terça-feira, 21 de novembro de 2023

A dignidade de chegar a velho


Quando nasci o meu pai contava já 42 anos. Casou tarde, aos 36, pese embora a minha mãe tivesse apenas 20. Tão mais jovem do que ele, deduzo que se terá deixado encantar por aquele modo meigo e afável que o caracterizavam e com o qual conquistava a amizade de quase toda a gente que com ele lidava. Cresci por isso a ver surgirem no seu rosto as primeiras rugas e no seu farto cabelo os primeiros fios prateados.

Treze anos mais tarde fui integrar a sua equipa de trabalho na pedreira da Lajem do Sapato da qual ele era subempreiteiro por conta do Engº Ventura e também ali todos os seus camaradas eram cinquentões como ele. Foi com esses dignos mestres que aprendi o ofício de cabouqueiro e foi também seguramente entre eles que colhi ensinamentos que me moldaram para a vida adulta.

Influenciado pela sã vivência com essa geração grisalha e de muito bom senso, habituei-me a ver o mundo pelo prisma deles, mas, sobretudo, a estimar e respeitar os mais velhos, aqueles a quem, por ser mais fino ou – justificam – menos agressivo, se definem agora como idosos. Mas eu continuo a chamar-lhes velhos como sempre chamei e como prefiro que me chamem também a mim, porque entendo que a velhice não é vergonha nem castigo e não deve por isso ser maquilhada com brandas denominações para ser mais bem aceite. Chegar a velho em meu entender é um privilégio, uma recompensa da Vida, uma bênção para quem consegue alcançá-la.

Os rostos enrugados dos anciãos, os cabelos prateados e a sabedoria adquirida no decurso das suas vidas merecem todo o respeito e consideração. Admiro a sua inquestionável dignidade, paciência e conformismo, mas, sobretudo, a enorme generosidade com que aceitam ser esquecidos, assim como a subtil nobreza como ainda desculpam os familiares que passam meses sem os visitar nos lares onde por conveniência própria os depositaram para lá ficarem o resto dos seus dias.

É vulgar ouvir da sua boca os gentis argumentos com que defendem tão indesculpável abandono:

- Coitados! Não podem vir cá, têm lá as suas vidas…

Na sua enorme bondade não só aceitam como perdoam e ainda acham que coitados são quem se esquece que eles ainda estão vivos. Em meu entender também, o abandono de mãe ou de pai, de irmãos ou de avós é uma vergonha, um desmazelo, uma ingratidão, uma injustiça, uma falta de compaixão, de solidariedade, de respeito e de carácter.

Quantos desses velhos se sacrificaram para darem tudo o que podiam, até mais do que podiam, para que nada faltasse àqueles que depois os ignoram...

Foram esses os valores e princípios que lhes ensinaram, muito mais pelo exemplo do que por palavras porque outrora o tempo era escasso para as palavras pois havia que mourejar do romper da aurora até ao sol-posto.

Não deve ter havido no mundo um pai menos conversador do que o meu. Ainda assim eu colhi dele quase tudo o que sou, através do seu exemplo no dia a dia. Sem grandes discursos e sem grandes mimos, porque dele quem mais colo colheu foram depois os netos que manifestamente adorava e o adoravam também.

Estou completamente à vontade e em absoluto sossego de consciência para criticar tais comportamentos porque acolhi em minha casa durante vários anos a minha mãe e dela cuidei amorosamente até ao fim dos seus dias com o permanente e precioso auxílio da minha esposa e da minha irmã mais nova, após uma retinopatia diabética a ter cegado por completo. Também o meu pai e o pai dele o avô Faustino, assim como a avó Amélia mãe da minha mãe, os três partiram da minha casa para a eternidade rodeados de carinho e de cuidados de quem amavam e os amava a eles.

Só a avó Adelina mãe do meu pai não tive o privilégio de conhecer porque faleceu aos 51 anos com um ataque cardíaco, quando eu tinha acabado de nascer. Porém, mesmo sem nunca a ter conhecido, aprendi a amá-la por muito dela ter ouvido falar. Também o querido avô José Lourenço o meu mais velho e saudoso amigo a quem devo o nome e muitas outras coisas boas, partiu inesperadamente sem de nós se despedir acometido de grave insuficiência respiratória no hospital de Portalegre onde fora internado de urgência poucos dias antes. Tinha 67 anos.

Quisera eu ter podido tê-los também comigo em minha casa para deles cuidar…

José Coelho in Histórias do Cota

*Excerto


Foto Pedro Coelho

- 20. 11. 2023

sábado, 18 de novembro de 2023

Bom fim de semana


O que é que me trouxe a idade? Muito mais do que saber o que me trouxe a idade, interessa-me saber o que me trouxe a maturidade, porque embora ache que sempre a tenha tido, sinto que aumentou com o passar dos anos.

A idade trouxe-me rugas, manchas na pele, flacidez e algumas dores no corpo. A maturidade trouxe-me a aceitação do meu corpo como é, com todas as mudanças trazidas pela idade. Trouxe-me mais paciência para certas coisas e menos para outras. Aprendi a aceitar coisas que não aceitava e aprendi a desvalorizar outras.

A idade retirou-me muita da impaciência da juventude, porque paciência para esperar nunca foi uma virtude minha, mas com a maturidade, aprendi que preciso de esperar e confiar. Ao mesmo tempo, a maturidade trouxe-me a confiança para não fazer certos fretes, para responder «não», para não acompanhar alguém quando não me apetece, para ter o direito de não ir, de não falar ou não aceitar.

Trouxe-me uma confiança em mim própria, que nunca tive quando era mais jovem. Pesando tudo numa balança, não voltava atrás. Nunca fui de voltar atrás, para mim o caminho é sempre em frente.

Quero envelhecer em paz, sem remorsos, sem angústias, sem mágoas, fazendo sempre aquilo que sinto ser o melhor para mim e para os outros. Quero envelhecer sem medo ou nostalgia de perder o frescor da juventude, sem sofrer por causa disso, aceitando que é mais uma fase da minha vida, a que me vai conduzir ao desfecho final e inevitável.

Quero, acima de tudo, sentir sempre que a minha vida valeu a pena, que me mantive íntegra, verdadeira e honesta até ao fim.

Ana Silvestre

domingo, 12 de novembro de 2023

Bom Domingo


É preciso diminuir a distância entre aquilo que se diz e o que se faz, até que aquilo que é dito seja o mesmo que é feito.

Paulo Freire

- 12. 11. 2023

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

A Vida dá, a Vida tira


Nesta casa e nesta data, durante muitos anos, festejou-se a noite de S. Martinho com a prova do nosso vinho novo, jantar e magusto de castanhas, onde chegámos a ser mais de 30 comensais à mesa. Pais, avós, irmãs, cunhados, sobrinhos e sobrinhas, tios, primos e compadres. Porque os filhos também já "voaram" do ninho, hoje já só cá estamos nós: Eu e a dona da casa. É a Vida...

Foto José Coelho

Prendinha de S. Martinho


Prendinha tão boa deste S. Martinho 2023! A irmã Joaquina Coelho com o seu talento e arte nos bordados com cascas de castanhas, genuínos de Marvão, n' A NOSSA TARDE da RTP 1. Parabéns, mana. Beijinhos...
- 10. 11. 2023

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Bom fim de semana


Nem sempre tenho motivos para sorrir, mas nunca deixarei de os procurar!
Foto José Coelho - 02. 11. 2023

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Ainda há (felizmente) pessoas de (muito) bom coração


Entretido nas minhas leituras vi, pela janela do escritório, aproximar-se a carrinha 4x4 branca de caixa aberta e pensei:

- Lá vem o mestre da obra (cá de casa).

E continuei no que estava a fazer, sem dar mais atenção ao assunto. Ouvi conversar, mas de igual modo imaginei que seria o mestre a falar com o pedreiro ou com o servente.
De súbito tocaram a campainha da porta da rua e a Maria Manuela foi ver quem era.
E chamou-me:
- Zé, chega aqui que temos duas visitas.
E eu fui.
Eram o compadre Joaquim mais a sua senhora e nossa comadre. Vinham trazer-nos dois enormes baldes de belíssimas azeitonas para o nosso pote da salmoura que tinham ido colher os dois, para nós.
Fiquei aflito porque ambos têm também sérios problemas de saúde, provavelmente mais sérios ainda do que o meu e o da minha companheira. Já em anos anteriores nos haviam oferecido algumas, mas íamos ter com eles e quem as colhia éramos nós, depois de eles nos indicarem as oliveiras.
Como este ano logo na apanha das primeiras cordovis para britar, oferecidas por outro generoso amigo, fui sozinho porquanto a minha inseparável companheira está a convalescer de uma recente cirurgia e não deixei que me acompanhasse, sofri uma aparatosa queda que me aleijou com alguma gravidade. Por tal motivo já tinha desistido de ir apanhar mais, por absoluta incapacidade de o fazer.
Em jeito de consolo dizia-me a Maria Manuela:
- Deixa lá…Vamos comprando uns frascos de conserva para matarmos o desejo!
Claro que as azeitonas em conserva à venda nas superfícies comerciais carregadas de químicos, nada têm a ver com as que nós preparamos em casa escolhidas uma a uma, temperadas em potes de barro com orégãos, louro e sal e com a água pura que vamos apanhar às fontes que abundam na serra.
Provavelmente por saberem que me aleijei e por serem duas pessoas excecionais em todos os sentidos, tomaram a iniciativa que os trouxe cá. No mundo em convulsão e de coisas más que nos entram pela casa dentro todos os dias nos telejornais, encontrar pessoas assim tão generosas e de bom coração enche-nos a alma de conforto e gratidão.
Muitos de vós os conheceis. Mas outros há que nunca os viram nem sabem quem são. Por isso quero deixar aqui registado este seu gesto que para todos nós é uma lição de humildade, de generosidade e de amor pelo próximo. Não é só por esse próximo que eles vieram mimar ser eu, mas porque esse é o seu modo de estarem na vida. Não pensam só neles. Gostam de ajudar, de dividir, de serem prestáveis. E nem os problemas sérios de saúde que afligem ambos os impedem de serem assim altruístas e generosos.
Por isso mesmo o seu gesto não foi um presentinho qualquer. Para mim valeu mais que qualquer outro. Não encontro palavras suficientemente adequadas para exprimir a gratidão e admiração que sinto por ambos. Se todos conseguíssemos imitá-los, se fossemos capazes de olhar com olhos de ver, de fazer uso daquela fraternidade que os impele a cuidar dos outros, de sentirmos mais com o coração do que com a razão como eles, talvez o mundo não estivesse a caminhar para o precipício como está.
Obrigado, compadres amigos. Quando eu for grande, quero ser assim como vocês…

(texto e foto)
01. 11. 2023