Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
Amanhã fico triste, hoje não...
A acolitar o Padre Caetano no casamento do senhor amigo, referido neste texto.
Estávamos
em 1958 quando comecei a servir como acólito (ou sacristão) na igreja de Nossa
Senhora do Carmo da Beirã. Era pároco recentemente ordenado, o reverendo
Joaquim Caetano – hoje de avançada idade mas ainda completamente lúcido a
residir já no Lar para Sacerdotes do Seminário de Portalegre – e foi ele que me
escolheu para substituir o António Sarzedas que chegado a meio moço não queria
continuar. Para além dos meus pais, aquele reverendo sacerdote ensinou-me
coisas e transmitiu-me valores tais que também a ele fiquei a dever muito do
que fui pela vida fora quer como homem quer na formação do meu carácter e
integridade. Por isso guardo até hoje uma amizade, um respeito e uma
consideração sem limites, por ele.
Voltemos
um bocadinho atrás no tempo. Contava muitas vezes a minha falecida Mãe que
desde mui tenra idade, com 2 ou 3 anos apenas, eu desatava a correr rua abaixo
mal ouvia repicar os sinos da igreja:
- Zéi,
mas onde on’dé q’tu vas a correr tanto? Anda ma'sé p’ráqui antes que leves
alguma nalgada…
- Ia à
"misha", Mãe. Ia à "misha"…
Tinha que
ser assim. Tudo indica que o meu fascínio pelo divino começou logo na inocência
da mais tenra idade.
Veio
então, dois ou três anos depois, o convite para acólito do padre Caetano que me
tratava quase como a um filho. E porque os meus pais não tinham posses para me
comprarem roupas novas, era ele quem comprava os tecidos e mandava fazer as
minhas vestes domingueiras às costureiras que naquele tempo abundavam na
aldeia, para o acolitar devidamente aprumadinho com calções ou calças de
terilene, camisas de popeline, casacas e blusões. Até os sapatos domingueiros
me trazia também da fábrica Ebro de Santo António das Areias, pois por norma eu
andava de pés descalços durante a semana e para os domingos só tinha umas sapatilhas
de contrabando, de fraco pano e muito fatelas.
Não
haverá já por cá muita gente que se recorde destas coisas e as que houver se
calhar não irão ler as minhas memórias porque ou já serão bastante idosas ou
nem saberão ler. A propósito desta narrativa, aconteceu uma coisa curiosa no
final da primeira Missa Vespertina da nossa paróquia. Saíamos da igreja eu e o
novo Pároco quando apareceu um antigo e respeitável amigo - o Senhor Nicau -
que fazia anos nesse dia. E entre outras coisas que conversou com o Senhor
Padre Marcelino, disse-lhe também:
- Aqui o
“nosso” Zé Manel foi o sacristão do Padre Caetano no meu casamento. Está lá nas
fotografias! Ora se eu faço hoje 77 anos, veja lá o senhor padre há quantos
anos isso foi…
Saíamos,
escrevi eu, da primeira missa vespertina da Paróquia da Beirã. E fui
propositadamente buscar algumas das minhas memórias para utilizar em jeito de
introdução àquilo que vou escrever a seguir.
Sucedeu
nesse dia o que há muito se previa mas sempre acreditámos demoraria ainda algum
tempo a acontecer. Os sinos da igreja da Beirã que desde julho de 1943 tocaram
ininterruptamente todas as manhãs de domingo por cerca das onze horas a
convocar os fiéis para a missa, calaram-se a 10 de Setembro de 2016 para esse
efeito, provavelmente para sempre. Como dizem os Evangelhos “a vinha do Senhor
é grande e os trabalhadores são poucos”. Foram exatamente essas as
circunstâncias que precipitaram e obrigaram a redesenhar o mapa dos
acontecimentos com a inesperada partida para a eternidade do Reverendo Padre
Luís Ribeiro. Tentando manter vivas as comunidades cristãs dentro dos
curtíssimos limites do humanamente possível, a habitual Missa Dominical da
Beirã teve que passar à categoria de Vespertina no final das tardes de sábado.
Foi o melhor que conseguiu planear o novo Pastor que o veio substituir.
Não sendo
nada fácil para ele, o nosso dever é não só acatar a nova realidade como também
ajudá-lo. Pelo meu lado, embora a minha saúde não esteja por aí além muito
famosa já, continuarei a fazer o que sempre fiz desde 1958. Mas fiquei triste.
Inevitavelmente. São já quase incontáveis as perdas. Foram-se os entes
queridos, quase todos os vizinhos e muitos bons amigos. Até os comboios que,
não sendo gente, eram a vida e a alma desta aldeia. Nunca imaginei que amava
sem dar por isso o agudo apito das ruidosas locomotivas pois só o descobri
quando elas deixaram de vir e apitar. No dia 10.09.16 foi-se também a missa
dominical, aquela cujo repicar dos sinos me fazia desatar a correr rua abaixo
há mais de sessenta anos atrás.
Neste
momento a melhor forma de vos dar conta do meu estado de espírito talvez seja
reescrever o poema encontrado na parede de um dos dormitórios para crianças do
campo de extermínio nazi de Auschwitz:
“AMANHÃ
FICO TRISTE… AMANHÃ!
HOJE NÃO…
HOJE FICO ALEGRE!
E TODOS
OS DIAS, POR MAIS AMARGOS QUE SEJAM, EU DIGO:
AMANHÃ
FICO TRISTE, HOJE NÃO…”
José
Coelho
In
Histórias do Cota
(resumido)
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Meu vício de ler...
Imagem copiada do Google
Desculpe estragar
a festa, mas o Natal não existe
Há uma ideia
generalizada de que o Natal é a comemoração do nascimento de Jesus. Desculpe
estragar a festa, mas Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro nem há 2018 anos
atrás. Então vejamos.
No tempo do
Império Romano, havia uma festa dedicada a Saturno (deus grego Cronos/tempo e
da agricultura), denominada de Saturnalia, marcando o solstício de inverno. Era
uma data muito importante para os povos agrícolas, como o caso dos romanos. Uma
festa popular, para agradar os deuses e pedir que o inverno fosse brando e o
Sol retornasse ressuscitado, no início da Primavera, o renascimento da vida. O
culto solar era celebrado nos dias 24 e 25 de Dezembro, data de nascimento da
divindade. Era um período de suspensão do trabalho, de visitar parentes e
amigos, de ser generoso, solidário, de oferecer prendas. Isso lembra o Natal,
não?
No século IV, o
politeísta imperador Constantino converte-se, oficializa o Cristianismo e
nasce, assim, a Igreja Católica. Absorveu e ressignificou práticas pagãs
diversas; neste caso, o festejo pagão da Saturnalia, transformando-o numa
celebração cristã. O Papa Gregório XIII, no século XVI, com a criação do
calendário gregoriano, fez o resto. A partir daí, o nascimento de Cristo (que
não nasceu no dia 25 e ninguém sabe a data exata) começa a ser celebrado pelos
cristãos.
Portanto, o Natal
não existe, pelo menos não da forma como a maioria imagina – o nascimento do
menino Jesus.
Em que se
transformou, hoje, esta antiga data pagã?
Uma cultura do
consumo. Capturada pelo comércio, a data é para vender coisas, na sua grande
maioria supérfluas. Uma agressiva propaganda na televisão, jornais, revistas,
na internet, provoca uma azáfama, planos, listas de compras, centros-comerciais
lotados, lojas abarrotadas de gente, ávidas para comprar. As crianças de hoje,
exageradamente mimadas, exigem e obtêm, um sem número de prendas. Às vezes, são
tantas que não conseguem abri-las todas ou valorizam mais as embalagens do que
os próprios brinquedos.
É a época dos
políticos e governos, maioritariamente corruptos, que passam o ano a roubar e a
esbanjar os impostos e, nesta data, mandam belas mensagens e participam em
jantares junto com os pobres, com os sem abrigo, miseráveis estes que os
próprios políticos e agentes do governo criaram (ou ajudaram a criar) ao
desviar o dinheiro que poderia garantir a comida e o bem-estar deles o ano
todo. É lógico que esta ‘solidariedade’ natalina dos políticos deve ser sempre
acompanhada por uma ampla cobertura da imprensa.
É a época das
pessoas famosas, do jet-set, atores/atrizes, jogadores de futebol, que passam o
ano a ganhar milhões e a sonegar impostos (prejudicando os contribuintes e os
mais pobres), aparecerem na TV em programas ‘beneficentes’ para dar a entender
que são solidários. Ficam sempre bem vistos perante a sociedade.
As autarquias
gastam imenso dinheiro com enfeites de Natal e deixam os desabrigados a dormir
na rua. Por exemplo, Lisboa gasta todos os anos mais de um milhão de euros,
quantia que dava para abrigar/proteger, tirar da rua, definitivamente, todos os
moradores de rua da cidade.
Todos, decisores
políticos ou não, deviam assistir o emocionante filme Cardboard Boxer (2016)
para ter uma ideia da vida miserável destes excluídos da sociedade. Mas há
outros marcantes filmes do género: deixem para lá o já cansativo Sozinho em
Casa (1990), que repete todos os anos, e assistam The Saint of Fort Washington
(1993), Accidental Friendship (2008), The Soloist (2009), Time Out of Mind
(2014), alguns baseados em dramáticos factos reais e todos expondo, de maneira
super realista, a extrema dureza da vida de uma pessoa sem um lar para chamar
de seu e sem um Shelter (2014), um endereço fixo, para mandar uma carta ao Pai
Natal.
O que podemos
fazer então para celebrar o Natal? Simples: é ser (genuinamente) solidário com
os mais necessitados e, seguindo os verdadeiros ensinamentos de Cristo,
respeitar e amar uns aos outros. E, se pensarmos bem, por que é que temos de
esperar pelo Natal para fazermos isso? Ah, e o mais importante de tudo: não
precisamos de dizer a toda a gente e postar no Facebook as fotos da
generosidade. Não se esqueçam da lição de Antoine Saint Exupéry, no
Principezinho: “o essencial é invisível aos olhos”.
Donizete
Rodrigues, Professor de Sociologia, Universidade da Beira Interior, in
Observador.pt - 22.12.2018
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
No teu dia e onde estiveres, um abraço cheio de saudades, Pai...
António Maria Coelho
05-11-1910 // 23-01-1994
"Desde que chegara a Lisboa, eu
estava muito piegas. As lágrimas assomavam-me aos olhos por tudo e por nada
inexplicavelmente. E acho que nunca mais me curei da pieguice de que nada me
envergonho por ser coisa que herdei do Pai, o qual, muitas vezes e com a maior
facilidade, chorava. Bastava dar-lhe um beijo ou um abraço ou fazer-lhe um
carinho qualquer. Fossem os filhos ou os netos. Penso que por ser pessoa tão
bondosa, comovia-se facilmente e muitas vezes sem qualquer razão aparente.
O elegante comboio azul TER chegou por fim à estação
de Castelo de Vide, a penúltima antes da Beirã. Faltava um quarto para as onze.
A paisagem tão querida e tão familiar começou a desenrolar-se diante dos meus
extasiados olhos. Que delícia! Que saudades eu tivera das minhas pedras, dos
meus sobreiros e giestas, daquele aroma cálido e perfumado dos campos secos do
início do verão, longe do húmido, pegajoso e interminável verde, da floresta
tropical.
Parecia ainda quase um sonho mas ali estava Castelo de
Vide de um lado da linha, e, do outro, os canchais pontilhados de carvalhos,
sobreiros, oliveiras, hortas e casas brancas isoladas, aqui e além. Era
mesmo verdade. Ia no comboio que me levava finalmente para casa, para junto de
todos os entes queridos. Passámos a Ponte das Águas e mais além avistei o
Monte da Broca com a grande e sempre tão bem cuidada horta do Pai.
Ufff…
Ainda hoje me arrepio com essa
recordação!
Logo a seguir o campo da bola e o Penedo
da Rainha. E lá vinha ele quase a correr pela estrada do Pereiro antes da
cancela da passagem de nível. O meu Pai! E a porra da janela do TER que não
abria! O comboio era climatizado por isso as janelas eram de vidros fixos!
Fiz-lhe adeus. Ele viu, conheceu-me e fez-me adeus também. Depois de tanto
tempo. Depois de ter temido tantas vezes não voltar a abraçá-lo.
Poucos minutos depois, especado à porta da
nossa casa, ofegante ainda pela correria desde a horta, aguardava-me com os
olhos marejados de grossas lágrimas.
- Meu querido Pai...
- Até que enfim, filho!
Abraçá-mo-nos um ao outro a chorar parecendo duas madalenas arrependidas como se ainda temêssemos que fosse mentira num inesquecível momento de mútuo carinho que guardarei na memória o resto da minha vida..."
José Coelho
in Histórias do Cota
(excerto)
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