quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Your address (republicação)


Esta calculadora velhinha, insignificante e toda oxidada já pelos anos de uso, tem uma história que me ocorre contar-vos. Começou na Estação Ferroviária de Santa Apolónia em Lisboa dentro do Comboio Hotel Lusitânia Expresso com destino a Madrid, perto das 23 horas de uma sexta-feira início de um fim de semana em 1984, quando eu frequentava o 6º Curso de Formação de Sargentos no Centro de Instrução da Guarda Nacional Republicana na Calçada da Ajuda.
Normalmente eu viajava no então chamado "comboio das oito" que saía de Santa Apolónia às cinco e meia da tarde e chegava a Castelo de Vide, onde então morava, por volta das oito da noite. Porém, em virtude de um camarada do curso se encontrar internado no Hospital Militar de Doenças Infecto Contagiosas da Ajuda (HMDIC) com uma hepatite e vendo-o mais desesperado pelo receio de perder o curso por motivo de faltas, do que pela gravidade da doença, decidi ir falar com o Diretor do Curso Capitão Aloísio, perante o qual me comprometi a elaborar um resumo escrito de todas as matéria dadas em cada dia de ausência do doente que iria pessoalmente levar-lhe em mão, podendo dessa forma dar-lhe a possibilidade de "acompanhar" à distância o seguimento do curso e ir estudando as matérias no hospital para ser submetido às respetivas provas de avaliação quando tivesse alta.
Curiosamente e porque nada acontece por acaso, o meu camarada furriel estava internado no mesmo reservado das doenças infeto contagiosas do hospital em que se encontrava um senhor oficial do Regimento de Cavalaria, que, para que não restasse qualquer dúvida, em conversas regulares com o seu camarada capitão Aloísio e nosso diretor de curso, lhe confirmava a minha perseverança e pontualidade diária de ali comparecer e ficar o tempo que fosse necessário a explicar ao camarada doente tudo o que haviam sido as aulas de cada dia.
Percebendo perfeitamente porque é que nenhum outro camarada do curso ia visitar o camarada doente, sabia também que o contágio daquela doença não se processa pela proximidade com os infetados mas sim pelo contacto físico com algum deles, sem se estar devidamente protegido. Se assim não fosse, nunca me seria permitido entrar como entrava à vontade no Hospital e aceder ao quarto dos dois doentes que ali permaneciam em tratamento.
Assim sucedeu que durante mais de um mês tive de optar por viajar aos fins de semana no Lusitânia que saía de Santa Apolónia às 23 horas e chegava a Castelo de Vide por volta da uma da manhã, porque isso me dava tempo de sobra para entregar os apontamentos, explicar alguma coisa que tivesse de ser explicada, jantar algo por ali em algum bar da estação e apanhar o Lusitânia sem correrias.
Que tem tudo isto a ver com uma calculadora, perguntar-se-ão vocês. Pois! Quem me lê regularmente sabe que quando conto alguma das minhas histórias de vida, gosto de começar pelo princípio. E viajar num comboio internacional a sair às tantas da noite e por sinal bem mais caro que os normais, não é vulgar.
Por isso quis explicar-vos o porquê.
Acabara naquela noite de me acomodar numa das confortáveis cabines perto da porta de acesso, quando me apercebi de um casal de idosos cada um com seu malão de viagem quase maior do que eles, a tentarem subir para a carruagem e aprestei-me a ajudá-los. Primeiro a aceitar cada um dos malões que acomodei na rede sobre os assentos, depois a acomodá-los a eles próprios nas poltronas opostas à minha.
Comunicar foi o mais complicado. Porém, entre português e inglês, à mistura com muita mímica, lá nos conseguimos entender. Eram americanos, ele tinha-se aposentado recentemente e estavam a dar uma volta pela Europa. Iam para Madrid. Ele fora militar e ela era sua esposa. Viviam na Flórida. Estavam maravilhados com Portugal e com a hospitalidade dos portugueses. E eu era mais uma prova disso, riam divertidos. Como pude, apresentei-me também. Militar como o senhor e ia para Castelo de Vide onde tinha casa, "wife" e "two childrens" (eheheh as figuras que a gente faz).
Foram três divertidas horas de viagem em que não nos calámos um minuto sequer. A dado momento o revisor veio picar os bilhetes e eu puxei do meu artesanal porta-moedas redondo de cabedal daqueles que se rodam para fazer coincidir a boca interior com a exterior para retirar o meu bilhete que ali tinha guardado. O americano olhou espantado para o porta-moedas e pediu para o ver na sua mão. Rodou, abriu, fechou, extasiado como se aquilo fosse uma coisa rara!
E proferiu vários "nice" "nice"...
Disse-lhe que aquilo era artesanato, se bem me lembro acho que o comprei em Reguengos de Monsaraz, e vendo-o tão fascinado com ele, despejei as moedas e o bilhete do comboio para o bolso e ofereci-lho. "Wow, now, now, now... Exclamava. Mas eu fiz questão e ele aceitou encantado. E imediatamente me estendeu um papel e uma caneta e pediu "your address". Percebi que me estava a solicitar o meu endereço. Escrevi-o como ele insistiu. Entretanto o Lusitânia acercou-se a Castelo de Vide e saí, não sem efusivas manifestações de satisfação do simpático casal de viajantes com inúmeros "tank you".
Nunca mais pensei neles porque eram apenas mais dois entre milhares de outros viajantes que comigo partilharam as viagens de comboio durante três longos anos de cursos de promoção. Um ano para Cabo e dois para sargento. Até que um dia, meses mais tarde, recebi um aviso dos correios para ir levantar uma encomenda com procedência da Califórnia - USA. E fui. E era esta calculadora Casio, pioneira das calculadoras a energia solar, acompanhada por uma extensa carta que ainda guardo, a qual não sabia ler mas que um camarada licenciado fez o favor de me traduzir.
Agradeciam uma vez mais a minha ajuda, o porta moedas nice e enviavam essa calculadora como presente, convidamdo-nos a irmos - eu e a minha família - visitá-los na sua Califórnia...
(Texto e foto)

Obrigado, filho


Orgulho de pais pela imensa generosidade, valores e princípios que possuis, praticas e assim são oficialmente reconhecidos por quem de direito, querido filho. Parabéns e obrigado por todas as vidas que tens ajudado a salvar.

com Maria Coelho
23. 01. 2025

Trinta e um anos de saudade


 Descansa em paz querido e saudoso Pai. Nunca te esquecerei.

** António Maria Coelho **
* 05.11.1910 - 23.01.1994 *

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Boa semana


Tive aqueles pais que não conheciam luxo, mas entendiam muito bem sobre valores.
Aqueles que nunca me deram tudo o que eu queria, mas sempre me deram o que eu precisava.
Tive aqueles que se levantavam antes do amanhecer, com as mãos cheias de trabalho e o coração cheio de amor.
Aqueles que, mesmo cansados, sempre tinham tempo para me ensinar o que era certo.
Tive aqueles pais que não me deixaram riquezas materiais, mas sim o tesouro da humildade, do respeito e do esforço.
Hoje entendo que nunca me faltou nada, porque eles me ensinaram a lutar por tudo.
Obrigada, mãe e pai, por me darem o melhor: o vosso exemplo..

Petiscos

Lombinhos grelhados com migas de brócolos
Foto José Coelho

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Herança que agradeço e quero honrar




Porque nasci no seio da humildade habituei-me a não dar grande importância ao dinheiro e a ser feliz com o que posso ter. A minha mãe nunca tinha a certeza do que iria ser o almoço no dia seguinte sendo a sua única certeza o pouco que teria para escolher. Uma sopa com produtos da horta e pão com algum conduto que muitas vezes se resumia a uma omelete, a um punhado de azeitonas ou toucinho frito porque os enchidos tinham de guardar-se para as merendas do dia seguinte. 

Muita gente achará que é treta e se possa ser feliz assim sem quase nada. Mas éramos mesmo. Nesta casa a única coisa que havia em abundância era a alegria e a boa disposição de manhã à noite. A minha mãe cantarolava facilmente fosse a migar as nabiças do jantar, fosse a lavar a roupa no tanque da aldeia ou mesmo sentada ao sol no quintal a remendar as nossas roupas mais surradas pelo uso. 

Um rádio Grundig a pilhas fazia as delícias dos nossos serões com aquele programa diário de discos pedidos da Radio Badajoz cujas músicas no acordeon da Maria Albertina davam imediatamente azo a sessões de baile na nossa cozinha, felizes e despreocupados como agora não sabemos ser, apesar de a vida ter evoluído para bastante melhor.

Ou, pelo menos, é isso que nós pensamos. Só não sei muito bem, não tenho hoje assim tanta certeza se "ist'agora" é realmente melhor do que era "d’antes"...

Já velhinha e completamente invisual, muitas vezes ouvia a tia Florinda trautear as modas dela comodamente sentadinha no sofá. E quando alguma música sua conhecida passava na televisão logo os seus pezinhos começavam a bater ritmadamente no chão ao compasso dos acordes. E eu ficava em silêncio, deliciado, a observá-la. 

Coisas tão simples que quase passavam despercebidas na altura mas que a saudade vai buscar hoje para me dizer que sim, que apesar de toda a sua vida humilde e de "o Senhor lhe ter levado os seus olhos" como ela dizia, a minha mãe foi uma criatura feliz. 

Tranquila, conformada com a sua sorte e feliz.

Herdei dela algum desse estado de espírito e estou-lhe muito grato por isso. Sou completamente desapegado do dinheiro e outros bens materiais que para muita gente que conheço são imprescindíveis. Visto qualquer trapinho que goste e sem me preocupar minimamente se é de marca ou da moda. 

Tanto sou capaz de comprar numa tenda do mercado como numa loja chique, desde que aquilo que quero se encontre numa ou noutra. Não troco um jantar em casa com a família por outro no restaurante ou com amigos e aprecio muito mais umas migas com sardinhas fritas do que qualquer mariscada. Em resumo, nasci e cresci no meio dessa simplicidade, sempre fui feliz no meio dela, por isso é assim que gosto de viver.

Vivemos tempos tão complicados e imprevisíveis, para que havemos de complicar e dificultar ainda mais o que já não é fácil?

Empoleiradas nas chaminés cá de casa, as rolas turcas cantam também como cantava a minha mãe, seja verão ou inverno. Ah valentes! Assim é que é. Continuem a ser alegres amigas, porque a vossa vida, tal como a nossa, é muito breve. Só que nós, os humanos, fazemos de conta que não sabemos isso e vivemos como se não fossemos morrer nunca, porque ansiamos mais ser ricos, do que felizes.

Felizmente - o diabo seja surdo e mudo - por aqui e por enquanto, a vida continua como sempre foi cercada de tranquilidade. Basta a gente olhar e ficar atento ao que nos rodeia que não é pouco...

José Coelho