Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
domingo, 14 de agosto de 2022
Bodas de Alabastro
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
Não há volta a dar...
Sou, sempre fui, profundamente
arreigado aos afetos. Afeiçoado à família, aos amigos, vizinhos e conterrâneos,
sejam eles de freguesia, de concelho, de distrito, de província ou de nação.
Afeiçoado à minha aldeia como se ela fosse o único lugar no mundo, afeiçoado
também aos animais, às aves, ao vento, à chuva e ao sol, à infinita natureza e
a todo o seu misterioso esplendor. Afeiçoado ao mundo que me rodeia com muito
raras exceções. O berço humilde em que nasci e a família honrada à qual tive a
sorte de pertencer moldaram-me assim, razão pela qual dou graças quase todas as
noites antes de adormecer.
Sim, escrevi quase todas as noites e não todas as noites. Porque há algumas em que não me sinto motivado a agradecer por razão de qualquer coisa que me terá deixado amuado. Por exemplo se estou triste ou desiludido, cansado ou doente, irritado ou indignado. E quando isso acontece costumo amuar como uma criança – que acho nunca deixarei de ser – porque sim, e porque, ao não entender os porquês de algumas coisas, não sou obrigado a concordar com elas. Tenham as mesmas sucedido por suposto desígnio do Criador ou por outro qualquer.
Desde que me conheço tenho seguido e procurado cumprir os preceitos e comportamentos que me foram ensinados. Incansavelmente. Por isso me sinto também no direito de não aceitar ou contestar aquilo que não consigo perceber. Há muito que me esforço por compreender as respostas e sinais de tudo o que me rodeia. E também a ausência deles. Poderia descrever um cento dessas manifestações na primeira pessoa, mas seguramente muitos de vós não as iríeis entender como eu as entendi e provavelmente iríeis entender outra coisa qualquer ditada pelo vosso raciocínio. O que para mim, à luz das minhas crenças, pode ter sido um sinal, para vocês pode ser visto apenas como mera coincidência ou casualidade.
E há que respeitar todas as opiniões.
Sei, tenho plena consciência, de ser a mais imperfeita das criaturas. Mas sei também com toda a certeza que dentro das minhas humanas limitações e inúmeras imperfeições sempre tentei – e acho que conseguido – pautar cada dia da minha vida pelo caminho do bem, da honestidade, da lisura de carácter, do não fazer a ninguém aquilo que não quero que me façam a mim, conforme a formação que me foi ensinada desde tenra idade.
Daí que me desiluda e fique revoltado algumas vezes quando vejo ou sou alvo de injustiças de toda a ordem, faltas de honestidade ou de carácter, de sujos e inexplicáveis esquemas que têm como objetivo único prejudicar, denegrir, enxovalhar ou tirar proveitos indevidos. E é nessas ocasiões que não percebo e questiono zangado:
- Porquê?
- Se eu não o faço essas porcarias a ninguém, porque m'as fazem a mim?
É verdade que frequentemente todos somos postos à prova e temos que ter a capacidade de aceitar seja o que for, mesmo aquilo que nos fere e magoa. Porém, uma coisa é termos que irremediavelmente aceitar aquilo que vem, outra coisa muito diferente é sermos capazes de o entender.
E as perguntas surgem do nosso íntimo aos milhões:
- Porque há tantas coisas ruins neste mundo que se diz que Deus criou? Doenças incuráveis, guerras, atentados, refugiados, fome, sofrimento humano indescritível onde os mais atingidos são sempre os mais frágeis tais como, entre muitos outros, as mulheres, os velhos e as inocentes crianças?
- Porque há milhões de ricos a nadarem na abundância em contraste com outros tantos milhões de infelizes que nada têm, nem sequer o que comer?
- Porque existe tanta corrupção, cobardia, oportunismo, deslealdade e ganância humana?
- Porque...
- Porque... (ad infinitum)
Sofro com o declínio irreversível da minha terra porque nunca imaginei vê-la morrer primeiro que eu, sofro com este ensurdecedor e sepulcral silêncio que se foi instalando por quase todas as ruas, por cada casa vazia, mercê das políticas seguidas – e de progresso – de todos os governos das últimas décadas. Não posso fazer pela Beirã muito mais do que já fiz desde o dia em que, para começar, decidi comprar a casa dos meus pais para a ela regressar e definitivamente viver.
E não só.
Mas isso também são outros quinhentos.
Infelizmente as pessoas têm a memória curta.
Percebo hoje que tomei a decisão mais errada de toda a minha vida. Muitos Beiranenses, tal como eu, tiveram de procurar outros destinos em busca do sustento para si e para os seus. Mas naturalmente por lá foram também ficando e não mais voltaram. Cá deixaram os seus mais idosos e à medida que eles se foram finando as suas casas foram ficando desabitadas. Nem sequer a interesseira "moda" de agora se transformarem algumas delas em Alojamentos Locais, por outras palavras "mini-hotéis" turísticos que a Covid 19 impulsionou, irá trazer o desenvolvimento que definitivamente se perdeu. Tal como todas as outras modas, também esta vai ter prazo curto.
É só uma questão de tempo.
As pragas ruins são normalmente irreversíveis. E não há cura científica para esta variante de cancro que se chama "desertificação" e se propaga por toda a Freguesia da Beirã, prossegue por todo o Concelho de Marvão, continua por todo o Distrito de Portalegre, segue depois pelo Alto e Baixo Alentejo e contamina todo o interior de Portugal de Bragança a Vila Real de Santo António perante a mortífera indiferença dos sucessivos governos que só se preocupam com o bem-estar de quem habita as grandes metrópoles eleitorais.
Porque é lá que se ganham votos.
Cancro. Disse bem. E maligno. Incurável como aquele que levou o querido Amigo e Pároco Luís Ribeiro, uma perda tão inesperada para mim e para todos os seus paroquianos que passados alguns anos ainda não a consegui digerir nem aceitar. Com ele se foi também a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo que desde então tem vindo a extinguir-se lentamente. Por isso e por muito mais, tudo aquilo que planeei noutro tempo para a minha reforma e velhice, a qual imaginava muito tranquila e feliz nesta aldeia linda, ficou sem efeito. Vivo hoje um dia de cada vez sem acreditar já em nada, sem esperar também muito mais do que aquilo que me rodeia e entristece. Até mesmo a vigorosa fé que sempre foi a minha principal fonte de força, já perdi.
E aos poucos vou desistindo, deixando cair os braços.
Não há volta a dar.
José Coelho
quarta-feira, 10 de agosto de 2022
Não é Alentejano quem quer
Palavra mágica que começa no
Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal
e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.
O Alentejo molda o carácter de um
homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a
tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade
da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o
temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um
dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
Portugal nasceu no Norte mas foi no
Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o
berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de
refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um
homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao
longe.
Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar
ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia
para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar
com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum
fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há
longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida
não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a
tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu
entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no
mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da
Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da
esquina.
Para um alentejano, o caminho faz-se
caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco
da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O
problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco
da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste
quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos
portugueses e poucos alentejanos.
D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha
percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para
Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade
mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um
poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis
tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha,
assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a
mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O
que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»
Mas os alentejanos não servem só as grandes
causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para
desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que
Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer
os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na
mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este,
intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem
tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E
muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos,
graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao
sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.
E até nas anedotas, os alentejanos revelam
a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos
pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os
alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso
ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.
Mas para que uma pessoa se ria de si
própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter
sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo
de gama.
Não se confunda, no entanto, sentido de
humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o
tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as
desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior
honra do que ser objeto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as
pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si
próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.
E as anedotas alentejanas são autênticas
pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando
um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.
Não resisto a contar a minha anedota
preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa
carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo
molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó
amigo, porque é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.
«Isso queria eu, mas a janela está
estragada.», respondeu o alentejano. «Então porque é que não troca de lugar?»
«Eu trocar, trocava... Mas com quem?»
Como bom alentejano que me prezo de ser,
deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do
mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que
qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão
alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição
e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão
bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o
pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos
subir ao Céu!
É por tudo isto que, sempre que passeio
pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das
manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção
poderia um homem almejar?
Vou mas éi comer a açorda que
tenho mais que fazer.
João Mário Caldeira - Professor de História
terça-feira, 9 de agosto de 2022
Prioridade inadiável
segunda-feira, 8 de agosto de 2022
Pipocas
Eis que se inicia o melhor mês do ano, na Toca: Agosto, com recheio de netas (que já estão a ficar quase mais altas que o avô)!
domingo, 7 de agosto de 2022
Bom Domingo
A origem de
muitas das nossas decepções é pensarmos que os outros farão por nós aquilo que
nós fazemos por eles. Esperamos sempre a mesma sinceridade, o mesmo respeito e
a mesma reciprocidade, no entanto, isso nem sempre acontece. Os valores que
definem o nosso coração não são os mesmos que definem o coração dos outros.
Uma maneira simples de encontrar a felicidade pode residir no acto de minimizarmos as nossas expectativas. Quanto menos esperarmos, mais poderemos receber ou encontrar. É certamente um argumento um tanto controverso, no entanto, não deixa de ter a sua lógica.
"Não esperes nada de ninguém porque desse modo o teu coração irá armazenar menos decepções.”
Todos sabemos que, no que diz respeito às nossas relações, é impossível não ter expectativas. Esperamos que os outros tenham certos comportamentos porque desejamos ser respeitados, compreendidos e valorizados. Agora isso não impede que, por vezes, estas previsões falhem. Quem espera muito dos outros, geralmente acaba magoado.
Ninguém erra por tentar ver sempre o lado bom das outras pessoas. Temos o direito de procurá-lo, encontrá-lo e até mesmo promovê-lo, mas com alguma cautela. Porque a decepção é irmã das expectativas elevadas, por isso é mais apropriado não se deslumbrar antes do tempo.
As aparências não costumam enganar, mas o que muitas vezes falha são as nossas expectativas acerca dos outros.
Podemos esperar muito dos demais, no entanto, o certo é esperar sempre mais de nós mesmos.
Para o ajudar a deixar de esperar muito das pessoas ao seu redor, lembre-se do seguinte:
Ninguém é perfeito, nem sequer nós mesmos. Se fôssemos agradar às expectativas que os outros têm sobre nós, viveríamos stressados e infelizes. Por vezes é impossível, porque ninguém é um exemplo de perfeição ou virtude absoluta. Basta respeitarmo-nos uns aos outros e exercer a reciprocidade da forma mais humilde possível.
Aceite que nem sempre temos que obter algo em troca. Às vezes o melhor é aceitar que os outros são como são e que nem sempre vão fazer por nós aquilo que nós fizemos por eles.
E, claro, existem também aquelas pessoas que simplesmente não valem a pena. Que não nos respeitam nem merecem ter-nos na sua vida. Nesses casos é necessário desapegarmo-nos delas, por mais difícil que possa ser.
Para concluir:
Quanto menos esperarmos seja de quem for, menos surpresas teremos. Dessa forma seremos um pouco mais livres e a nossa felicidade será menos dependente do comportamento dos outros.
Somos todos falíveis, somos todos seres imperfeitos a tentar viver num mundo onde, por vezes as decepções são inevitáveis, mas no qual habitam também o amor sincero e as amizades duradouras.
Valeria Sabater






