sábado, 8 de setembro de 2018

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Coisas qu'escrevi...

Foto by Maria Coelho

"... No silêncio que tomou conta dos meus dias venho amiúde sentar-me aqui, ao cimo da minha aldeia, para, cada vez mais, encher a alma desta paisagem que me é tão querida e da qual nunca me canso, quiçá com a imperceptível certeza do dia - que há-de sem dúvida chegar - em que não voltarei a vê-la. E fico assim, horas a fio a pensar, a recordar, a deixar-me invadir pelas lembranças que me trazem de volta muito daquilo que vivi neste para mim sagrado chão..."

José Coelho in "Do alto do meu reino"

Tenho tanto sentimento...

Foto by José Coelho

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental.
Mas reconheço ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada.
E, a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada

Qual porém é a verdadeira
E qual a errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa
In Cancioneiro

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Meu vício de ler...



Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.

José Luís Peixoto, in 'Morreste-me'

domingo, 2 de setembro de 2018

Boa semana...

Auto-retrato 01-09-2018

Na convivência, o tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa é o que ficou desse minuto, dessa hora, dessa vida. Lembra que o que importa é que tudo o que semeares, colherás. Por isso, marca a tua passagem. Deixa algo de ti, do teu minuto, da tua hora, do teu dia, da tua vida...


Mário Quintana

sábado, 1 de setembro de 2018

Setembro'18...

Foto by José Coelho

O sol que queimou a face da terra
E secou de água ribeiros e fontes
Vai dando lugar na encosta da serra
 Às folhas caindo e formando montes


O ar abafado incómodo e quente
Ficará mais fresco, o dia pequeno
Setembro que leva o calor ardente
 Em troca nos traz o sol mais ameno


Setembro é silêncio, é melancolia
Castanhos d'outono, sossego, lembrança
Com pios dos mochos ao findar o dia
É tempo do tempo fazer a mudança


Setembro é o mês cujas madrugadas
Trazem a maresia ao sol da manhã
E deixa as ervas de gotas orladas
 P'los campos bonitos da minha Beirã


Na roda que roda veloz como vento
A vida foi breve e tudo levou
Deixando lembrança de cada momento
Na roda do tempo (só) Setembro voltou


Beirã, Setembro de 2005 
José Manuel Lourenço Coelho
(Modificado em Setembro'18)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Meu vício de ler...

Imagem copiada do Google


Pedrógão, uma vergonha coletiva


Há um estranho desconforto que se apodera de nós perante os crescentes pormenores de irregularidades no processo de reconstrução de Pedrógão Grande. Podemos apontar o dedo e alegar que felizmente nunca seríamos aquilo, mas nas trapalhadas e denúncias a que vimos assistindo está um pouco do país espelhado.

Poderes e serviços que deviam ser garante do cumprimento da lei e da boa gestão dos bens públicos encolhem os ombros e tentam minimizar as falhas cometidas. Pessoas que abusaram da sua condição de vítimas justificam-se com os erros dos outros e elaboram desculpas para transformar o puro oportunismo num direito. Contratações e subcontratações feitas sem transparência resultam em obras sem qualidade e sem sentido das prioridades. À distância, uma sociedade inicialmente solidária e presente demarca-se, generaliza os abusos e admite desconfiar de tudo.

A tragédia de Pedrógão Grande foi única na dimensão dos estragos e na exposição da vulnerabilidade do interior. Mas foi igualmente única na enorme mobilização de apoios, nas demonstrações de solidariedade, na quantidade de instituições e respostas no terreno. Se, por uma vez, fomos obrigados a olhar para as nossas maiores fragilidades de país desequilibrado, exigia-se que com isso tivéssemos aprendido alguma coisa. E que a tragédia de Pedrógão se transformasse em oportunidade - dolorosa, sempre, mas ainda assim uma oportunidade.

O que vemos, pelo contrário, é uma tragédia transformada em vergonha. Uma vergonha apenas possível porque ao longo dos anos fomos normalizando comportamentos abusivos nos poderes políticos, nos serviços públicos e na intolerável tendência para procurar ou condescender os "favorzinhos". Que ninguém desvie o olhar de Pedrógão. Do que foi e do que é urgente conseguirmos ser.


Inês Cardoso in JN 27.08.18