quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Terra amada


As margens do Ribeiro da Cavalinha cujo leito, coberto de juncos e buinho, atravessa a minha Beirã de sul para norte, bem como todo o centro desta imagem, da esquerda para a direita.

Foto José Coelho 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Coisas que leio e gosto


Com o passar do tempo, aprendi a diferença, a subtil diferença que existe entre dar uma mão e acorrentar uma alma. Aprendi que amar não significa apoiar e que companhia nem sempre significa segurança. E aprendi também que beijos não são contratos e que presentes não são promessas. Aprendi a aceitar as minhas derrotas de cabeça erguida e a olhar em frente com a graça de um adulto, não com a tristeza de uma criança.

Aprendi a construir todas as minhas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para planos e o futuro tem o costume de ser inseguro. Com o passar do tempo, aprendi que o sol queima se ficarmos expostos a ele demasiado tempo. E que não importa o quanto nos importamos porque algumas pessoas simplesmente nunca se importarão. E aceitei que por melhor que seja qualquer pessoa, alguma irá ferir-nos alguma vez e teremos de a perdoar por isso. Aprendi ainda que falar pode aliviar e muito, certas dores emocionais.

Descobri que se levam anos para construir a confiança e que basta um segundo para a destruir. E que fiz coisas num minuto das quais me irei arrepender o resto da minha vida. Aprendi que as amizades verdadeiras continuam a crescer mesmo a grandes distâncias e que o que importa não é o que temos na nossa vida, mas quem temos na nossa vida. E que os bons amigos são a família que me foi permitido escolher. Aprendi que nunca teremos de mudar de amigos se compreendermos que naturalmente eles mudam, se percebermos que com esses nossos melhores amigos se pode fazer qualquer coisa, ou nada, mas mesmo assim viver bons momentos.

Descobri que as pessoas com quem mais nos importamos na vida podem ser-nos tiradas a qualquer momento e por isso devemos deixar sempre as pessoas amadas com palavras carinhosas porque pode muito bem ser a última vez que as vemos. Aprendi que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas que somos nós os responsáveis por nós mesmos. Comecei a aprender que não devemos comparar-nos com os outros, mas sim com o melhor que conseguirmos ser.

Descobri que demora muito tempo para se conseguir ser aquela pessoa que queremos ser e que o tempo é demasiado breve. Aprendi que não importa onde já chegámos, mas onde queremos chegar. E que, se não soubermos para onde vamos, qualquer lugar serve. Aprendi que ou nós controlamos os nossos atos, ou eles irão controlar-nos a nós. E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação onde existirão sempre dois lados.

Aprendi que os heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. E aprendi que ter paciência requer muita prática. Descobri que algumas vezes a pessoa que esperava que me ignorasse quando me visse cair, foi precisamente uma das poucas que me ajudou a levantar.

Aprendi que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tive e o que aprendi com elas, do que com as dificuldades que venci. Aprendi que há mais dos nossos pais em nós do que supúnhamos e que nunca se deve dizer a uma criança que os sonhos não são reais porque poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprendi que quando estamos zangados temos o direito de estar zangados, mas que isso não nos confere o direito de sermos cruéis. Descobri que só porque alguém não nos ama da forma que queremos ser amados, não significa que esse alguém não nos ame, pois existem pessoas que amam mas simplesmente não o sabem demonstrar.

Aprendi que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém e que algumas vezes temos de aprender a perdoar-nos a nós mesmos também. Aprendi que, com a mesma severidade com que julgamos os outros, em algum momento da nossa vida seremos nós o julgado. Aprendi que não importa em quantos pedaços o meu coração foi partido e que o mundo não vai parar para que eu o conserte, porque o tempo não é algo que possa voltar atrás.

Portanto, plante o seu jardim e decore a sua alma, ao contrário de esperar que alguém lhe traga flores. Aprenda que pode suportar mais do que imaginava, que realmente é forte e que pode ir ainda mais longe depois de muitas vezes ter achado que já não podia mais. E que a vida tem valor, tal como nós temos valor diante da vida!

Veronica Shoffstall (Adaptado)

Foto José Coelho

domingo, 9 de fevereiro de 2025

A vida é (e sempre foi) composta de mudanças


A nossa vida muda depois de uma certa idade. Deixamos de querer conflitos e de dar explicações, optamos por rodear-nos de cada vez menos pessoas, começamos a apreciar o silêncio e a escolher a ausência para nos dedicarmos mais ao que nos concede paz.

Começamos a ver as coisas como elas são e cada vez menos como parecem, a preservar o melhor de nós apenas para quem nos conhece a fundo.

Aprendemos a ficar calados e abrir mão de muitas coisas, a fazer seleção entre o útil e o fútil, porque tudo o que é inútil deixa de nos importar.
Afastamo-nos de muitas coisas: palavras, pessoas e objetos, preferindo ficar apenas com o que nos torna melhores.
Em resumo, aprendemos a deixar ir…

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Nem tudo é o que parece...



Nem sempre quem sente saudades as manifesta. A gente pode sentir saudades em silêncio, no segredo do nosso coração. Não procurar, não significa ter esquecido. A gente pode ter uma pessoa no pensamento mas o facto de não correr atrás dela, não significa necessariamente que não sinta a sua falta. Significa que compreendemos que a vida segue em frente e que essa pessoa tem de ser deixada para trás para ficar apenas na nossa lembrança. E, ainda que a saudade doa muito, ela é necessária para sabermos que o passado valeu a pena, mas que, apesar disso, foi feito para ficar apenas lá, no passado.

José Coelho
08.02.2025 

Gente que ainda existe

Amo gente digna. Não falo de gente sem pecados, nem isenta de erros. Falo de gente limpa de coração que nos trata com verdade e respeito, que pensa no outro e não trata a vida de ninguém com leviandade. Gente de caráter, gente honesta e leal. Gente em quem posso confiar de olhos fechados. Que sorri sem falsidade e vejo nos olhos que fica feliz com a minha felicidade. Gente que sabe ser companheira. Amo e como amo gente que entende o que é dignidade.

                                                                                                               Rachel Carvalho

Foto José Coelho — em Beirã.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O irresistível apelo...

Povoado Alto-Medieval do Monte Velho - Foto José Coelho

Mais de uma vez pensei já não voltar àqueles lugares, engendrando de mim para comigo plausíveis desculpas. O facto de estar a ficar menos ágil, de já não ter a leveza de quando era moço para subir e descer canchais ou saltar paredes, de não ser aconselhável afastar-me dos caminhos já tão pouco percorridos não vá dar-se a casualidade de um inesperado trambolhão que origine necessidade de socorro urgente a que a maior parte destes ermos são praticamente inacessíveis.

Talvez por essa sua inacessibilidade tenham sido desde sempre os meus lugares de eleição. Porque lá tudo quanto nos rodeia é real e puro. O cantar da passarada pelas manhãs e também pelo silêncio dos entardeceres. A brisa suave que nos acaricia o rosto nos dias amenos ou o vento agreste que nos greta os beiços nos dias frios. Tudo é genuíno. Não existe buraco, cancho ou lapa que eu não conheça ou não tenha visitado, por mais ermo e longínquos que estejam. Cresci e fiz-me moço a percorrer estas paisagens onde apanhei tantíssimos braçados de lenha de giesta seca para a mãe Florinda e também para a avó Amélia cozinharem as nossas comidas ao lume, porque o luxo dos fogareiros a petróleo ou a gás ainda não existia.

Nestes descampados me refugiei centos de vezes em busca de tranquilidade quando me senti inquieto. Por mil e um motivos. Pela aspereza da vida daquele tempo, pelos meus primeiros amores e desamores, mas também, quantas vezes, pelo meu indomável espírito que nunca entendeu render-se, fosse qual fosse o desafio. Por estas paragens existem imensos lugares onde não chega ninguém durante semanas, meses, anos até. E quando alguém lá tem de ir, desloca-se em transportes apropriados, tratores e outras alfaias agrícolas ou carrinhas 4x4, onde, além de se transportar, leva ainda palhas e rações para o gado que por lá pastoreia todo o ano. E sítios há onde só vão para fazer lenha no outono, ou para a apanha da cortiça no início do verão, sua principal fonte de rendimentos de nove em nove anos.

São quase todos estes lugares parte integrante da minha história de vida, a começar pela Cavalinha onde me acolheram sempre com tanto amor e carinho a avó Amélia e o avô/padrinho José que me deu o nome. Também o Muro de que tanto ouvi falar a vida toda porque foi onde nasceu e se criou a minha mãe mais os seus sete irmãos e irmãs, meus tios e tias maternos. Tantas peripécias suas contadas nos nossos serões à lareira! E o Matinho, onde o avô José era guardador de gados, onde a avó Amélia mondava searas com outras companhas. E para onde foram depois também transitando para trabalharem nos campos à medida que iam crescendo, todos os meus tios e tias.

Quantos lugares conheço por estes arredores? São quase incontáveis. A Cabeçuda, a Herdade dos Pombais, as Amendoeiras, o Batão, o Bravo a Bola da Cera, o Cavalo, os Aires, a Pereira, a Nave, a Anta, a Murta, a Meirinha, a Retorta, o Monte Velho, o Pereiro Velho, a Malhadinha Alta, a Herdade do Pereiro com a sua Fadagosa, a Torre, o Vale do Cano, o Cabeço de Seixo, os Pavios, o Chão Salgado, o Santo Amador, a Saragoça, a Defesa, as Cebolas, o Vale da Amoreira, as Águas, a Castinceira, a Bica, o Cabril, a Fonte Salgueiro, o Cabeço, o Cancho de Ruivo, os Carvalhos de Roque, a Lagem Alta e tantos, tantos outros que agora não me ocorrem…

Conheço-os de cor porque os percorri a pé, sozinho e acompanhado, inúmeras vezes. Nunca tive sequer uma bicicleta quando a maior parte dos meus amigos até já motorizadas tinham. Mas nunca me senti diminuído por as não ter. Cedo me foi ensinado e compreendi que a vida tem prioridades. E que a família é, era entre todas, a primeira. O pouco que ganhava da minha magra jorna fazia falta para essas prioridades e não havia sobras para mais luxos. Por isso, sozinho ou acompanhado, quase sempre com algum livro a tiracolo, marchava pelos campos e perdia-me horas a fio na companhia do vento até ao pôr do sol, quantas vezes a noite me rodeou ainda longe de casa.

Havia veredas tão seguras como as estradas e nelas eu sabia onde estava cada obstáculo para contornar. Hoje nem com óculos graduados vejo já bem, mas naquele tempo, no meio do mato e no escuro das noites cerradas via a vereda, os contornos de tudo ao meu redor e os obstáculos. Mais do que uma boa visão aquilo era puro instinto. E que bem me sabia o sossego dos campos, a companhia das furtivas raposas, o monótono piar dos mochos ou o gorjeio dos melros e rouxinóis, o cantar dos grilos e dos ralos. Só não achava muita graça ao grito agourento das corujas que tinham o péssimo costume de soltar o seu gu-ru-ru algo sinistro quando me sentiam passar mesmo por baixo das pernadas e ramos onde espreitavam os movimentos de algum ratito no solo para o seu jantar. 

O meu mundo foi quase sempre por aqui e nele fui infinitamente feliz. Por isso depois de tantos sóis já passados, venho ainda visitá-lo mesmo com as pernas a doer e os pés quase a arrastar. Ontem voltei de novo ao antigo povoado do Monte Velho, acompanhado pela minha inseparável companheira. Fomos demasiado longe mas apesar do cansaço, adorei. Enchi os olhos de beleza, a alma de harmonia e o coração de serenidade. Após demorada visita ao que resta dele, encetámos o regresso a casa acariciando as primeiras alvas e delicadas maias que começam já a despontar pelas giestas, pensando com alguma nostalgia:

- Será que irei voltar aqui mais alguma vez?

Disse olá a uma bonita vitela que assim que nos viu logo se encaminhou para nós pregando um monumental susto à minha companheira que pensou que ia levar alguma marrada. Mas claro que não.

- Não tenhas medo, Maria! Tranquilizei-a…

A vitela pastoreava com mais duas ou três irmãs, e, habituada a que os humanos lhes levem sempre algum miminho em forma de feno ou granulado da ração, dirigiu-se a nós à espera do seu “presente”. Quando viu que não lhe levávamos nada, seguiu o seu caminho e nós o nosso.

Esteve uma tarde esplêndida e no ar pairam já por toda a parte os primeiros aromas primaveris. Aqueles cenários transportaram-me à minha meninice quando passei pelo carcomido toco do sobreiro que um raio derrubou quase ao meu lado quando eu era pastor. Vencido pelos temporais, ainda negro por dentro pela descarga incandescente que o derrubou, lá continua, indiferente ao tempo e às nossas memórias. A seguir passámos pela Tapada da Lagem Alta, muito perto da pedra onde eu pulava na brincadeira e me picou um lacrau num pé, enquanto a minha mãe mondava milho um pouco mais abaixo. É tão bom recordar.

- Se puder vou voltar. Decidi.

José Coelho 

Agradecimento


Uma constipação daquelas chatinhas que demoram a ir embora tem-me mantido afastado das minhas escritas que retomarei assim que melhorar. Agradeço a quem continua a vir visitar este blogue mesmo sem nada de novo para ler e é para esses visitantes, sejam quem forem, que vão o meu obrigado e o meu apreço também. Bem hajam.

José Coelho