
horas a fio na companhia do vento até ao pôr do sol, quantas vezes a noite me rodeou
ainda longe de casa.
Havia veredas tão seguras como as estradas e nelas eu sabia onde estava cada obstáculo para contornar. Hoje nem com óculos graduados vejo já bem, mas naquele tempo, no meio do mato e no escuro das noites cerradas via a vereda, os contornos de tudo ao meu redor e os obstáculos. Mais do que uma boa visão aquilo era puro instinto. E que bem me sabia o sossego dos campos, a companhia das furtivas raposas, o monótono piar dos mochos ou o gorjeio dos melros e rouxinóis, o cantar dos grilos e dos ralos. Só não achava muita graça ao grito agourento das corujas que tinham o péssimo costume de soltar o seu gu-ru-ru algo sinistro quando me sentiam passar mesmo por baixo das pernadas e ramos onde espreitavam os movimentos de algum ratito no solo para o seu jantar.
O meu mundo foi quase sempre por aqui e nele fui infinitamente feliz. Por isso depois de tantos sóis já passados, venho ainda visitá-lo mesmo com as pernas a doer e os pés quase a arrastar. Ontem voltei de novo ao antigo povoado do Monte Velho, acompanhado pela minha inseparável companheira. Fomos demasiado longe mas apesar do cansaço, adorei. Enchi os olhos de beleza, a alma de harmonia e o coração de serenidade. Após demorada visita ao que resta dele, encetámos o regresso a casa acariciando as primeiras alvas e delicadas maias que começam já a despontar pelas giestas, pensando com alguma nostalgia:
- Será que irei voltar aqui mais
alguma vez?
Disse olá a uma bonita vitela que
assim que nos viu logo se encaminhou para nós pregando um monumental susto à minha
companheira que pensou que ia levar alguma marrada. Mas claro que não.
- Não tenhas medo, Maria! Tranquilizei-a…
A vitela pastoreava com mais duas ou três
irmãs, e, habituada a que os humanos lhes levem sempre algum miminho em forma de feno
ou granulado da ração, dirigiu-se a nós à espera do seu “presente”. Quando viu
que não lhe levávamos nada, seguiu o seu caminho e nós o nosso.
Esteve uma tarde esplêndida e no ar
pairam já por toda a parte os primeiros aromas primaveris. Aqueles cenários transportaram-me à minha meninice quando passei pelo carcomido toco do sobreiro que um raio
derrubou quase ao meu lado quando eu era pastor. Vencido pelos temporais, ainda
negro por dentro pela descarga incandescente que o derrubou, lá continua, indiferente ao
tempo e às nossas memórias. A seguir passámos pela Tapada da Lagem Alta, muito perto
da pedra onde eu pulava na brincadeira e me picou um lacrau num pé, enquanto a
minha mãe mondava milho um pouco mais abaixo. É tão bom recordar.
- Se puder vou voltar. Decidi.
José Coelho





